Conferência Nacional RISE (Roma Inclusive School Experiences)

19 十一月 2019

Conferência Nacional RISE (Roma Inclusive School Experiences)

Esta Conferência Nacional pretende dar conta dos resultados alcançados com o projeto RISE, na linha do desenvolvimento de algumas políticas educativas recentes, e da implementação da Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas.

A apresentação e o programa da conferência poderão ser consultados em:

https://www.ie.uminho.pt/pt/_layouts/15/UMinho.PortaisUOEI.UI/Pages/EventsDetail.aspx?id=55296#

19 de novembro de 2019 | Auditório Multimédia do Instituto de Educação da Universidade do Minho - Campus de Gualtar-Braga

A entrada é gratuita, mas sujeita a inscrição para o email conf2019rise@gmail.com, até às 13h do dia 18. 

Universidade do Minho, Braga
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ObCig lança Newsletter "População Cigana e Mercado de Trabalho" (outubro de 2019)


Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte I), Entrevistas, Francisco Azul

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Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte I), Entrevistas

FRANCISCO AZUL
Entrevista realizada em outubro de 2019, Lisboa

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O que acha da integração da população cigana no mercado de trabalho que não seja o trabalho tradicional (por exemplo, a venda em feiras)?

Francisco Azul (FA): A integração da população cigana no mercado de trabalho formal vem, advém, de um fator que é a forma tradicional de ganhar a vida da comunidade cigana estar a terminar devido a diversos fatores, entre os quais a criação das grandes superfícies comerciais que vieram no fundo acabar com as feiras, porque o preço das peças que se vendem nas feiras é muito equivalente ao preço que vendem nos supermercados. E claro, as pessoas, digo eu, pelo lado do conforto de estarem num centro comercial, com mais variedade de produtos, aproveitam para em vez de irem às feiras, ao mercado informal, irem ao mercado formal. Além de que as feiras e a comunidade cigana, devido também à distância que há entre feiras, àquilo que se paga quase mensalmente pelo arrendamento, digamos assim, dos espaços nas feiras, não compensa. E, portanto, a forma que nós chamamos tradicional de ganhar a vida cigana termina por causa desses fatores. Outros fatores são também que a população cigana percebe que é necessário e que é uma mais-valia, sobretudo os jovens e esta nova geração, continuar a estudar. E o facto destes jovens continuarem a estudar... Percebem que querem ter uma profissão para o resto da vida, uma profissão, um salário fixo. E as feiras muitas das vezes ou quase sempre não temos sempre a certeza do que é que vamos vender, se vamos vender o nosso produto hoje muito, amanhã podemos vender pouco e isso faz com que a comunidade cigana perceba que é necessário uma mudança e essa mudança está a acontecer e cada vez mais vemos população cigana no mercado de trabalho formal. Se bem que, no mercado de trabalho informal, aquilo que nós chamamos as feiras, muitos destes ciganos trabalham muitas horas. Para termos um exemplo, eu tenho na minha família pessoas que ainda fazem feiras e acordam às 5 ou 6 da manhã para fazer um mercado e só regressam a casa às 7, 8, 9 horas da noite, portanto, há aqui uma jornada de muitas horas fora de casa, sem ver os filhos, a família. Portanto, quando nós pensamos sobre estas coisas temos de ter uma visão destas situações. Eu acho que isso é importante ter em consideração, quando nós metemos na ideia “o cigano vai para a feira e aquilo não é um mercado, aquilo não passam lá muitas horas, aquilo não é muito trabalhoso”. E aquilo é muito complicado, sobretudo no inverno com chuva.

 

ObCig: Quando começou a trabalhar nesta empresa ou organização e como surgiu a oportunidade?

FA: Eu comecei a trabalhar para o Alto Comissariado para as Migrações no ano de 2016, salvo erro em outubro ou novembro, já não sei o mês, 2016. E a oportunidade surgiu quando estava a estudar. Estava na licenciatura de Serviço Social e surgiu a oportunidade, surgiu o convite de integrar a equipa do antigo gabinete de apoio às comunidades ciganas e pronto foi assim que surgiu o convite. Trabalhar em part-time, enquanto trabalhava e estudava, foi também um crescimento no fundo. Uma oportunidade que assim que aconteceu agarrei com as duas mãos, porque sabia que eu ia crescer profissionalmente, que ia ter oportunidade de trabalhar numa organização já com alguns anos, uma organização que faz um trabalho muito importante não só com ciganos, mas com refugiados e imigrantes. Ia-me dar uma visibilidade, à minha vida e àquilo que eu gostava de fazer no futuro grande. E no fundo, aproveitei e fiz aquilo que um cigano muitas vezes faz que é aproveitar as oportunidades para crescer profissionalmente, mas também ajudar a sua comunidade e todas pessoas, que no fundo necessitam de ajuda. E nós temos este problema que está a ser solucionado, um problema que nós sabemos que tem de ser solucionado, que é o dos refugiados, o dos imigrantes e da comunidade cigana e, portanto, o convite foi bom, muito bom para mim e tem sido espetacular ajudar a comunidade cigana e não só, as outras comunidades a integrar-se no nosso país. E também serem uma mais-valia para o nosso Portugal.

                                                                                                                                             

ObCig: O que fazia antes?

