Conferência Nacional RISE (Roma Inclusive School Experiences)

19 ноя 2019

Conferência Nacional RISE (Roma Inclusive School Experiences)

Esta Conferência Nacional pretende dar conta dos resultados alcançados com o projeto RISE, na linha do desenvolvimento de algumas políticas educativas recentes, e da implementação da Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas.

A apresentação e o programa da conferência poderão ser consultados em:

https://www.ie.uminho.pt/pt/_layouts/15/UMinho.PortaisUOEI.UI/Pages/EventsDetail.aspx?id=55296#

19 de novembro de 2019 | Auditório Multimédia do Instituto de Educação da Universidade do Minho - Campus de Gualtar-Braga

A entrada é gratuita, mas sujeita a inscrição para o email conf2019rise@gmail.com, até às 13h do dia 18. 

Universidade do Minho, Braga
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ObCig lança Newsletter "População Cigana e Mercado de Trabalho" (outubro de 2019)


Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte I), Entrevistas, Francisco Azul

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Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte I), Entrevistas

FRANCISCO AZUL
Entrevista realizada em outubro de 2019, Lisboa

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O que acha da integração da população cigana no mercado de trabalho que não seja o trabalho tradicional (por exemplo, a venda em feiras)?

Francisco Azul (FA): A integração da população cigana no mercado de trabalho formal vem, advém, de um fator que é a forma tradicional de ganhar a vida da comunidade cigana estar a terminar devido a diversos fatores, entre os quais a criação das grandes superfícies comerciais que vieram no fundo acabar com as feiras, porque o preço das peças que se vendem nas feiras é muito equivalente ao preço que vendem nos supermercados. E claro, as pessoas, digo eu, pelo lado do conforto de estarem num centro comercial, com mais variedade de produtos, aproveitam para em vez de irem às feiras, ao mercado informal, irem ao mercado formal. Além de que as feiras e a comunidade cigana, devido também à distância que há entre feiras, àquilo que se paga quase mensalmente pelo arrendamento, digamos assim, dos espaços nas feiras, não compensa. E, portanto, a forma que nós chamamos tradicional de ganhar a vida cigana termina por causa desses fatores. Outros fatores são também que a população cigana percebe que é necessário e que é uma mais-valia, sobretudo os jovens e esta nova geração, continuar a estudar. E o facto destes jovens continuarem a estudar... Percebem que querem ter uma profissão para o resto da vida, uma profissão, um salário fixo. E as feiras muitas das vezes ou quase sempre não temos sempre a certeza do que é que vamos vender, se vamos vender o nosso produto hoje muito, amanhã podemos vender pouco e isso faz com que a comunidade cigana perceba que é necessário uma mudança e essa mudança está a acontecer e cada vez mais vemos população cigana no mercado de trabalho formal. Se bem que, no mercado de trabalho informal, aquilo que nós chamamos as feiras, muitos destes ciganos trabalham muitas horas. Para termos um exemplo, eu tenho na minha família pessoas que ainda fazem feiras e acordam às 5 ou 6 da manhã para fazer um mercado e só regressam a casa às 7, 8, 9 horas da noite, portanto, há aqui uma jornada de muitas horas fora de casa, sem ver os filhos, a família. Portanto, quando nós pensamos sobre estas coisas temos de ter uma visão destas situações. Eu acho que isso é importante ter em consideração, quando nós metemos na ideia “o cigano vai para a feira e aquilo não é um mercado, aquilo não passam lá muitas horas, aquilo não é muito trabalhoso”. E aquilo é muito complicado, sobretudo no inverno com chuva.

 

ObCig: Quando começou a trabalhar nesta empresa ou organização e como surgiu a oportunidade?

FA: Eu comecei a trabalhar para o Alto Comissariado para as Migrações no ano de 2016, salvo erro em outubro ou novembro, já não sei o mês, 2016. E a oportunidade surgiu quando estava a estudar. Estava na licenciatura de Serviço Social e surgiu a oportunidade, surgiu o convite de integrar a equipa do antigo gabinete de apoio às comunidades ciganas e pronto foi assim que surgiu o convite. Trabalhar em part-time, enquanto trabalhava e estudava, foi também um crescimento no fundo. Uma oportunidade que assim que aconteceu agarrei com as duas mãos, porque sabia que eu ia crescer profissionalmente, que ia ter oportunidade de trabalhar numa organização já com alguns anos, uma organização que faz um trabalho muito importante não só com ciganos, mas com refugiados e imigrantes. Ia-me dar uma visibilidade, à minha vida e àquilo que eu gostava de fazer no futuro grande. E no fundo, aproveitei e fiz aquilo que um cigano muitas vezes faz que é aproveitar as oportunidades para crescer profissionalmente, mas também ajudar a sua comunidade e todas pessoas, que no fundo necessitam de ajuda. E nós temos este problema que está a ser solucionado, um problema que nós sabemos que tem de ser solucionado, que é o dos refugiados, o dos imigrantes e da comunidade cigana e, portanto, o convite foi bom, muito bom para mim e tem sido espetacular ajudar a comunidade cigana e não só, as outras comunidades a integrar-se no nosso país. E também serem uma mais-valia para o nosso Portugal.

                                                                                                                                             

ObCig: O que fazia antes?

FA: Eu antes de vir para o ACM, e voltando um pouquinho atrás, acho que é importante explicar um pouco o que foi o meu percurso escolar até chegar à Universidade e agora aqui ao ACM. Então, estava no 7º ano, entrei num curso de Técnicas de Venda, só que como na altura a escola não era bem aquilo que eu queria, ou melhor, não era aquilo que eu desejava na escola, comecei a faltar imenso às aulas, a esse curso de Técnicas de Venda. Mas aquilo para mim não fazia muito sentido e então como faltava muito, a escola resolveu retirar-me, entre aspas, do curso, e voltar para o ensino regular. O que fez com que voltasse para uma turma, tinha para aí 16 ou 17 anos, numa turma de 7º ano com miúdos de 13 anos. E então aí quando voltei ao ensino regular e percebi que tinha andado a tomar decisões super incorretas para a minha vida e ainda era um jovem com 16, 17 anos, que no fundo ainda estava a ser padrinho daqueles miúdos lá na escola, porque eles viam-me como o mais velho, como o nosso elemento mais velho, ainda por cima cigano… E aquilo, parecendo que não, muitas vezes nós para darmos um passo à frente é necessário darmos alguns passos atrás. E foi aí que eu percebi que queria ser alguém na vida e se queria uma vida melhor para mim tinha de continuar a estudar. Então tendo em consideração que aqueles jovens viam também em mim uma proteção, comecei a ir às aulas todos os dias, fiz o 7º, 8º e 9º ano no regular, e depois eu queria continuar no ensino regular, mas nessa altura surgiu um curso na minha escola que era de Técnico de apoio à gestão desportiva e como eu na altura jogava futebol e gostava muito da questão do desporto resolvi então ir pela via profissional nesse curso de Técnica de apoio à gestão desportiva. Foi interessante que durante este período tive uma ajuda espetacular da minha escola, a Escola de Santo António no Barreiro, que sempre me apoiou e sempre me deu também as bases para chegar aqui onde estou, mas tinha alguns professores e sobretudo um professor que me dizia que, ele era professor de português, enquanto cigano podia ter o melhor de dois mundos, algo que nenhum outro jovem que não era cigano podia ter, ele dizia-me que num dia eu posso estar, posso ir ajudar os meus pais na feira, posso ir a um casamento, mas depois também tenho esta parte da intelectualidade, da formalidade das coisas, algo que ele me dizia que me ia dar muito jeito no mercado do trabalho. E a verdade é que me tem dado jeito, esta questão do fazer o negócio quando ia para as feiras, da questão humana de falarmos com as pessoas, porque nós nas feiras temos que vender o nosso produto e isto vai-nos ajudando. E portanto, quando o professor me diz isto fez um click em mim, e de fato esta memória do professor de português, professor Roberto Pinto, colocou na minha mente, e a escola também, mudou de facto tudo aquilo que eu pensava. E então fiz o 10º, 11º, 12º em Desporto, e depois de terminar o 10º, 11º, 12º ano eu pensei assim, bem, já que fiz isto porque é que não vou continuar para a faculdade. E então eu pensei, vou para desporto, vou continuar a área do Desporto. Depois fui ver a minha média e infelizmente para entrar aqui em Lisboa a minha média não chegava, tinha que ir para Rio Maior, e aqui pensei muito na minha vida e comecei a pensar naquilo que são os pilares para a comunidade cigana porque ao fim ao cabo a família para a comunidade cigana é o elemento mais fulcral e mais central e eu pensei não posso ir para Rio Maior porque vou ter de ir viver lá, vou ter que arranjar outra forma de me sentir feliz, de me sentir bem comigo próprio e então surgiu a questão do Serviço Social. Porque durante este período, desde o 7º ano em que eu abri a minha mente até chegar ao 12º, lá na escola, como eu disse, apoiavam-me imenso e fazia imensas sessões lá na escola e era padrinho dos miúdos que chegavam novos e fazia muitas vezes a ponte entre o bairro e a escola. Isso também... Foi crescendo em mim o bichinho do empoderar as pessoas, empoderar sobretudo as comunidades ciganas. E então pensei... Porque não Serviço Social? Entrei em Serviço Social, terminei e pronto. E durante este período foi isto a minha vida. Ah! Há uma coisa muito importante. Tive três anos da minha vida em que acordava às 8 horas, ia para o trabalho das 9 horas até às 17horas, das 17 horas às 21 horas ia para a faculdade, e depois das 21 horas ia treinar, porque até ao ano passado jogava futebol, futebol 11 numa equipa amadora, digamos assim, mas que no fundo também me ajudava imenso nestas questões. 

 

ObCig: Relação com os/as colegas?

FA: A relação com os meus colegas como devem imaginar é super boa. Sobretudo no meu gabinete que são mais raparigas do que rapazes, é bom, é muito bom, porque aprendemos imensas coisas sobre aquilo que é trabalhar com mulheres e elas estão nos sempre a dizer, "tens que ser focado" e isso tem-me ajudado imenso no meu trabalho. Com os restantes colegas do ACM, a ideia que eu tenho e espero que seja essa ideia que eles têm é que sempre que falamos e comunicamos alguma coisa, sobretudo sobre as comunidades ciganas, as pessoas ficam com aquela vontade de continuar a trabalhar na integração das pessoas ciganas e não só. Eu acho que essa ideia que passa muito aqui no ACM é que temos de ser capacitados, temos de capacitar estas pessoas e que, no fundo, temos de dar o nosso máximo para ajudar estas pessoas. Nós temos inúmeros exemplos, inúmeros eventos que nós fazemos por ano que têm dado ótimos resultados e espero que a minha relação com os meus colegas continue a ser espetacular.

Trabalhar no ACM foi a minha primeira experiência de trabalho formal, porque eu ajudava os meus pais nas feiras ao fim-de-semana, tinha a minha própria banca. Mas em termos formais, foi a minha primeira experiência de trabalho e acarretar com tantas responsabilidades logo de início confesso que não foi fácil para mim, até porque vinha de um meio muito pouco formal. Nós sabemos que as comunidades ciganas logo desde o início temos esta questão da autonomia e da responsabilidade para com a família enorme, mas com o leque alargado de pessoas não é tão fácil e, sobretudo preencher boletins de itinerários, picar o ponto e todas essas coisas, que no fundo tive que ir adquirindo. E com a ajuda das minhas colegas claro que fui conseguindo. E claro que agora é mais fácil, apesar que a formalidade ainda hoje é um obstáculo para mim, confesso.   

 

ObCig: O que valoriza mais no trabalho assalariado?

FA: Aquilo que eu valorizo mais no trabalho assalariado é de facto a estabilidade financeira que nós temos na nossa vida, na nossa casa. Eu, dando o meu exemplo, casei recentemente, tenho um filho com um mês e meio, e ter aquele dinheiro fixo ao final do mês para mim é uma garantia que nada vai lá faltar em casa. E acho que é isso que mais se valoriza no trabalho assalariado, ao contrário das feiras que têm diminuído o volume de feiras e os preços mantém-se sempre por m2 e nós não sabemos se hoje vendemos, amanhã não vendemos. Há muitos fatores que podem fazer com que não se venda e há muitos fatores que podem fazer com que se venda. No trabalho assalariado temos mais confiança e sabemos que podemos contar com aquele dinheirinho ao final do mês.  

 

ObCig: O que acha que pode e deve ser feito para potenciar a integração da população cigana neste tipo de trabalho? No que diz respeito à sociedade dita maioritária? No que diz respeito à população cigana?; No que diz respeito às políticas públicas?

FA: Em relação à pergunta sobre o que pode e deve ser feito para integrar as pessoas ciganas no mercado formal, eu acho que temos de ter em conta três fatores: aquilo que a sociedade maioritária pensa da sociedade cigana e o que pode ser feito, aquilo que a própria comunidade cigana pensa do mercado de trabalho e quais são as políticas públicas que existem para que a comunidade cigana se envolva no mercado formal. Então, em relação à sociedade maioritária aquilo que se pode fazer, na minha opinião, eu julgo que existe um grande desconhecimento daquilo que é a comunidade cigana e daquilo que é a história e cultura cigana em Portugal. Ou seja, as pessoas que não são ciganas não sabem o que é que é verdadeiramente um cigano e aquilo que é verdadeiramente importante para um cigano. Depois a sociedade cigana, digamos assim, a comunidade cigana vê no mercado assalariado um projeto a longo prazo e para se chegar à forma assalariada de receber o dinheiro é preciso estudar. E nós sabemos que a comunidade cigana tem objetivos a muito curto prazo, derivado, podemos estar a falar aqui em muitas coisas, aos contextos históricos ou o que quer que seja, mas a realidade é esta, e portanto para modificarmos tanto o comportamento tanto da sociedade maioritária no desconhecimento da cultura cigana, mas também capacitarmos os ciganos e ajudar esta comunidade, apesar de ter coisas boas, de que ter um trabalho assalariado pode trazer estabilidade a estas vidas, eu acho que temos de investir em políticas públicas que visem colmatar as deficiências que existem na sociedade maioritária em relação à comunidade cigana, mas também na comunidade cigana em relação à sociedade maioritária. Portanto, poderia dar aqui imensos exemplos, que nós aqui no Alto Comissariado para as Migrações temos realizado neste âmbito. Aqui, no âmbito da Educação, eu acho importante referir o Opré Chavalé, que agora é o OPRE - Programa Operacional para a Educação - e este programa que é uma política pública do Alto Comissariado para as Migrações tem apoiado jovens ciganos que estão no ensino superior. Aquilo que temos feito é conceder uma bolsa de estudos que dá sobretudo para pagar as propinas, alguns transporte e materiais escolares, mas conseguimos com que estes jovens possam estar na faculdade e depois possam também integrar-se no mercado de trabalho, não no mercado de trabalho em postos sem poder, digamos assim, mas em postos em que eles possam também ser uma mais-valia e um exemplo para a comunidade cigana. E tendo em consideração este programa, julgo que podemos dizer que estes jovens podem ser líderes, digamos assim, da comunidade cigana. E também para mudar a visão que a sociedade maioritária tem dos ciganos. Depois também temos no âmbito da nossa Eestratégia o Fundo de Apoio à Estratégia Nacional, o Programa de Apoio ao Associativismo Cigano. Estes dois programas têm como objetivo apoiar as associações ciganas e não ciganas no trabalho com as comunidades ciganas. E isso também é importante para que cada vez mais as associações ciganas e não ciganas possam divulgar aquilo que é a história e a cultura cigana através destas políticas públicas que eu acho que são importante. Depois também existe o trabalho do ObCig que eu acho que é super importante na realização de campanhas de sensibilização para mudar mentalidades em relação àquilo que é, no fundo o sermos seres humanos. E aquilo que eu gostava de terminar... E se, pensarmos bem, são mais as coisas que aproximam a comunidade cigana da sociedade maioritária do que aquela que nos afastam. Aquilo que aconteceu foi um período muito atrás na história que fez com que a comunidade cigana e a sociedade maioritária tivessem imensas divergências que eu acredito que, com estas pessoas ciganas que se estão a formar, com o Alto Comissariado para as Migrações e também com o entendimento que tem existido entre os vários Ministérios, consigamos diminuir o gap entre ciganos e não ciganos.    

 

ObCig: Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

FA: Existe um provérbio cigano que eu acho que é muito verdadeiro, que é: "A mais bela fogueira começa com os mais pequenos ramos". Eu costumo dizer sempre isto quando falo em público porque o facto de estarmos aqui a fazer estas entrevistas, de existir as associações ciganas, de existir o ACM, de existir o ObCig, pode ser esta primeira fogueira que eu acredito que depois vai ser maior e que vai ajudar ciganos e não ciganos a encontrar-se. 


Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte II), Entrevistas, Fernando Carmo

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Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte II), Entrevistas

Fernando Carmo
Entrevista realizada em outubro de 2019, Lisboa

 

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O que acha da integração da população cigana no mercado de trabalho que não seja o trabalho tradicional (por exemplo, a venda em feiras)?

Fernando Carmo (FC): É uma pergunta que generaliza um pouco o povo, não é? Eu não posso generalizar porque eu estou no mercado do trabalho como prestador de serviços por alguém que me cedeu uma posição viável para eu poder ter algum tipo de conforto. No salário que podemos fazer... Mas acho que sim, o mercado de trabalho alargou um pouquinho mais os braços, abriu mais as portas e deu mais novas oportunidades. Mas ainda assim com muitas reticências quando existe a possibilidade de saber que somos um povo português cigano. Existe sempre, sempre vai existir, mas cada vez menos.

 

ObCig: Quando começou a trabalhar nesta empresa ou organização?