FA: Eu antes de vir para o ACM, e voltando um pouquinho atrás, acho que é importante explicar um pouco o que foi o meu percurso escolar até chegar à Universidade e agora aqui ao ACM. Então, estava no 7º ano, entrei num curso de Técnicas de Venda, só que como na altura a escola não era bem aquilo que eu queria, ou melhor, não era aquilo que eu desejava na escola, comecei a faltar imenso às aulas, a esse curso de Técnicas de Venda. Mas aquilo para mim não fazia muito sentido e então como faltava muito, a escola resolveu retirar-me, entre aspas, do curso, e voltar para o ensino regular. O que fez com que voltasse para uma turma, tinha para aí 16 ou 17 anos, numa turma de 7º ano com miúdos de 13 anos. E então aí quando voltei ao ensino regular e percebi que tinha andado a tomar decisões super incorretas para a minha vida e ainda era um jovem com 16, 17 anos, que no fundo ainda estava a ser padrinho daqueles miúdos lá na escola, porque eles viam-me como o mais velho, como o nosso elemento mais velho, ainda por cima cigano… E aquilo, parecendo que não, muitas vezes nós para darmos um passo à frente é necessário darmos alguns passos atrás. E foi aí que eu percebi que queria ser alguém na vida e se queria uma vida melhor para mim tinha de continuar a estudar. Então tendo em consideração que aqueles jovens viam também em mim uma proteção, comecei a ir às aulas todos os dias, fiz o 7º, 8º e 9º ano no regular, e depois eu queria continuar no ensino regular, mas nessa altura surgiu um curso na minha escola que era de Técnico de apoio à gestão desportiva e como eu na altura jogava futebol e gostava muito da questão do desporto resolvi então ir pela via profissional nesse curso de Técnica de apoio à gestão desportiva. Foi interessante que durante este período tive uma ajuda espetacular da minha escola, a Escola de Santo António no Barreiro, que sempre me apoiou e sempre me deu também as bases para chegar aqui onde estou, mas tinha alguns professores e sobretudo um professor que me dizia que, ele era professor de português, enquanto cigano podia ter o melhor de dois mundos, algo que nenhum outro jovem que não era cigano podia ter, ele dizia-me que num dia eu posso estar, posso ir ajudar os meus pais na feira, posso ir a um casamento, mas depois também tenho esta parte da intelectualidade, da formalidade das coisas, algo que ele me dizia que me ia dar muito jeito no mercado do trabalho. E a verdade é que me tem dado jeito, esta questão do fazer o negócio quando ia para as feiras, da questão humana de falarmos com as pessoas, porque nós nas feiras temos que vender o nosso produto e isto vai-nos ajudando. E portanto, quando o professor me diz isto fez um click em mim, e de fato esta memória do professor de português, professor Roberto Pinto, colocou na minha mente, e a escola também, mudou de facto tudo aquilo que eu pensava. E então fiz o 10º, 11º, 12º em Desporto, e depois de terminar o 10º, 11º, 12º ano eu pensei assim, bem, já que fiz isto porque é que não vou continuar para a faculdade. E então eu pensei, vou para desporto, vou continuar a área do Desporto. Depois fui ver a minha média e infelizmente para entrar aqui em Lisboa a minha média não chegava, tinha que ir para Rio Maior, e aqui pensei muito na minha vida e comecei a pensar naquilo que são os pilares para a comunidade cigana porque ao fim ao cabo a família para a comunidade cigana é o elemento mais fulcral e mais central e eu pensei não posso ir para Rio Maior porque vou ter de ir viver lá, vou ter que arranjar outra forma de me sentir feliz, de me sentir bem comigo próprio e então surgiu a questão do Serviço Social. Porque durante este período, desde o 7º ano em que eu abri a minha mente até chegar ao 12º, lá na escola, como eu disse, apoiavam-me imenso e fazia imensas sessões lá na escola e era padrinho dos miúdos que chegavam novos e fazia muitas vezes a ponte entre o bairro e a escola. Isso também... Foi crescendo em mim o bichinho do empoderar as pessoas, empoderar sobretudo as comunidades ciganas. E então pensei... Porque não Serviço Social? Entrei em Serviço Social, terminei e pronto. E durante este período foi isto a minha vida. Ah! Há uma coisa muito importante. Tive três anos da minha vida em que acordava às 8 horas, ia para o trabalho das 9 horas até às 17horas, das 17 horas às 21 horas ia para a faculdade, e depois das 21 horas ia treinar, porque até ao ano passado jogava futebol, futebol 11 numa equipa amadora, digamos assim, mas que no fundo também me ajudava imenso nestas questões. 

 

ObCig: Relação com os/as colegas?

FA: A relação com os meus colegas como devem imaginar é super boa. Sobretudo no meu gabinete que são mais raparigas do que rapazes, é bom, é muito bom, porque aprendemos imensas coisas sobre aquilo que é trabalhar com mulheres e elas estão nos sempre a dizer, "tens que ser focado" e isso tem-me ajudado imenso no meu trabalho. Com os restantes colegas do ACM, a ideia que eu tenho e espero que seja essa ideia que eles têm é que sempre que falamos e comunicamos alguma coisa, sobretudo sobre as comunidades ciganas, as pessoas ficam com aquela vontade de continuar a trabalhar na integração das pessoas ciganas e não só. Eu acho que essa ideia que passa muito aqui no ACM é que temos de ser capacitados, temos de capacitar estas pessoas e que, no fundo, temos de dar o nosso máximo para ajudar estas pessoas. Nós temos inúmeros exemplos, inúmeros eventos que nós fazemos por ano que têm dado ótimos resultados e espero que a minha relação com os meus colegas continue a ser espetacular.

Trabalhar no ACM foi a minha primeira experiência de trabalho formal, porque eu ajudava os meus pais nas feiras ao fim-de-semana, tinha a minha própria banca. Mas em termos formais, foi a minha primeira experiência de trabalho e acarretar com tantas responsabilidades logo de início confesso que não foi fácil para mim, até porque vinha de um meio muito pouco formal. Nós sabemos que as comunidades ciganas logo desde o início temos esta questão da autonomia e da responsabilidade para com a família enorme, mas com o leque alargado de pessoas não é tão fácil e, sobretudo preencher boletins de itinerários, picar o ponto e todas essas coisas, que no fundo tive que ir adquirindo. E com a ajuda das minhas colegas claro que fui conseguindo. E claro que agora é mais fácil, apesar que a formalidade ainda hoje é um obstáculo para mim, confesso.   