FC: A empresa em si, não foi a primeira empresa que me cedeu uma posição de trabalho. Eu comecei a trabalhar sensivelmente entre 22 e 24 de novembro de 2017 quando cheguei do estrangeiro. Foi uma oportunidade que me fez sonhar ficar no país e não ter que procurar mais nada fora do conforto do lar. Mas desde que comecei, este foi o segundo patrão, nas aplicações TVDE, UBER, BOLT e companhia limitada, são chamados de parceiros e não patrões. Sim, foi este o segundo patrão que eu tive até agora, uma excelente pessoa, sabendo que eu pertenço a uma comunidade que estava até há um tempo esquecida. Abraçou a ideia de ter um povo português cigano a trabalhar para ele, às vezes até brinca com a situação, e diz sentir-se seguro porque desta forma não sou acossado por outros condutores de outras plataformas.

 

ObCig: Como surgiu a oportunidade?

FC: Foi uma oportunidade que surgiu assim de uma forma caricata. Eu como emigrante, sem contrato definitivo no estrangeiro, procurava tudo o que houvesse para fazer, tudo o que estivesse ao meu alcance e que eu pudesse realizar. A minha esposa disse que era tempo de mais. Ela começou a fazer alguns contactos aqui em Portugal e surgiu então a hipótese de eu vir para Portugal e poder estar apenas quinze ou vinte dias à espera até que a posição de trabalho me fosse cedida, o que me agradou bastante, porque era um sonho, conseguir um trabalho. Que anteriormente este trabalho… O nosso mercado de trabalho não abria portas, mas depois de começarmos a trabalhar e ter contactos com outras pessoas, aí sim. Sentir-se mais à vontade de no futuro eu também poder executar outros trabalhos quaisquer. Mas sim, foi uma maravilha eu ter voltado e ter ficado por cá. 

 

ObCig: O que fazia antes?

FC: Emigrei porque durante cinco anos fui inscrito no centro de emprego da zona de morada e fui a todas as reuniões, fui a várias entrevistas. Enquanto eu falava no telefone ou escrevia emails, enviava os meus CV´s, toda a gente me dava oportunidade, mas quando eu ia pessoalmente falar, a primeira reação era que “lamentamos mas para si não dá”. Eu desisti, fui obrigado a procurar em França, Inglaterra, Irlanda, corri vários países na Europa, até que me fixei durante um tempo na Inglaterra e depois um largo tempo na Holanda também a trabalhar.

Antes realmente de eu emigrar, antes de eu abrir na minha própria ideologia à vontade de eu estar no trabalho português... Aliás no mercado português de trabalho, eu era feirante. Eu amava aquilo que eu fazia, adorava pôr a banca, adorava nos dias que eu punha a banca, estava às vezes um pouquinho de chuva, acalentar os clientes, trazê-los para perto de mim e apresentar-lhe o produto que eu também servia. Mas derivado a várias situações que o governo foi impondo, às dificuldades que havia e depois à concorrência desleal que surgiu com grandes empreendedores de outros países estrangeiros, não vou citar ninguém em especial, as nossas roupas, os nossos bens pessoais, os nossos objetos e derivados de tudo aquilo que você possa imaginar, calçado, roupa, efeitos para casa, mobília, tudo isso perdeu valor. O nosso produto português que tem reconhecimento internacional deixou de ter aceitação nos mercados. Onde nós conseguíamos de vez em quando ganhar alguma coisa era aí. Era no produto de qualidade. Não era tanto no preço. Mas o povo que compra e que vai aos mercados deixou de comprar porque o poder de compra baixou. Como o poder de compra baixou, eu não consegui enfrentar a quebra enorme que teve. A partir daí desisti dos mercados e tentei então aí sim, um trabalho no nosso mercado de trabalho nacional ,o que se tornou impossível.

A mudança aconteceu sensivelmente no ano 2000/2001, porque eu comecei a trabalhar entre 92/93 sozinho com a minha esposa, após o meu casamento, e comecei a tentar uma vida melhor, no trabalho árduo mas leal. Não foi nada por ali além de grande mundo, mas sempre consegui ter algum, um pouquinho de parte, para o meu dia-a-dia com a minha esposa, para não fazer falta algum tipo de dinheiro para comprar um sapato, ou uma vez em quando por mês poder passear um pouco, e fazer da nossa vida uma vida limpa, satisfatória e condigna. Mas a partir do ano 2000/2001 quando esse mercado de oferta ficou abaixo do preço que era normalmente feito por nós para os nossos clientes, foi aí que eu vi que não ia dar futuro, desisti, porque os impostos eram altos, a roupa era cara e o nosso lucro, quando íamos ver o nosso lucro era tão baixo que não valia o esforço. Era de mais. Foi entre 2005 e 2006 que eu comecei a responder a tudo o que eram emails que me mandavam do estrangeiro e eu tentei mesmo com os trabalhos temporários de dois/três meses suportar as despesas que a minha esposa e os meus filhos tinham em Portugal. Foi difícil, foi uma era muito má, para outros que como eu não têm uma experiência académica superior, tinha apenas o sexto ano concluído, mas a minha experiência no estrangeiro conseguiu dar uma equivalência um pouco melhor, o que faz com que eu hoje tenha o trabalho que eu tenha e as ofertas de trabalho surjam quase todas as semanas ou quinzenalmente recebo emails a convidar para outros tipos de trabalho. Mas sinto-me bem onde estou e não vou largar.   

 

ObCig: Relação com os/as colegas?

FC: No que diz respeito ao trabalho ser um pouco mais individualista, sim, somos mais confrontados com um tempo só, é verdade. Mas enquanto estamos a trabalhar. Porque existem as chamadas horas mortas, em que todos nós, sejam os condutores do norte e do sul do país procuramos sempre um ponto onde sabemos que vai estar mais alguém como nós parados. E nessas horas juntamo-nos, somos muito ligados uns aos outros para tentar ganhar um pouco mais de experiência, ouvindo as opiniões de cada um. Tentar descobrir onde poderá existir melhor tempo e fartura de clientes para nós transportarmos e dessa forma sim, somos um grupo unido, não tanto como devíamos ser, mas somos um grupo unido, sim.

Ao início senti o peso da discriminação porque nas várias vezes que eu fiz entrevistas para vários outros parceiros que me convocavam eu nunca disse que eu era um português cigano, eu dizia que tinha descendência indiana. A forma como eu me apresentava e conversava com eles, arrastando um bocadinho do português para o inglês, convencia-os sempre que eu era um português indiano e não um português cigano. Depois de estar a trabalhar, que trabalhei dois ou três como experiência, aí sim eu dizia que era um português cigano, eles admiravam-se, não acreditavam ao início. Mas senti, senti bastante, tristemente digo, foi difícil, foi até um bocado chato com alguns parceiros, com alguns patrões quando descobriam que eu era cigano, simplesmente diziam que eu se calhar não dava para aquilo. 

 

ObCig: O que valoriza mais no trabalho assalariado?

FC: O que eu valorizo mais é saber que eu estou a prestar um serviço que me vai trazer o benefício do salário, ainda que mínimo mesmo, de um trabalho pago a um valor hora muito baixo, dependente daquilo que podemos fazer, das horas que despendemos para isso. Acho que é uma mais-valia para nós, nós povo português cigano, no que diz respeito a saber que dia tal, entre segunda-feira e quarta, vai receber o pagamento do trabalho que prestou. Isso traz segurança e uma sensação de realização para o ambiente familiar, não só para o condutor, mas também para a esposa, no meu caso como tenho esposa e filhos, e para outros que são os novatos também, mostrando aos pais que em vez de estar a perder tempo com coisas que não são dignas, demonstram aos próprios pais que sim, agarrar a oportunidade de trabalho e vão ter um futuro sempre habituado a trabalhar e receber o seu próprio salário. 

 

ObCig: O que acha que pode e deve ser feito para potenciar a integração da população cigana neste tipo de trabalho? No que diz respeito à sociedade dita maioritária?

FC: É uma pergunta simples mas muito difícil às vezes de responder. Eu tenho o meu próprio julgamento acerca disso, tenho as minhas próprias ideias acerca dessa questão que me colocou, mas também tenho uma resposta simples. Deixem-nos mostrar aquilo que somos capazes, permitam-nos ter também acesso às oportunidades de trabalho no mercado de trabalho. Tentem saber o que nós gostamos de fazer e o que somos capazes de fazer. Porque eu gostaria de ter outros trabalhos também, mas aquele trabalho que eu consigo fazer hoje em dia derivado à minha situação e derivado a ser quem sou é prestador de serviço como condutor de aplicações, que, neste momento, está a encher o mercado. Mas a sociedade maioritária, a população em si, deveria primeiro tentar perceber como são as pessoas e não julgar tanto o que são, porque aprendendo um pouquinho mais a conhecer aquilo que as pessoas são, começa a saber que afinal não é um bicho-de-sete-cabeças, não é um lobo mau. É uma forma de nos ajudarem tentar saber o que somos, o que sabemos e o que podemos fazer. E aí ia ser muito mais fácil compreender aquilo que nós queremos.

 

ObCig: No que diz respeito à população cigana?

FC: A própria população cigana, a nova geração, a geração que eu costumo dizer a geração do ano 2000 é uma geração preparada em casa, nos lares, por exemplo. No meu lar os meus filhos com a minha esposa ouvem todos os dias a mesma forma de falar que é: procurem uma forma de trabalho. O mundo como nós conhecíamos na geração anterior de feirante qualquer dia acaba. E o pensamento em toda população geral é chega de andar a fazer aquilo que se fazia no passado que era comprar aqui e vender ali, sem ter um local de trabalho, sem ter um posto certo e andar tipo, vamos lá, não é ilegalidade que se diz, mas quando não se tem uma banca, quando não se tem uma loja, quando não se tem um mercado, a lei portuguesa diz que não podemos estar a vender qualquer produto que seja, sem ter uma licença. Mas o incrível é que essa licença a nós não nos é passada. A burocracia enorme para tentar ter uma licença para outros imigrantes em Portugal, nós somos portugueses, mas existem imigrantes nas mais variadas artérias da cidade que conseguem por os seus preciosos bens, as suas pinturas, os seus artefactos e ninguém os chateia. Se nós tivéssemos essa oportunidade de demonstrar que também o podemos fazer iam ver que nós em casa ensinamos aos filhos que hoje em dia o que existe mais sagrado para nós é um local de trabalho, conseguir um emprego, ser assalariado, porque é uma coisa certa. O incerto... Nós não podemos fazer contas com aquilo que é incerto. Mas tendo um local de trabalho certo, pago mensalmente com um trabalho digno, isso seria o melhor para vós. É assim que nós conversamos com os nossos filhotes, com o futuro do nosso povo. É preparar o povo para o futuro e não para o passado.    

 

ObCig: No que diz respeito às políticas públicas?

FC: O que é que as políticas públicas poderiam fazer para melhorar, abrir oportunidades e não olhar a que tipo de povo ou que tradições pertence determinada pessoa que está à procura de trabalho por vezes por longo tempo.No meu caso, na altura, foram cinco anos. E há outros que estão há mais tempo, há outros há menos tempo, mas porque as políticas públicas ao saberem que alguém de etnia cigana, um português cigano como eu costumo dizer, fecha as portas. Eu acho isso errado. Concedam uma oportunidade, como existe na Inglaterra, existe o training job, que é dado quinze dias de training job à pessoa que quer ficar a trabalhar nas várias linhas que existem de trabalho e ali existe um encarregado, chamado manager, que acompanha o desenvolvimento desse trabalhador. Eu vi pessoas na Inglaterra com sessenta anos de idade, portugueses, senhoras com alguns problemas de saúde, que executavam o trabalho melhor que eu. Eu depois comecei a acompanhá-los também, mas se as nossas políticas que tentam regular aqui o posto de trabalho para toda a gente, para todo o povo, não só o nosso povo português cigano, mas há aí tanta gente que não tem trabalho por causa disso, porquê? Porque não têm habilitações literárias. Mas há aí miúdos com 18 anos que vão para postos de trabalho porque têm os diplomas mas não o sabem fazer. Vivem do papel e não da execução. E há pessoas que já passaram dos 50 anos, tanto o nosso povo português cigano como o povo maioritário, que tem mais experiência de trabalho do que tem os currículos, mas conseguem uma execução muito melhor e um trabalho final melhor do que aqueles jovens que apenas querem um trabalho temporário para auferir algum tipo de ajuda mensal para poderem ter mais alguma coisa para poder gastar no fim-de-semana. Aí é que a política podia intervir, ver bem como é que está o mercado de trabalho, e ver bem quem são as pessoas que querem trabalhar, não os papéis, cara a cara, olhos nos olhos […] e tentar ver e conhecer se a pessoa executou o trabalho que foi pedido corretamente ou se precisa de melhorar um pouco para fazê-lo corretamente. É só isso.

 

ObCig: Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

FC: Eu não sei se é acrescentar, é recalcar talvez, era dizer que é uma pena, uma pena que depois de tanto tempo no mercado de trabalho, depois de tanto tempo fora do país, dos meus filhos, da minha esposa, tanto tempo sozinho a tentar conseguir alguma coisa, chegar a Portugal com as folhas de experiências dos vários locais onde trabalhei, ir ao centro de emprego da zona e dizerem-me que vais ter de começar do zero, porque embora tenhas experiência no estrangeiro para nós não vale nada, não conta para nada. Eu acho que até esse ponto deveria ser verificado. E é isso mesmo que penso. Espero que seja satisfatório.


Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte II), Entrevistas, Toya Prudêncio

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Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte II), Entrevistas

Toya Prudêncio
Entrevista realizada em outubro de 2019, Braga

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O que acha da integração da população cigana no mercado de trabalho que não seja o trabalho tradicional (por exemplo, a venda em feiras)?

Toya Prudêncio (TP): A minha opinião sobre a integração da comunidade cigana no mercado de trabalho é que essa integração é muito importante, tanto a nível pessoal, para nós adquirimos outras competências para que no futuro não sejamos apanhados desprevenidos no caso de as feiras acabarem, porque as feiras já não são aquilo que eram há uns anos atrás, mas também para podermos desconstruir muitos dos estereótipos que estão associados à comunidade cigana como de quem não quer trabalhar, quem não tem capacidade para tal ou quem não sabe cumprir regras. Por isso a integração da comunidade cigana no mercado de trabalho penso que seja um fator muito importante na nossa integração.

 

ObCig: Quando começou a trabalhar nesta empresa ou organização?

TP: Eu comecei a trabalhar na rede há cerca de um mês atrás. Esta proposta de emprego surgiu-me através das redes sociais e também através de amigos. Eu soube que havia esta oportunidade e então decidi arriscar e mandar o meu currículo. Soube a resposta um tempo depois e consegui agarrar uma oportunidade que eu acho que me realiza muito enquanto pessoa.

 

 ObCig: Como surgiu a oportunidade?

TP: Esta oportunidade de trabalhar com a Rede Europeia Anti-Pobreza surgiu um pouco através das redes sociais. Soube que havia uma oportunidade de trabalho para integrar alguém que fosse mediador ou que tivesse experiência na área ou então que percebesse, que tivesse trabalhado com as comunidades ciganas. E visto eu já ter um historial grande enquanto ativista e trabalhando também com algumas associações com a minha comunidade, e sendo eu também da comunidade cigana, pensei que isso fosse uma mais-valia e enviei o meu currículo para a Rede. O currículo foi analisado e aqui estou eu a aproveitar esta nova oportunidade na minha vida.

 

ObCig: O que fazia antes?

TP: Antes de tudo isto acontecer eu trabalhava nas feiras, como a maior parte da comunidade cigana faz. Trabalha-se nas feiras onde se começa por norma a nossa vida profissional. Depois, por vários motivos, tive que abandonar as feiras, porque não eram rentáveis e então tivemos que procurar alternativas e surgiu a faculdade na altura. Eu concorri à faculdade através dos maiores de 23, fiz o exame, na altura, de Sociologia, consegui passar. Não houve vaga, fiquei para trás, tive de concorrer novamente. Fiz depois um exame de português no mesmo ano, consegui então entrar na Universidade Aberta onde estou agora a frequentar, e depois isso também abriu portas para conseguir arranjar outros tipos de trabalho. Trabalho que se adequasse mais aquilo que eu gosto e à profissão que eu almejo ter no futuro como educadora social neste caso. E esta oportunidade surgiu também um pouco assim. É ter alguma experiência... E as outras também. Já trabalhei também para o ACM como dinamizadora comunitária no projeto Escolhas “Escolhe Amar +”, que me foi dando um pouco mais de experiência no terreno e adquirir algumas ferramentas, para poder utilizar no trabalho que tenho atualmente. 

 

ObCig: Relação com os/as colegas?

TP: Eu fui muito bem recebida, não podia ter sido mais bem recebida, nem eu estava à espera de outra coisa. Vir trabalhar com uma instituição com quem eu já tinha participado e colaborado antes, não estava à espera de outra reação. Mas realmente não somos todos iguais. E eu tive a sorte de calhar numa equipa maravilhosa, de um coordenador que é muito compreensivo e de uma colega que é fantástica e… opá… em termos de equipa não podia pedir melhor. 

 

ObCig: O que valoriza mais no trabalho assalariado?

TP: O que eu valorizo mais no trabalho assalariado é o facto de chegar ao fim do mês e nós podermos contar com aquela quantia que nos ajuda também a organizar as nossas contas para o resto do mês e estamos mais descansados também. Também o facto de fazermos os descontos e estarmos nas nossas finanças. Isso estar tudo direitinho também nos dá uma certa tranquilidade para o futuro, porque estamos a preparar aquilo que vai ser a nossa reforma. E então eu gosto muito disso, gosto dessa segurança que o trabalho assalariado nos proporciona.  

 

ObCig: O que acha que pode e deve ser feito para potenciar a integração da população cigana neste tipo de trabalho? - No que diz respeito à sociedade dita maioritária? No que diz respeito à população cigana?

TP: Acho que a integração dos ciganos no mercado de trabalho… Sensibilizar primeiro a sociedade maioritária para a questão das dificuldades que nós sentimos em arranjar emprego por sermos da comunidade cigana. Desmistificar junto das empresas e de quem está disposto a nos dar trabalho aquilo que é ser cigano, que não significa que nós vamos para lá ou roubar ou levar a família toda, porque isso não é de todo verdade. E da parte da comunidade cigana, acho que tem de se investir não só na formação mas também na sensibilização para o que é o trabalho remunerado fixo, com um contrato fixo de trabalho. Porque muitas vezes há um desconhecimento da nossa parte e se isso for um bocadinho trabalhado talvez também abra um pouco outra perspetiva da parte da nossa comunidade.