 

ObCig: O que valoriza mais no trabalho assalariado?

FA: Aquilo que eu valorizo mais no trabalho assalariado é de facto a estabilidade financeira que nós temos na nossa vida, na nossa casa. Eu, dando o meu exemplo, casei recentemente, tenho um filho com um mês e meio, e ter aquele dinheiro fixo ao final do mês para mim é uma garantia que nada vai lá faltar em casa. E acho que é isso que mais se valoriza no trabalho assalariado, ao contrário das feiras que têm diminuído o volume de feiras e os preços mantém-se sempre por m2 e nós não sabemos se hoje vendemos, amanhã não vendemos. Há muitos fatores que podem fazer com que não se venda e há muitos fatores que podem fazer com que se venda. No trabalho assalariado temos mais confiança e sabemos que podemos contar com aquele dinheirinho ao final do mês.  

 

ObCig: O que acha que pode e deve ser feito para potenciar a integração da população cigana neste tipo de trabalho? No que diz respeito à sociedade dita maioritária? No que diz respeito à população cigana?; No que diz respeito às políticas públicas?

FA: Em relação à pergunta sobre o que pode e deve ser feito para integrar as pessoas ciganas no mercado formal, eu acho que temos de ter em conta três fatores: aquilo que a sociedade maioritária pensa da sociedade cigana e o que pode ser feito, aquilo que a própria comunidade cigana pensa do mercado de trabalho e quais são as políticas públicas que existem para que a comunidade cigana se envolva no mercado formal. Então, em relação à sociedade maioritária aquilo que se pode fazer, na minha opinião, eu julgo que existe um grande desconhecimento daquilo que é a comunidade cigana e daquilo que é a história e cultura cigana em Portugal. Ou seja, as pessoas que não são ciganas não sabem o que é que é verdadeiramente um cigano e aquilo que é verdadeiramente importante para um cigano. Depois a sociedade cigana, digamos assim, a comunidade cigana vê no mercado assalariado um projeto a longo prazo e para se chegar à forma assalariada de receber o dinheiro é preciso estudar. E nós sabemos que a comunidade cigana tem objetivos a muito curto prazo, derivado, podemos estar a falar aqui em muitas coisas, aos contextos históricos ou o que quer que seja, mas a realidade é esta, e portanto para modificarmos tanto o comportamento tanto da sociedade maioritária no desconhecimento da cultura cigana, mas também capacitarmos os ciganos e ajudar esta comunidade, apesar de ter coisas boas, de que ter um trabalho assalariado pode trazer estabilidade a estas vidas, eu acho que temos de investir em políticas públicas que visem colmatar as deficiências que existem na sociedade maioritária em relação à comunidade cigana, mas também na comunidade cigana em relação à sociedade maioritária. Portanto, poderia dar aqui imensos exemplos, que nós aqui no Alto Comissariado para as Migrações temos realizado neste âmbito. Aqui, no âmbito da Educação, eu acho importante referir o Opré Chavalé, que agora é o OPRE - Programa Operacional para a Educação - e este programa que é uma política pública do Alto Comissariado para as Migrações tem apoiado jovens ciganos que estão no ensino superior. Aquilo que temos feito é conceder uma bolsa de estudos que dá sobretudo para pagar as propinas, alguns transporte e materiais escolares, mas conseguimos com que estes jovens possam estar na faculdade e depois possam também integrar-se no mercado de trabalho, não no mercado de trabalho em postos sem poder, digamos assim, mas em postos em que eles possam também ser uma mais-valia e um exemplo para a comunidade cigana. E tendo em consideração este programa, julgo que podemos dizer que estes jovens podem ser líderes, digamos assim, da comunidade cigana. E também para mudar a visão que a sociedade maioritária tem dos ciganos. Depois também temos no âmbito da nossa Eestratégia o Fundo de Apoio à Estratégia Nacional, o Programa de Apoio ao Associativismo Cigano. Estes dois programas têm como objetivo apoiar as associações ciganas e não ciganas no trabalho com as comunidades ciganas. E isso também é importante para que cada vez mais as associações ciganas e não ciganas possam divulgar aquilo que é a história e a cultura cigana através destas políticas públicas que eu acho que são importante. Depois também existe o trabalho do ObCig que eu acho que é super importante na realização de campanhas de sensibilização para mudar mentalidades em relação àquilo que é, no fundo o sermos seres humanos. E aquilo que eu gostava de terminar... E se, pensarmos bem, são mais as coisas que aproximam a comunidade cigana da sociedade maioritária do que aquela que nos afastam. Aquilo que aconteceu foi um período muito atrás na história que fez com que a comunidade cigana e a sociedade maioritária tivessem imensas divergências que eu acredito que, com estas pessoas ciganas que se estão a formar, com o Alto Comissariado para as Migrações e também com o entendimento que tem existido entre os vários Ministérios, consigamos diminuir o gap entre ciganos e não ciganos.    

 

ObCig: Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

FA: Existe um provérbio cigano que eu acho que é muito verdadeiro, que é: "A mais bela fogueira começa com os mais pequenos ramos". Eu costumo dizer sempre isto quando falo em público porque o facto de estarmos aqui a fazer estas entrevistas, de existir as associações ciganas, de existir o ACM, de existir o ObCig, pode ser esta primeira fogueira que eu acredito que depois vai ser maior e que vai ajudar ciganos e não ciganos a encontrar-se. 


Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte II), Entrevistas, Fernando Carmo

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Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte II), Entrevistas

Fernando Carmo
Entrevista realizada em outubro de 2019, Lisboa

 

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O que acha da integração da população cigana no mercado de trabalho que não seja o trabalho tradicional (por exemplo, a venda em feiras)?