 

ObCig: No que diz respeito às políticas públicas?

TP: Em termos de políticas públicas em relação à população cigana, acho que se deve investir na educação, porque é através da educação que nós vamos obter conhecimento. Obter conhecimento da nossa cidadania, dos nossos direitos, dos nossos deveres. E eu acho que grande parte da integração da comunidade cigana passa através da educação e para isso acho que devem existir políticas públicas que promovam o gosto pela escola, a valorização da escola, a faculdade… E não só, quem não quer ir para a faculdade também tem direito a ter essa educação. E então acho que a valorização da escola deve ser um dos pontos que as políticas públicas que são dirigidas para a comunidade cigana devem-se focar.   

Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte I), Entrevistas, Eva Romão

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EVA ROMÃO
Entrevista realizada em setembro de 2019, Portalegre

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O que acha da integração da população cigana no mercado de trabalho que não seja o trabalho tradicional (por exemplo, a venda em feiras)?

Eva Romão (ER): Acho que no contexto económico atual e uma vez que as feiras deixaram de ser lucrativas ou tão lucrativas como eram anteriormente é importante procurar outras alternativas como meio de subsistência, que continuem a permitir ter uma vida confortável e também para demonstrar que os ciganos são tão competentes noutro tipo de trabalhos como qualquer outra pessoa.

 

ObCig: Quando começou a trabalhar nesta empresa ou organização e como surgiu a oportunidade?

ER: Comecei a trabalhar em 2009, através de uma oportunidade de recrutamento externo de estágios profissionalizantes que abriram na altura. Efetuei a candidatura, passei pelo processo de recrutamento como qualquer outra pessoa e acabei sempre por continuar.

 

ObCig: O que fazia antes?

ER: Antes de começar a trabalhar estudava, tirei a licenciatura em Gestão aqui mesmo em Portalegre no Instituto Politécnico.

 

ObCig: Relação com os/as colegas?

ER: Tenho uma boa relação com os colegas e sempre tive logo desde o início.

 

ObCig: O que valoriza mais no trabalho assalariado?

ER: O facto de se saber com o que se pode contar. O trabalho assalariado tem a vantagem de ao final do mês, seja muito seja pouco, saber que se vai ter, que se vai obter aquele rendimento e daí acaba por advir uma maior estabilidade para a nossa vida.

 

ObCig: O que acha que pode e deve ser feito para potenciar a integração da população cigana neste tipo de trabalho? - No que diz respeito à sociedade dita maioritária?

ER: A sociedade maioritária tem que olhar para os ciganos sem o estigma que está instituído e encarar, sobretudo quando há alguma falha da parte de algum cigano ou quando há algum problema, que aquele problema ou aquilo que se passou… não encarar como uma falha da comunidade cigana que é muitas vezes aquilo que é entendido, mas como uma falha humana que qualquer outra pessoa pode ter.

 

ObCig: No que diz respeito à população cigana?

ER: A comunidade cigana deve encarar as oportunidades que existem no mercado de trabalho como uma forma de melhorar a sua situação económica.

 

ObCig: No que diz respeito às políticas públicas?

ER: As políticas públicas são muito importantes para as comunidades mais carenciadas. Haver políticas relativamente à educação porque uma habitação condigna acaba por melhorar a vida das pessoas a todos os níveis, nomeadamente dar-lhes mais condições de saúde, acaba por ter influência na educação, porque uma criança que viva numa casa que tenha condições tem muito mais condições para levar a escola avante, para concluir a sua educação, do que uma criança que viva numa casa sem condições. Depois também é muito importante encarar publicamente que há racismo e que deve ser combatido. Acho que política e publicamente tem de haver uma admissão clara de que o racismo existe e não deve ser admitido em qualquer tipo de forma.

 

ObCig: Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

ER: Acho que é importante haver uma educação para a diferença para se aprender a respeitar as diferenças que toda a gente tem e que existem de comunidades para comunidades. E também é importante haver uma política, digamos assim, para tentar compreender o motivo que levou as comunidades ciganas, neste momento, a se encontrarem nesta situação. Não por serem tudo aquilo que nós normalmente costumamos ouvir diariamente, mas o que é que levou, desde sempre, a tudo o que está relacionado com discriminação ou com racismo… Basicamente aquilo que eu quero dizer é que tem de haver uma compreensão daquilo que houve no passado e o caminho das comunidades ciganas para agora chegarmos aqui a este ponto…  [E de um ponto de vista do seu próprio percurso?] Estudei o ensino obrigatório, ensino secundário, com algumas interrupções. Tive um intervalo de dois anos sem estudar. Depois quando foi a entrada para o 7º ano, para o 9º, para o 10º e mesmo para a universidade, eu e a minha irmã acabávamos sempre atrasadas… Teve sempre de haver da nossa parte um esforço para conseguirmos acompanhar e fazer todas as disciplinas. Depois de ter o curso feito, acho que aí é a parte mais fácil, porque acabamos por estar em pé de igualdade com qualquer outra pessoa que se vai candidatar. Se eu tinha a minha licenciatura e se cumpria os requisitos para um recrutamento como foi o caso porque é que não haveria de ser chamada. E, pronto, foi assim que as coisas se passaram, aproveitei a oportunidade.


Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC)

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Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC)

Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC) 

Em 2013, pela primeira vez, foi aprovada uma estratégia especificamente direcionada para as pessoas ciganas em Portugal: a Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC), criada através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 25/2013, de 27 de março.
Em 29 de novembro 2018, a RCM 154/2018 veio rever a referida ENICC e alargar a sua vigência até 2022, com o objetivo de ajustar os seus objetivos e metas e, consequentemente, potenciar o impacto na melhoria das condições de vida das pessoas e comunidades ciganas.
A ENICC surge, neste contexto, como uma plataforma para o desenvolvimento de uma intervenção alargada e articulada, onde os vários ministérios, municípios, organizações da sociedade civil, academia e comunidades ciganas, entre outras organizações, contribuem ativamente para a concretização dos objetivos traçados.
 
Aceda à ENICC em PT e em EN

Intro Newsletter

A Newsletter do OBCIG pretende ser um meio de comunicação com a sociedade alargada, visando a divulgação e reflexão científicas e de desconstrução de estereótipos, a promoção do conhecimento de pessoas ciganas, estudantes ou a trabalhar nas mais variadas áreas de intervenção, de divulgação do trabalho desenvolvido e a desenvolver por associações ciganas, mediadores/as interculturais e outros atores e organizações da sociedade civil, bem como de informação sobre acontecimentos relevantes, nacionais e internacionais.
 
[English below]

The newsletter intends to become a means of communication with the broad society, aimed at the disclosure, scientific reflection, and the deconstruction of stereotypes. It intends to increase awareness of the Roma population, by students or people working in the several areas of intervention and dissemination of work that has been or is being developed by Roma associations and other actors and civil associations. It also aims at providing information about relevant events, both national and international.

 

[Français ci-dessous]

La Newsletter de l´ObCig souhaite être un moyen de communication avec la société élargie, visant à la fois la divulgation et la réflexion scientifiques et la déconstruction de stéréotypes, renforçant une meilleure connaissance des personnes tsiganes, des étudiants ou des personnes qui travaillent sur plusieurs domaines d´intervention, tels que le travail des associations tsiganes déjà réalisés ou en développement et d´autres acteurs et organisations de la société civile. Enfin nous cherchons à divulguer des informations sur des évènements importants, nationales et internationales. 

 

Newsletter outubro de 2019

 

Newsletter 24 junho de 2019

 

Newsletter dezembro de 2018

 

Newsletter julho de 2018

 


Discriminação

EDUCAÇÃO

Página de entrada (Boas-vindas)

Bem-vindo/a,
 
O Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig) é uma unidade informal integrada no Alto Comissariado para as Migrações (ACM, I.P.).
Pretendemos contribuir para a concretização de algumas das medidas previstas na Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, para o reconhecimento social das pessoas, famílias e/ou comunidades ciganas e, consequentemente, para a desconstrução de mitos, representações e estereótipos desqualificantes.
Colaboramos com centros de investigação, disponibilizamos estudos e promovemos debates, encontros e outras iniciativas.
 
Contamos consigo e com a sua colaboração.
 
[English below]

The Observatory of Roma Communities (ObCig) is an informal unit integrated in the High Commissioner for Migration (ACM, I.P.).
 
We intend to contribute to the implementation of some of the measures of the National Strategy for the Integration of Roma Communities, for the social recognition of Roma people, families and /or communities, and consequently for the deconstruction of disqualifying myths, representations and stereotypes.


We collaborate with research centers, provide studies and promote debates, conferences, meetings and other initiatives.

 

[Français ci-dessous]

L´Observatoire des Communautés Tsiganes (ObCig) est une unité informelle qui est intégrée au sein de l´Haut Commissariat pour les Migrations (ACM, I.P.).

Nous souhaitons contribuer à la concrétisation de certaines mesures prévues dans la Stratégie Nationale pour l´Intégration des Communautés Tsiganes (ENICC), pour la reconnaissance sociale des personnes, des familles et/ou des communautés tsiganes, et conséquemment, pour la déconstruction de mythes, des représentations et des stéréotypes disqualifiants sur cette même population.      

Nous collaborons avec des centres de recherche, nous rendons accessibles des études et promouvons des débats, des rencontres et organisons d´autres évènements.

Nous comptons sur votre collaboration. 


Conferência Final: Relatório sobre Racismo Xenofobia e Discriminação Étnico-racial em Portugal

09 июл 2019
Conferência Final: Relatório sobre Racismo Xenofobia e Discriminação Étnico-racial em Portugal
Esta conferência terá lugar dia 9 de julho às 09h30 no Auditório António de Almeida Santos, na  Assembleia da República em Lisboa.
Consulte o programa e faça a sua inscrição até dia 8 de Julho no seguinte link: http://app.parlamento.pt/s?i=rrxdep 
Assembleia da República
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Vozes Ciganas no Associativismo (Parte II), Entrevistas, Susana Silveira

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Vozes Ciganas no Associativismo (Parte II), Entrevistas
Susana Silveira
Entrevista realizada em junho de 2019, Almada
Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O seu interesse pessoal pela problemática?
Susana Silveira (SS): O interesse pelo associativismo foi mesmo para dar voz à comunidade cigana, porque hoje em dia, cada vez mais, nós temos que nos fazer ouvir, embora existam algumas outras associações que têm feito um bom trabalho até aqui e um bom caminho, porém ainda não são suficientes, então o interesse pelo associativismo é para que nos façamos ouvir da forma correta.
ObCig: A sua perspectiva sobre o mesmo?
SS: A minha perspetiva é que o associativismo cigano é muito importante, tem tido um papel fundamental na nossa cultura, porque cada vez mais vai-se mudando mentalidades tanto de pais, através do associativismo já vão valorizando mais a escola, já vão tendo noção que querem que os filhos possam e vão conseguir ser alguém, através das associações. Porque a associação cigana, muitas das vezes até faz um papel fundamental, que é um papel de mediador, porquê? Porque leva as famílias mais tradicionais, as mais fechadas a entender que existe mais do que a nossa cultura, que podemos manter a nossa cultura, sermos cidadãos e cidadãs bem formados, para podermos então integrar o mercado de trabalho e termos mais sucesso.  
ObCig: As possibilidades do seu desenvolvimento?
SS: Possibilidades vão desaparecendo bastantes, mas o que nos interessa a nós é mesmo realidades, porque possibilidades embora haja muitas, não passam de possibilidades, nós queremos realidades. Então, nós precisamos sim de apoios, mas apoios verídicos, precisamos de estar em locais onde sejamos aceites, mas não apenas para estar lá a representar, que façamos mesmo o nosso trabalho. E cada vez mais, vamos vendo e vamos podendo entender que vamos sendo levados a sério e o nosso papel é mesmo esse, ser levados a sério. E quando nos fazem convites, quer para política quer para aquilo que seja, que sejam convites levados a sério. Possibilidades são boas, mas realidades são melhores.
ObCig: Os caminhos que esse desenvolvimento pode e/ou deve tomar?
SS: Eu como faço parte do Concig, eu acho muito importante o que se tem estado a fazer até agora, os planos de estratégia local e, quero muito que esses planos sejam aplicados à séria e que sejam não só elaborados mas que sejam concretizados, porque esses planos são fundamentais quer para o associativismo, quer para a comunidade cigana geral, porque esses planos visam traçar vários lemas que existem, porque nós enquanto associação sem fins lucrativos, sem qualquer interesse egoísta, sem qualquer interesse próprio, o nosso objetivo é que seja feito o melhor para a comunidade cigana e eu acho mesmo que passa por isso, pelos planos de estratégia local. Sim porque a comunidade cigana não é apenas uma comunidade, mas existem várias comunidades ciganas, então se existem várias comunidades ciganas, logicamente existirão vários problemas e esses problemas têm então que ser resolvidos de forma individual. Não podemos juntar tudo e colocar tudo da mesma forma, querer resolver tudo, se um lado tem um problema, tem de se resolver, se noutro lado tem outro problema tem de se resolver, terá que se resolver de uma outra forma. E eu acho muito essencial as audições públicas à comunidade cigana, eu acho muito ideal os planos de estratégia local. Acho que faz muita falta o papel de mediador ser valorizado, porque até então não tem sido muito, e o interesse é mesmo nessa óptica.   
ObCig: O que pode ser feito para o melhorar
SS: Eu entendo que para melhorar, nós ainda somos muito recentes, daquilo que eu tenho visto é a nível local, quando nós dizemos que podemos contar com o apoio de uma determinada freguesia ou Câmara Municipal, que normalmente nos passam essas informações informalmente, mas que possamos realmente contar com elas. A nível das queixas que são feitas, nós temos muitas queixas a nível de racismo, que são formalizadas, mas que acabam por ficar em nada e isso é uma das coisas que nós temos mesmo que melhorar. Porque nós enquanto associação, chegam-nos muitas queixas e depois nós o que é que temos a dizer às pessoas, vamos tratar, vamos formalizar a queixa, porém as pessoas esperam resultado. Nós ensinamos sempre às pessoas que temos de agir dentro da lei, têm que esperar que se faça justiça. E depois na hora da verdade as pessoas perguntam resultados, e nós acabamos por dizer que acabou em nada. Então, acho mesmo, tenho mesmo a certeza, que um dos aspetos a melhorar seria mesmo esse, a nível das associações. Formar as associações para saber-se formalizar as queixas e que as queixas tenham realmente um segmento de justiça real.   
ObCig: Articulação entre: a) associativismo, b) humanização socio-cultural, c) políticas públicas; direitos humanos, construção de uma cidadania activa, crítica, emancipatória e humanista.
SS: Em primeiro lugar eu acho que o associativismo tem a ver com o humanismo, porque para formarmos uma associação, em primeiro lugar temos de ser humanos, a nossa associação é para integração da comunidade cigana, mas nós temos de ser humanos o suficiente para sabermos que todos somos iguais e todos somos diferentes, mas para que nos respeitemos mutuamente, para que haja respeito e penso que a base disso tudo é o respeito. Porque um associativismo onde não haja respeito e onde não haja respeito dos direitos humanos, então há algo que está mal, há algo que não funciona. Então, nessa circunstância, penso que isso sim, acho que está interligado.
Por exemplo, nós temos tido através da associação, temos feito vários eventos, inclusive agora vamos participar de um evento de uma feira intercultural. Ou seja, essa feira intercultural não é só para a comunidade cigana, é para o público em geral e eu tenho a certeza absoluta que vão aparecer lá pessoas que não gostam tanto dos ciganos, e para ter esse primeiro contacto e desmistificar-se muitas coisas menos boas […]. Tenho a certeza que ao se desmistificar essas coisas menos boas, esses contactos, que é ali uma atmosfera de festa. As pessoas, mesmo aquelas mais tímidas vão chegando a nós sem receio. É muito importante porque vai caindo o preconceito. Vai-se desconstruindo aquela ideia má que têm do cigano. Nós temos associações ciganas que juntam alimentos para quem mais precisa, isso é muito importante, porque nós principalmente quando se fala do cigano, fala-se sempre do mau e o bom nunca vem à tona. Nunca é tão divulgado quanto o mau. E o associativismo cigano tem sido isso mesmo, nós temos colaborado com muitas famílias, temos quebrado muitos tabus, estamos aptos para nos darmos a conhecer à sociedade maioritária, mas também desejamos que a sociedade maioritária nos aceite tal como somos. Termos que nos descaracterizar e deixar de ser quem somos para sermos aceites. Porque hoje em dia, em pleno século XXI não há ninguém que queira se descaracterizar daquilo que é para ser aceite. E nós também não queremos deixar de ser ciganos, porque ser cigano é ter orgulho na família, é cuidar dos mais novos, é respeitar os mais velhos, é termos uma linguagem própria, é fazermos festas espectaculares. Ser cigano é o bom. O que tem de mau, que possa existir, que às vezes a sociedade possa pensar que há de mau, podem às vezes ser alguns costumes maus, e esses nós vamos retirando. Ser cigano é uma coisa positiva, e não tem de ser encarado negativa de forma alguma.
ObCig: Quer acrescentar algo? Quer descrever a sua associação?
SS: A minha associação é para a integração das comunidades ciganas, visa promover o emprego, visa promover a educação, a igualdade de género, entre outras coisas, nós temos vários projetos em mente, temos feito ações de sensibilização em escolas, em Atl´s, e temos tido uma boa receção, e temos tido notas muito positivas, sinceramente algumas têm-me surpreendido pela positiva.