Fernando Carmo (FC): É uma pergunta que generaliza um pouco o povo, não é? Eu não posso generalizar porque eu estou no mercado do trabalho como prestador de serviços por alguém que me cedeu uma posição viável para eu poder ter algum tipo de conforto. No salário que podemos fazer... Mas acho que sim, o mercado de trabalho alargou um pouquinho mais os braços, abriu mais as portas e deu mais novas oportunidades. Mas ainda assim com muitas reticências quando existe a possibilidade de saber que somos um povo português cigano. Existe sempre, sempre vai existir, mas cada vez menos.

 

ObCig: Quando começou a trabalhar nesta empresa ou organização?

FC: A empresa em si, não foi a primeira empresa que me cedeu uma posição de trabalho. Eu comecei a trabalhar sensivelmente entre 22 e 24 de novembro de 2017 quando cheguei do estrangeiro. Foi uma oportunidade que me fez sonhar ficar no país e não ter que procurar mais nada fora do conforto do lar. Mas desde que comecei, este foi o segundo patrão, nas aplicações TVDE, UBER, BOLT e companhia limitada, são chamados de parceiros e não patrões. Sim, foi este o segundo patrão que eu tive até agora, uma excelente pessoa, sabendo que eu pertenço a uma comunidade que estava até há um tempo esquecida. Abraçou a ideia de ter um povo português cigano a trabalhar para ele, às vezes até brinca com a situação, e diz sentir-se seguro porque desta forma não sou acossado por outros condutores de outras plataformas.

 

ObCig: Como surgiu a oportunidade?

FC: Foi uma oportunidade que surgiu assim de uma forma caricata. Eu como emigrante, sem contrato definitivo no estrangeiro, procurava tudo o que houvesse para fazer, tudo o que estivesse ao meu alcance e que eu pudesse realizar. A minha esposa disse que era tempo de mais. Ela começou a fazer alguns contactos aqui em Portugal e surgiu então a hipótese de eu vir para Portugal e poder estar apenas quinze ou vinte dias à espera até que a posição de trabalho me fosse cedida, o que me agradou bastante, porque era um sonho, conseguir um trabalho. Que anteriormente este trabalho… O nosso mercado de trabalho não abria portas, mas depois de começarmos a trabalhar e ter contactos com outras pessoas, aí sim. Sentir-se mais à vontade de no futuro eu também poder executar outros trabalhos quaisquer. Mas sim, foi uma maravilha eu ter voltado e ter ficado por cá. 

 

ObCig: O que fazia antes?

FC: Emigrei porque durante cinco anos fui inscrito no centro de emprego da zona de morada e fui a todas as reuniões, fui a várias entrevistas. Enquanto eu falava no telefone ou escrevia emails, enviava os meus CV´s, toda a gente me dava oportunidade, mas quando eu ia pessoalmente falar, a primeira reação era que “lamentamos mas para si não dá”. Eu desisti, fui obrigado a procurar em França, Inglaterra, Irlanda, corri vários países na Europa, até que me fixei durante um tempo na Inglaterra e depois um largo tempo na Holanda também a trabalhar.

Antes realmente de eu emigrar, antes de eu abrir na minha própria ideologia à vontade de eu estar no trabalho português... Aliás no mercado português de trabalho, eu era feirante. Eu amava aquilo que eu fazia, adorava pôr a banca, adorava nos dias que eu punha a banca, estava às vezes um pouquinho de chuva, acalentar os clientes, trazê-los para perto de mim e apresentar-lhe o produto que eu também servia. Mas derivado a várias situações que o governo foi impondo, às dificuldades que havia e depois à concorrência desleal que surgiu com grandes empreendedores de outros países estrangeiros, não vou citar ninguém em especial, as nossas roupas, os nossos bens pessoais, os nossos objetos e derivados de tudo aquilo que você possa imaginar, calçado, roupa, efeitos para casa, mobília, tudo isso perdeu valor. O nosso produto português que tem reconhecimento internacional deixou de ter aceitação nos mercados. Onde nós conseguíamos de vez em quando ganhar alguma coisa era aí. Era no produto de qualidade. Não era tanto no preço. Mas o povo que compra e que vai aos mercados deixou de comprar porque o poder de compra baixou. Como o poder de compra baixou, eu não consegui enfrentar a quebra enorme que teve. A partir daí desisti dos mercados e tentei então aí sim, um trabalho no nosso mercado de trabalho nacional ,o que se tornou impossível.

A mudança aconteceu sensivelmente no ano 2000/2001, porque eu comecei a trabalhar entre 92/93 sozinho com a minha esposa, após o meu casamento, e comecei a tentar uma vida melhor, no trabalho árduo mas leal. Não foi nada por ali além de grande mundo, mas sempre consegui ter algum, um pouquinho de parte, para o meu dia-a-dia com a minha esposa, para não fazer falta algum tipo de dinheiro para comprar um sapato, ou uma vez em quando por mês poder passear um pouco, e fazer da nossa vida uma vida limpa, satisfatória e condigna. Mas a partir do ano 2000/2001 quando esse mercado de oferta ficou abaixo do preço que era normalmente feito por nós para os nossos clientes, foi aí que eu vi que não ia dar futuro, desisti, porque os impostos eram altos, a roupa era cara e o nosso lucro, quando íamos ver o nosso lucro era tão baixo que não valia o esforço. Era de mais. Foi entre 2005 e 2006 que eu comecei a responder a tudo o que eram emails que me mandavam do estrangeiro e eu tentei mesmo com os trabalhos temporários de dois/três meses suportar as despesas que a minha esposa e os meus filhos tinham em Portugal. Foi difícil, foi uma era muito má, para outros que como eu não têm uma experiência académica superior, tinha apenas o sexto ano concluído, mas a minha experiência no estrangeiro conseguiu dar uma equivalência um pouco melhor, o que faz com que eu hoje tenha o trabalho que eu tenha e as ofertas de trabalho surjam quase todas as semanas ou quinzenalmente recebo emails a convidar para outros tipos de trabalho. Mas sinto-me bem onde estou e não vou largar.   

 

ObCig: Relação com os/as colegas?

FC: No que diz respeito ao trabalho ser um pouco mais individualista, sim, somos mais confrontados com um tempo só, é verdade. Mas enquanto estamos a trabalhar. Porque existem as chamadas horas mortas, em que todos nós, sejam os condutores do norte e do sul do país procuramos sempre um ponto onde sabemos que vai estar mais alguém como nós parados. E nessas horas juntamo-nos, somos muito ligados uns aos outros para tentar ganhar um pouco mais de experiência, ouvindo as opiniões de cada um. Tentar descobrir onde poderá existir melhor tempo e fartura de clientes para nós transportarmos e dessa forma sim, somos um grupo unido, não tanto como devíamos ser, mas somos um grupo unido, sim.

Ao início senti o peso da discriminação porque nas várias vezes que eu fiz entrevistas para vários outros parceiros que me convocavam eu nunca disse que eu era um português cigano, eu dizia que tinha descendência indiana. A forma como eu me apresentava e conversava com eles, arrastando um bocadinho do português para o inglês, convencia-os sempre que eu era um português indiano e não um português cigano. Depois de estar a trabalhar, que trabalhei dois ou três como experiência, aí sim eu dizia que era um português cigano, eles admiravam-se, não acreditavam ao início. Mas senti, senti bastante, tristemente digo, foi difícil, foi até um bocado chato com alguns parceiros, com alguns patrões quando descobriam que eu era cigano, simplesmente diziam que eu se calhar não dava para aquilo. 

 

ObCig: O que valoriza mais no trabalho assalariado?

FC: O que eu valorizo mais é saber que eu estou a prestar um serviço que me vai trazer o benefício do salário, ainda que mínimo mesmo, de um trabalho pago a um valor hora muito baixo, dependente daquilo que podemos fazer, das horas que despendemos para isso. Acho que é uma mais-valia para nós, nós povo português cigano, no que diz respeito a saber que dia tal, entre segunda-feira e quarta, vai receber o pagamento do trabalho que prestou. Isso traz segurança e uma sensação de realização para o ambiente familiar, não só para o condutor, mas também para a esposa, no meu caso como tenho esposa e filhos, e para outros que são os novatos também, mostrando aos pais que em vez de estar a perder tempo com coisas que não são dignas, demonstram aos próprios pais que sim, agarrar a oportunidade de trabalho e vão ter um futuro sempre habituado a trabalhar e receber o seu próprio salário. 

 

ObCig: O que acha que pode e deve ser feito para potenciar a integração da população cigana neste tipo de trabalho? No que diz respeito à sociedade dita maioritária?

FC: É uma pergunta simples mas muito difícil às vezes de responder. Eu tenho o meu próprio julgamento acerca disso, tenho as minhas próprias ideias acerca dessa questão que me colocou, mas também tenho uma resposta simples. Deixem-nos mostrar aquilo que somos capazes, permitam-nos ter também acesso às oportunidades de trabalho no mercado de trabalho. Tentem saber o que nós gostamos de fazer e o que somos capazes de fazer. Porque eu gostaria de ter outros trabalhos também, mas aquele trabalho que eu consigo fazer hoje em dia derivado à minha situação e derivado a ser quem sou é prestador de serviço como condutor de aplicações, que, neste momento, está a encher o mercado. Mas a sociedade maioritária, a população em si, deveria primeiro tentar perceber como são as pessoas e não julgar tanto o que são, porque aprendendo um pouquinho mais a conhecer aquilo que as pessoas são, começa a saber que afinal não é um bicho-de-sete-cabeças, não é um lobo mau. É uma forma de nos ajudarem tentar saber o que somos, o que sabemos e o que podemos fazer. E aí ia ser muito mais fácil compreender aquilo que nós queremos.

 

ObCig: No que diz respeito à população cigana?

FC: A própria população cigana, a nova geração, a geração que eu costumo dizer a geração do ano 2000 é uma geração preparada em casa, nos lares, por exemplo. No meu lar os meus filhos com a minha esposa ouvem todos os dias a mesma forma de falar que é: procurem uma forma de trabalho. O mundo como nós conhecíamos na geração anterior de feirante qualquer dia acaba. E o pensamento em toda população geral é chega de andar a fazer aquilo que se fazia no passado que era comprar aqui e vender ali, sem ter um local de trabalho, sem ter um posto certo e andar tipo, vamos lá, não é ilegalidade que se diz, mas quando não se tem uma banca, quando não se tem uma loja, quando não se tem um mercado, a lei portuguesa diz que não podemos estar a vender qualquer produto que seja, sem ter uma licença. Mas o incrível é que essa licença a nós não nos é passada. A burocracia enorme para tentar ter uma licença para outros imigrantes em Portugal, nós somos portugueses, mas existem imigrantes nas mais variadas artérias da cidade que conseguem por os seus preciosos bens, as suas pinturas, os seus artefactos e ninguém os chateia. Se nós tivéssemos essa oportunidade de demonstrar que também o podemos fazer iam ver que nós em casa ensinamos aos filhos que hoje em dia o que existe mais sagrado para nós é um local de trabalho, conseguir um emprego, ser assalariado, porque é uma coisa certa. O incerto... Nós não podemos fazer contas com aquilo que é incerto. Mas tendo um local de trabalho certo, pago mensalmente com um trabalho digno, isso seria o melhor para vós. É assim que nós conversamos com os nossos filhotes, com o futuro do nosso povo. É preparar o povo para o futuro e não para o passado.    