Vozes Ciganas no Associativismo (Parte I), Entrevistas, Bruno Gonçalves

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Vozes Ciganas no Associativismo (Parte I), Entrevistas
BRUNO GONÇALVES
Entrevista realizada em maio de 2019, Figueira da Foz
Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O seu interesse pessoal pela problemática?
Bruno Gonçalves (BG): O meu interesse pelo associativismo no geral e depois no cigano nasce em 97, portanto eu vivia num bairro social, numa zona deprimida da cidade de Coimbra e portanto começamos com a questão do desporto onde surgiu um primeiro projeto-piloto, que era o futebol clube cigano de Coimbra. Mas nós sentimos que queríamos muito mais porque vivíamos numa zona deprimida onde tínhamos grandes problemas de absentismo escolar e víamos sobretudo muitas crianças ciganas a vaguear pelo bairro e sentimos necessidade em os ajudar, porque já que vivíamos tão, entre aspas, marginalizados, era importante nós também darmos uma resposta e mostrarmos o quanto eramos capazes e a partir daí surge a Associação Cigana de Coimbra que nasceu em 99 e que hoje é uma IPSS e que tem vindo a fazer um trabalho sobretudo na prioridade que é a educação.
ObCig: A sua perspectiva sobre o mesmo?
BG: O associativismo cigano, tal como o associativismo geral que nasce das cinzas, sobretudo o geral, a partir de 75, e nós sabemos que é fraco. E o associativismo cigano, embora tenha dado nos últimos 5/6 anos alguns passos, contínua a ser, portanto, fraco. Isto depende um pouco da capacidade técnica de cada associação. Felizmente temos associações ciganas, duas ou três, com capacidade técnica, porque alguns dos seus membros se instruíram, se formaram e certamente serão eles que no fundo podem ser o grande trampolim para projetar. Porque isso é uma grande dificuldade das comunidades ciganas. Têm uma enorme dificuldade em projetar e se formos competir com outras associações a algumas candidaturas que sejam abertas, certamente que nós somos no fundo os outsiders devido à incapacidade técnica. São duas ou três com alguma capacidade técnica, infelizmente as outras associações estão numa fase de crescimento, mas necessitam cada vez mais de formação.
ObCig: As possibilidades do seu desenvolvimento?
BG: As possibilidades do desenvolvimento do associativismo cigano, penso que, acho que estamos no bom caminho, apesar de estarmos a dar os primeiros passos, mas acredito que necessitamos mais de formação, há que também no fundo trazer uma nova mentalidade do associativismo às antigas associações, também formar a própria comunidade cigana do que é o associativismo, porque muitas vezes têm ideias erradas do que é o associativismo. Muitas vezes já dei com pessoas ciganas a pensar que a direcção é o órgão mais poderoso de uma associação e nós sabemos que não é assim, é a Assembleia Geral. Mas também acima de tudo é importante criar espaços de interação, espaços de informação e mesmo de formação para os dirigentes associativos ciganos. Eu penso que ainda há muito por fazer, embora estejamos a dar os primeiros passos.
ObCig: Os caminhos que esse desenvolvimento pode e/ou deve tomar?
BG: Eu penso que o caminho que deve tomar é mais formação sobretudo aos dirigentes associativos. Eu acho que a comunidade cigana terá que no fundo partir para essa, porque é um novo desafio, mas eu penso que através das associações possamos conseguir organizar muito mais a comunidade de forma a conseguir portanto alcançar alguns objetivos que é a aproximação às comunidades, à sociedade maioritária. Eu acho que isso será essencial, mas a formação é essencial, a formação e a instrução escolar, eu acho que essas são as principais plataformas que devemos atingir para que possamos desenvolver melhor o associativismo, sobretudo com as comunidades ciganas.
ObCig: O que pode ser feito para o melhorar?
BG: Para melhor eu penso que é lançarmo-nos na questão da instrução escolar, criar e possibilitar que haja acções de formação na área do associativismo. No fundo também trocas de experiências com outras associações, podem ser nacionais, mas também internacionais e sobretudo ciganas, sobretudo de Espanha, estão tão perto e que têm também no fundo uma grande experiência a nível do associativismo. Sobretudo isso, mas também continuar com alguns tubos de ensaio como têm sido os PAC´S e os FAP´s do ACM, acho que têm sido excelentes tubos de ensaio para que nos possamos organizar e melhorar a capacidade na área do associativismo. 
ObCig: Articulação entre: a) associativismo, b) humanização socio-cultural, c) políticas públicas; direitos humanos, construção de uma cidadania activa, crítica, emancipatória e humanista.
BG: São várias palavras, cada uma delas muitas vezes estão unidas, há uma articulação entre uma delas, entre várias, as várias que aí estão como foste dizendo, mas acima de tudo trabalho, muito esforço para conseguirmos esses objetivos. Acho que sem isso nós não vamos conseguir. E muito sacrifício, capacidade de resiliência acima de tudo, sem isso não vamos conseguir atingir algumas metas que todas essas palavras, portanto trazem. Associativismo uma porta aberta para o impacto de políticas; Humanização socio-cultural, portanto eu também creio que é uma oportunidade de desmistificar imagens e preconceitos; políticas públicas deveriam ser mais e melhores para a comunidade cigana, penso que se tem vindo a fazer alguma coisa, mas acreditamos que mais e mais poderiam ajudar, poderiam ajudar nesta fase dos primeiros passos que estamos a dar; os direitos humanos são essenciais, sem eles certamente não conseguimos construir a harmonia na sociedade que cada vez mais é diversa; Portanto essa construção faz-se através de várias plataformas desde as políticas públicas, o associativismo, mas também se faz pela predisposição das pessoas para construírem um mundo melhor; portanto a construção de uma cidadania activa, humanista, emancipatória depende muito, no fundo, também das políticas que se fazem, mas acima de tudo, também da predisposição das pessoas para construir um mundo melhor, uma sociedade melhor.

Vozes Ciganas no Associativismo (Parte I), Entrevistas, Sónia Matos

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Vozes Ciganas no Associativismo (Parte I), Entrevistas

Sónia Matos
Entrevista realizada em junho de 2019, Seixal

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O seu interesse pessoal pela problemática?

Sónia Matos (SM): O interesse entrou na minha vida por um acaso, porque eu não tinha qualquer tipo de conhecimento para o que é que servia uma associação ou o que é que se podia fazer numa associação. Nós tomámos conhecimento, quando digo nós, são as cinco fundadoras da associação AMUCIP que se conheceram num curso de mediadoras socioculturais e foi um formador que viu essa potencialidade em nós. Tínhamos capacidade para nos juntarmos e formarmos uma associação. E ele disse-nos é que uma não consegue ter voz e as cinco se se juntarem numa associação de mulheres conseguem ter mais força e lutar pelos vossos direitos, quando ainda nós nem sabíamos o que era direitos, o que era o mundo do trabalho. Estávamos a dar os primeiros passos na sociedade e portanto o nosso percurso tinha sido igual ao de tantas outras meninas ciganas em que estudámos e depois fomos retiradas da escola no quarto ano. Só mais tarde devido ao RSI é que comecei o meu percurso, voltei à escola, e depois a minha assistente social encaminhou-me para este curso que estava a dar início de mediadores socioculturais. E pronto, foi assim que o associativismo entrou na minha vida.    

ObCig: A sua perspectiva sobre o mesmo?

SM: O associativismo penso que foi a primeira medida, a seguir ao RSI, depois começou a integração da comunidade cigana em várias vertentes, a escolaridade, em acções de formação, em cursos de mediação, e a verdade é que esses mediadores que foram formados todos eles criaram ou desenvolveram um percurso de associativismo, porque foi por aí que nós conseguimos criar voz e começar a dar a conhecer à sociedade maioritária o que era a comunidade cigana, portanto os primeiros dez anos da associação foi principalmente formar a sociedade maioritária na cultura cigana, da comunidade cigana, dar a conhecer os nossos valores, quem somos, como vivemos, porque temos esta atitude, porque andamos desta forma, porque reagimos desta maneira. Porque no fundo os estudos é sempre assim que nos veem, como alguém que é completamente diferente e que é importante estudar, como é que eles comem, como é que se vestem, como é que eles andam, e portanto durante quinze anos o nosso governo andou a estudar a comunidade cigana. E os estudos e os livros estão todos aí, mas depois estes estudos e estes livros nunca foram buscar a verdadeira história da cultura cigana, porque nós fazemos parte deste país, desta história. Onde é que nós ficámos, porque é que nós não fazemos parte do currículo escolar na história portuguesa, porque nós estávamos presentes. Portanto a associação a mim e às mulheres ciganas deu-nos o poder e o conhecimento de podermos sonhar com uma vida melhor. Mas eu acho que as associações ainda têm um longo percurso pela frente, porque as associações, esta massa associativa que nasceu tem cerca de 15, 16 anos e poucas foram as associações que conseguiram vingar porque é muito complicado associações de comunidade cigana conseguirem manter-se. Agora tem o ACM que é a única entidade que ainda financia um bocadinho as associações ciganas, mas a verdade é que nós estamos ainda a dar pequenos passos porque já provámos que conseguimos fazer um excelente trabalho. E a sociedade maioritária já chegou à conclusão que para trabalhar com a comunidade cigana tem de trabalhar Com os ciganos, não é Para os ciganos. E portanto acho que as associações foram e são aquilo que está a fazer a mudança dentro da comunidade cigana.