 

ObCig: No que diz respeito às políticas públicas?

FC: O que é que as políticas públicas poderiam fazer para melhorar, abrir oportunidades e não olhar a que tipo de povo ou que tradições pertence determinada pessoa que está à procura de trabalho por vezes por longo tempo.No meu caso, na altura, foram cinco anos. E há outros que estão há mais tempo, há outros há menos tempo, mas porque as políticas públicas ao saberem que alguém de etnia cigana, um português cigano como eu costumo dizer, fecha as portas. Eu acho isso errado. Concedam uma oportunidade, como existe na Inglaterra, existe o training job, que é dado quinze dias de training job à pessoa que quer ficar a trabalhar nas várias linhas que existem de trabalho e ali existe um encarregado, chamado manager, que acompanha o desenvolvimento desse trabalhador. Eu vi pessoas na Inglaterra com sessenta anos de idade, portugueses, senhoras com alguns problemas de saúde, que executavam o trabalho melhor que eu. Eu depois comecei a acompanhá-los também, mas se as nossas políticas que tentam regular aqui o posto de trabalho para toda a gente, para todo o povo, não só o nosso povo português cigano, mas há aí tanta gente que não tem trabalho por causa disso, porquê? Porque não têm habilitações literárias. Mas há aí miúdos com 18 anos que vão para postos de trabalho porque têm os diplomas mas não o sabem fazer. Vivem do papel e não da execução. E há pessoas que já passaram dos 50 anos, tanto o nosso povo português cigano como o povo maioritário, que tem mais experiência de trabalho do que tem os currículos, mas conseguem uma execução muito melhor e um trabalho final melhor do que aqueles jovens que apenas querem um trabalho temporário para auferir algum tipo de ajuda mensal para poderem ter mais alguma coisa para poder gastar no fim-de-semana. Aí é que a política podia intervir, ver bem como é que está o mercado de trabalho, e ver bem quem são as pessoas que querem trabalhar, não os papéis, cara a cara, olhos nos olhos […] e tentar ver e conhecer se a pessoa executou o trabalho que foi pedido corretamente ou se precisa de melhorar um pouco para fazê-lo corretamente. É só isso.

 

ObCig: Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

FC: Eu não sei se é acrescentar, é recalcar talvez, era dizer que é uma pena, uma pena que depois de tanto tempo no mercado de trabalho, depois de tanto tempo fora do país, dos meus filhos, da minha esposa, tanto tempo sozinho a tentar conseguir alguma coisa, chegar a Portugal com as folhas de experiências dos vários locais onde trabalhei, ir ao centro de emprego da zona e dizerem-me que vais ter de começar do zero, porque embora tenhas experiência no estrangeiro para nós não vale nada, não conta para nada. Eu acho que até esse ponto deveria ser verificado. E é isso mesmo que penso. Espero que seja satisfatório.


Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte II), Entrevistas, Toya Prudêncio

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Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte II), Entrevistas

Toya Prudêncio
Entrevista realizada em outubro de 2019, Braga

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O que acha da integração da população cigana no mercado de trabalho que não seja o trabalho tradicional (por exemplo, a venda em feiras)?

Toya Prudêncio (TP): A minha opinião sobre a integração da comunidade cigana no mercado de trabalho é que essa integração é muito importante, tanto a nível pessoal, para nós adquirimos outras competências para que no futuro não sejamos apanhados desprevenidos no caso de as feiras acabarem, porque as feiras já não são aquilo que eram há uns anos atrás, mas também para podermos desconstruir muitos dos estereótipos que estão associados à comunidade cigana como de quem não quer trabalhar, quem não tem capacidade para tal ou quem não sabe cumprir regras. Por isso a integração da comunidade cigana no mercado de trabalho penso que seja um fator muito importante na nossa integração.

 

ObCig: Quando começou a trabalhar nesta empresa ou organização?

TP: Eu comecei a trabalhar na rede há cerca de um mês atrás. Esta proposta de emprego surgiu-me através das redes sociais e também através de amigos. Eu soube que havia esta oportunidade e então decidi arriscar e mandar o meu currículo. Soube a resposta um tempo depois e consegui agarrar uma oportunidade que eu acho que me realiza muito enquanto pessoa.

 

 ObCig: Como surgiu a oportunidade?

TP: Esta oportunidade de trabalhar com a Rede Europeia Anti-Pobreza surgiu um pouco através das redes sociais. Soube que havia uma oportunidade de trabalho para integrar alguém que fosse mediador ou que tivesse experiência na área ou então que percebesse, que tivesse trabalhado com as comunidades ciganas. E visto eu já ter um historial grande enquanto ativista e trabalhando também com algumas associações com a minha comunidade, e sendo eu também da comunidade cigana, pensei que isso fosse uma mais-valia e enviei o meu currículo para a Rede. O currículo foi analisado e aqui estou eu a aproveitar esta nova oportunidade na minha vida.

 

ObCig: O que fazia antes?

TP: Antes de tudo isto acontecer eu trabalhava nas feiras, como a maior parte da comunidade cigana faz. Trabalha-se nas feiras onde se começa por norma a nossa vida profissional. Depois, por vários motivos, tive que abandonar as feiras, porque não eram rentáveis e então tivemos que procurar alternativas e surgiu a faculdade na altura. Eu concorri à faculdade através dos maiores de 23, fiz o exame, na altura, de Sociologia, consegui passar. Não houve vaga, fiquei para trás, tive de concorrer novamente. Fiz depois um exame de português no mesmo ano, consegui então entrar na Universidade Aberta onde estou agora a frequentar, e depois isso também abriu portas para conseguir arranjar outros tipos de trabalho. Trabalho que se adequasse mais aquilo que eu gosto e à profissão que eu almejo ter no futuro como educadora social neste caso. E esta oportunidade surgiu também um pouco assim. É ter alguma experiência... E as outras também. Já trabalhei também para o ACM como dinamizadora comunitária no projeto Escolhas “Escolhe Amar +”, que me foi dando um pouco mais de experiência no terreno e adquirir algumas ferramentas, para poder utilizar no trabalho que tenho atualmente. 

 

ObCig: Relação com os/as colegas?

TP: Eu fui muito bem recebida, não podia ter sido mais bem recebida, nem eu estava à espera de outra coisa. Vir trabalhar com uma instituição com quem eu já tinha participado e colaborado antes, não estava à espera de outra reação. Mas realmente não somos todos iguais. E eu tive a sorte de calhar numa equipa maravilhosa, de um coordenador que é muito compreensivo e de uma colega que é fantástica e… opá… em termos de equipa não podia pedir melhor. 

 

ObCig: O que valoriza mais no trabalho assalariado?

TP: O que eu valorizo mais no trabalho assalariado é o facto de chegar ao fim do mês e nós podermos contar com aquela quantia que nos ajuda também a organizar as nossas contas para o resto do mês e estamos mais descansados também. Também o facto de fazermos os descontos e estarmos nas nossas finanças. Isso estar tudo direitinho também nos dá uma certa tranquilidade para o futuro, porque estamos a preparar aquilo que vai ser a nossa reforma. E então eu gosto muito disso, gosto dessa segurança que o trabalho assalariado nos proporciona.  

 

ObCig: O que acha que pode e deve ser feito para potenciar a integração da população cigana neste tipo de trabalho? - No que diz respeito à sociedade dita maioritária? No que diz respeito à população cigana?

TP: Acho que a integração dos ciganos no mercado de trabalho… Sensibilizar primeiro a sociedade maioritária para a questão das dificuldades que nós sentimos em arranjar emprego por sermos da comunidade cigana. Desmistificar junto das empresas e de quem está disposto a nos dar trabalho aquilo que é ser cigano, que não significa que nós vamos para lá ou roubar ou levar a família toda, porque isso não é de todo verdade. E da parte da comunidade cigana, acho que tem de se investir não só na formação mas também na sensibilização para o que é o trabalho remunerado fixo, com um contrato fixo de trabalho. Porque muitas vezes há um desconhecimento da nossa parte e se isso for um bocadinho trabalhado talvez também abra um pouco outra perspetiva da parte da nossa comunidade.

 

ObCig: No que diz respeito às políticas públicas?

TP: Em termos de políticas públicas em relação à população cigana, acho que se deve investir na educação, porque é através da educação que nós vamos obter conhecimento. Obter conhecimento da nossa cidadania, dos nossos direitos, dos nossos deveres. E eu acho que grande parte da integração da comunidade cigana passa através da educação e para isso acho que devem existir políticas públicas que promovam o gosto pela escola, a valorização da escola, a faculdade… E não só, quem não quer ir para a faculdade também tem direito a ter essa educação. E então acho que a valorização da escola deve ser um dos pontos que as políticas públicas que são dirigidas para a comunidade cigana devem-se focar.   

Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte I), Entrevistas, Eva Romão

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EVA ROMÃO
Entrevista realizada em setembro de 2019, Portalegre

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O que acha da integração da população cigana no mercado de trabalho que não seja o trabalho tradicional (por exemplo, a venda em feiras)?

Eva Romão (ER): Acho que no contexto económico atual e uma vez que as feiras deixaram de ser lucrativas ou tão lucrativas como eram anteriormente é importante procurar outras alternativas como meio de subsistência, que continuem a permitir ter uma vida confortável e também para demonstrar que os ciganos são tão competentes noutro tipo de trabalhos como qualquer outra pessoa.

 

ObCig: Quando começou a trabalhar nesta empresa ou organização e como surgiu a oportunidade?

ER: Comecei a trabalhar em 2009, através de uma oportunidade de recrutamento externo de estágios profissionalizantes que abriram na altura. Efetuei a candidatura, passei pelo processo de recrutamento como qualquer outra pessoa e acabei sempre por continuar.

 

ObCig: O que fazia antes?

ER: Antes de começar a trabalhar estudava, tirei a licenciatura em Gestão aqui mesmo em Portalegre no Instituto Politécnico.

 

ObCig: Relação com os/as colegas?

ER: Tenho uma boa relação com os colegas e sempre tive logo desde o início.

 

ObCig: O que valoriza mais no trabalho assalariado?

ER: O facto de se saber com o que se pode contar. O trabalho assalariado tem a vantagem de ao final do mês, seja muito seja pouco, saber que se vai ter, que se vai obter aquele rendimento e daí acaba por advir uma maior estabilidade para a nossa vida.

 

ObCig: O que acha que pode e deve ser feito para potenciar a integração da população cigana neste tipo de trabalho? - No que diz respeito à sociedade dita maioritária?

ER: A sociedade maioritária tem que olhar para os ciganos sem o estigma que está instituído e encarar, sobretudo quando há alguma falha da parte de algum cigano ou quando há algum problema, que aquele problema ou aquilo que se passou… não encarar como uma falha da comunidade cigana que é muitas vezes aquilo que é entendido, mas como uma falha humana que qualquer outra pessoa pode ter.

 

ObCig: No que diz respeito à população cigana?

ER: A comunidade cigana deve encarar as oportunidades que existem no mercado de trabalho como uma forma de melhorar a sua situação económica.

 

ObCig: No que diz respeito às políticas públicas?

ER: As políticas públicas são muito importantes para as comunidades mais carenciadas. Haver políticas relativamente à educação porque uma habitação condigna acaba por melhorar a vida das pessoas a todos os níveis, nomeadamente dar-lhes mais condições de saúde, acaba por ter influência na educação, porque uma criança que viva numa casa que tenha condições tem muito mais condições para levar a escola avante, para concluir a sua educação, do que uma criança que viva numa casa sem condições. Depois também é muito importante encarar publicamente que há racismo e que deve ser combatido. Acho que política e publicamente tem de haver uma admissão clara de que o racismo existe e não deve ser admitido em qualquer tipo de forma.

 

ObCig: Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

ER: Acho que é importante haver uma educação para a diferença para se aprender a respeitar as diferenças que toda a gente tem e que existem de comunidades para comunidades. E também é importante haver uma política, digamos assim, para tentar compreender o motivo que levou as comunidades ciganas, neste momento, a se encontrarem nesta situação. Não por serem tudo aquilo que nós normalmente costumamos ouvir diariamente, mas o que é que levou, desde sempre, a tudo o que está relacionado com discriminação ou com racismo… Basicamente aquilo que eu quero dizer é que tem de haver uma compreensão daquilo que houve no passado e o caminho das comunidades ciganas para agora chegarmos aqui a este ponto…  [E de um ponto de vista do seu próprio percurso?] Estudei o ensino obrigatório, ensino secundário, com algumas interrupções. Tive um intervalo de dois anos sem estudar. Depois quando foi a entrada para o 7º ano, para o 9º, para o 10º e mesmo para a universidade, eu e a minha irmã acabávamos sempre atrasadas… Teve sempre de haver da nossa parte um esforço para conseguirmos acompanhar e fazer todas as disciplinas. Depois de ter o curso feito, acho que aí é a parte mais fácil, porque acabamos por estar em pé de igualdade com qualquer outra pessoa que se vai candidatar. Se eu tinha a minha licenciatura e se cumpria os requisitos para um recrutamento como foi o caso porque é que não haveria de ser chamada. E, pronto, foi assim que as coisas se passaram, aproveitei a oportunidade.


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Editor,19-11-4 下午12:20上传
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Newsletter ObCig Out 2019

Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC)

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Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC)

Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC) 

Em 2013, pela primeira vez, foi aprovada uma estratégia especificamente direcionada para as pessoas ciganas em Portugal: a Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC), criada através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 25/2013, de 27 de março.
Em 29 de novembro 2018, a RCM 154/2018 veio rever a referida ENICC e alargar a sua vigência até 2022, com o objetivo de ajustar os seus objetivos e metas e, consequentemente, potenciar o impacto na melhoria das condições de vida das pessoas e comunidades ciganas.
A ENICC surge, neste contexto, como uma plataforma para o desenvolvimento de uma intervenção alargada e articulada, onde os vários ministérios, municípios, organizações da sociedade civil, academia e comunidades ciganas, entre outras organizações, contribuem ativamente para a concretização dos objetivos traçados.
 
Aceda à ENICC em PT e em EN

Intro Newsletter

A Newsletter do OBCIG pretende ser um meio de comunicação com a sociedade alargada, visando a divulgação e reflexão científicas e de desconstrução de estereótipos, a promoção do conhecimento de pessoas ciganas, estudantes ou a trabalhar nas mais variadas áreas de intervenção, de divulgação do trabalho desenvolvido e a desenvolver por associações ciganas, mediadores/as interculturais e outros atores e organizações da sociedade civil, bem como de informação sobre acontecimentos relevantes, nacionais e internacionais.
 
[English below]

The newsletter intends to become a means of communication with the broad society, aimed at the disclosure, scientific reflection, and the deconstruction of stereotypes. It intends to increase awareness of the Roma population, by students or people working in the several areas of intervention and dissemination of work that has been or is being developed by Roma associations and other actors and civil associations. It also aims at providing information about relevant events, both national and international.

 

[Français ci-dessous]

La Newsletter de l´ObCig souhaite être un moyen de communication avec la société élargie, visant à la fois la divulgation et la réflexion scientifiques et la déconstruction de stéréotypes, renforçant une meilleure connaissance des personnes tsiganes, des étudiants ou des personnes qui travaillent sur plusieurs domaines d´intervention, tels que le travail des associations tsiganes déjà réalisés ou en développement et d´autres acteurs et organisations de la société civile. Enfin nous cherchons à divulguer des informations sur des évènements importants, nationales et internationales. 

 

Newsletter outubro de 2019

 

Newsletter 24 junho de 2019

 

Newsletter dezembro de 2018

 

Newsletter julho de 2018

 


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Editor,19-10-31 下午3:53上传
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Discriminação

Mitos sobre ciganos

Mitos sobre ciganos (版本 1.0)

Editor,19-8-6 下午2:16上传
Artigo de Maria José Casa-Nova (2013), no livro: Cardina Miguel; Soeiro, José; Serra, Nuno (coords.) Não Acredite em Tudo o pensa: Mitos do Senso Comum na Era da Austeridade.
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版本 1.0

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19-8-6 下午2:16
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Artigo de Maria José Casa-Nova (2013), no livro: Cardina Miguel; Soeiro, José; Serra, Nuno (coords.) Não Acredite em Tudo o pensa: Mitos do Senso Comum na Era da Austeridade.
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Thinking about Difference

Thinking about Difference (版本 1.0)

Editor,19-8-6 下午2:12上传
Artigo escrito por Maria José Casa-Nova (2014), no livro: Franger, Gaby (coord.) Roma Rights and Discrimination. The Pursuit of Reflective Social and Educational Work.
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Artigo escrito por Maria José Casa-Nova (2014), no livro: Franger, Gaby (coord.) Roma Rights and Discrimination. The Pursuit of Reflective Social and Educational Work.
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EDUCAÇÃO

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