ObCig: As possibilidades do seu desenvolvimento?

SM: Dentro da comunidade cigana neste tempo o que eu acho é que as associações tiveram a crescer e a empoderar-se elas próprias, porque elas próprias não sabiam muito bem como desenvolver o seu trabalho, eu falo pela minha associação, mas agora como já temos encontros de associações no ACM, deparo-me que todos temos as mesmas dificuldades e que ainda precisamos de muito apoio por parte do governo para continuarmos a crescer também, porque precisamos desse apoio enquanto associação que está a dar os primeiros passos, mas acho que nós para podermos alcançar a credibilidade que as outras associações e instituições já têm, ainda nos falta um longo caminho, porque a própria comunidade cigana o conceito associação ainda não está desenvolvido dentro de si. Neste momento, as mulheres com quem eu trabalho são cerca de 60, já é um número que nos dá para ter uma pequena visão, elas encaram a associação como um espaço em que estão lá mulheres ciganas e que podemos ter formação. Um espaço que é delas, que podem falar da forma que estão e onde não têm qualquer tipo de receio. Mas o conteúdo ou para que serve uma associação é muito de trabalho de colaboração de grupo. E eu acho que a comunidade cigana ainda lhe falta trabalhar essa parte. De colaboração em trabalho em prol da comunidade, porque não temos aquela… ainda não consigo chegar lá, mas acho que nos falta uma raiz que nós pudéssemos pegar todos e dirigirmo-nos todos naquele sentido. Porque agora o que eu sinto, é que as associações, cada uma está a trabalhar por si e a comunidade cigana começa a ver estes movimentos e começa a perceber estas acções. E portanto estamos numa fase de empoderamento, que as mulheres começam a perceber, nós se tivermos juntas, conseguimos ter mais voz e conseguimos continuar. Mas as minhas mulheres, já não conseguem conceber a ideia que os projetos terminam em tempo. E as minhas mulheres, as que tinha aqui há dez minutos, o projeto vai durar até 31 de Julho, e elas já me estavam a dizer como é que é, isto não pode acabar. Elas não pensam que isto tem de ter um financiamento para dar continuidade. Isto é necessário fundo para dar continuidade. Portanto há um trabalho muito muito grande a ser feito dentro da comunidade cigana para valorizar ou para que elas tomem consciência do que é realmente o associativismo e para que ele serve.  

ObCig: Os caminhos que esse desenvolvimento pode e/ou deve tomar?

SM: Em primeiro lugar acho que tinham de ser do governo, governamentais, medidas que pudessem dar mais apoio, financiamentos para que estas associações pudessem sustentabilizar o seu trabalho para que fosse uma coisa mais contínua, porque neste momento eu tenho 5 anos, vai para o 5º ano de projeto PAC, mas são projetos muito pequeninos, projetos de um ano que eu preferi manter o mesmo grupo para dar continuidade a um trabalho destas mulheres e no dia 6 elas vão fazer uma mostra ali nas oficinas Cargaleiro com os trabalhos que elas desenvolveram, patchwork, pintura, fotografia e é bom que nós também possamos mostrar esse outro lado, que as mulheres não sabem só costurar e cozinhar na comunidade cigana, temos que abrir os horizontes e abrir as portas porque todos os ciganos não podem ser ativistas e associativistas e mediadores. Temos que abrir portas de trabalho em outras instituições para que a comunidade cigana se comece realmente a integrar e conseguir-se sentir integrada também.

ObCig: O que pode ser feito para o melhorar

SM: Neste momento estamos… eu penso que é um caminho que me parece correto, estamos a desenvolver um trabalho de mais proximidade dentro do ACM com uma presença já muito notória das associações ciganas, mas gostaríamos muito, nós associações, de termos uma identidade externa ao governo, que fosse independente, para termos mais autonomia, porque por muito que nós possamos dizer ou opinar, o que prevalece é a vontade do ACM e do ObCig, nós podemos estar lá a batalhar, a partilhar ideias, mas ainda não temos independência real, precisávamos de uma entidade independente ao governo que defendesse realmente a comunidade cigana, os seus direitos e os seus deveres.

ObCig: Articulação entre: a) associativismo, b) humanização socio-cultural, c) políticas públicas; direitos humanos, construção de uma cidadania activa, crítica, emancipatória e humanista.

SM: Sim, ser associativista é isso tudo e isso está tudo ligado e pelo aquilo que eu entendo todo o percurso e todo o trabalho que a associação faz é no sentido de empoderar estas mulheres, de se conhecerem a si próprias e de fazer o seu percurso, a AMUCIP ajuda a criar essa auto-estima, esse conhecimento e depois o objectivo principal é ajudá-las a elas caminharem e a chegar juntas às instituições. Portanto, o ano passado consegui criar um grupo de alfabetização na Escola Secundária da Amora, parceria desenvolvida pelo centro qualifica, estas mulheres terminaram este projeto que é de competências básicas, terminaram este ano e já se inscreveram este ano para fazer a EB1. Portanto, elas agora já estão sozinhas, já estão nas escolas e já fizeram o seu percurso, assim como as mulheres que estou a acompanhar, encaminhei para outra instituição que é as oficinas Cargaleiro, que é as Artes, e portanto está outra instituição a trabalhar com estas mulheres. Porque o objetivo é empoderá-las e depois elas seguirem às instituições e é dessa forma que o associativismo depois cria a cidadania e o saber estar e o saber viver. Acaba tudo por estar tudo ligado no trabalho que desenvolvemos no dia-a-dia e na vida destas mulheres. Porque há um trabalho muito grande a ser feito antes disto tudo ser concretizado, nós tivemos um ano com essas mulheres em que foram preparadas aqui na AMUCIP, o saber estar, o saber estar sentada umas horas, o habituar a família a que elas tivessem aquelas horas fora de casa, quando digo família digo maridos, filhos. E isso é todo um trabalho que se tem de fazer antes e agora ela já conseguem ir sozinhas para a escola e desenvolver o seu percurso. Mas primeiro tem que haver um processo realizado por uma associação, porque são outras mulheres que falam como elas e que passaram pelo mesmo que elas, e que se hoje estão aqui, eu também posso ambicionar uma coisa melhor para mim. Acho que é muito nesse sentido.

Nós por exemplo criámos um kit pedagógico que está a ser aplicado nas escolas e está preparado para ser aplicado do jardim-de-infância ao 4º ano e o Ministério da Educação validou esse kit pedagógico, portanto isso poderia e é uma influência, porque ao estar na página do Ministério da Educação e a ser validado e reconhecido que é uma boa prática e também ter sido aprovado agora no guião, foi elaborado pelo Ministério da Educação e estar lá como uma referência, isso é influenciar também o resto da sociedade e portanto é pegar em algo que uma associação criou e fez para ser aplicado como uma política pública para todas as crianças. Também temos o exemplo das Letras Nómadas que trouxe um projecto a nível europeu, com fundos europeus, que financiou as bolsas dos estudantes OPRÉ Chevalé e que depois o nosso governo aderiu e colheu essa medida como medida de política pública. Isso é uma demonstração que as associações da comunidade cigana estão a desenvolver um trabalho muito credível, um trabalho que tem cerca de quinze anos, não tem mais, e que nestes quinze anos conseguiu fazer muito mais que a sociedade maioritária fez em trinta anos de estudos.


Vozes Ciganas no Associativismo (Parte II), Entrevistas, Luís Romão

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Vozes Ciganas no Associativismo (Parte II), Entrevistas

Luís Romão
Entrevista realizada em maio de 2019, Elvas

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O seu interesse pessoal pela problemática?

Luís Romão (LR): O meu interesse pessoal pelo associativismo cigano surge de há algum tempo para cá, surge quando eu comecei a trabalhar nesta área das comunidades ciganas, quando fui introduzido numa escola e comecei a trabalhar mais directamente com as comunidades. Mas é em 2014, 2013/2014 que surge a necessidade de nos formalizarmos mesmo enquanto associação, porquê? Porque no âmbito do ROMED 2 surgem os primeiros grupos ativos em Portugal e Elvas foi uma cidade escolhida. E nós formalizámos um grupo ativo e esse grupo ativo sentiu a necessidade de se formalizar enquanto associação porque precisávamos de credibilidade em relação às instituições públicas. Ou seja, nós eramos um grupo de pessoas que já trabalhávamos para as comunidades ciganas, elaborávamos propostas, mas faltava-nos algo. E esse algo era mesmo formalizarmo-nos enquanto associação. É em 2014 que se forma a associação Sílaba Dinâmica que passado 4 anos tem feito um trabalho notável em Elvas e que tem despertado o interesse de várias entidades a nível nacional. E dizer também que foi com a criação desta associação que se conheceram vários talentos em Elvas e vários ativistas em Elvas e vários membros da comunidade cigana que têm vindo a ajudar também na problemática que é das comunidades ciganas.

ObCig: A sua perspectiva sobre o mesmo?

LR: A minha perspetiva sobre o associativismo cigano é pessoal, mesmo muito pessoal, eu acho que ainda somos muito pequeninos em relação a outro tipo de associações. Também porque começámos há bem pouco tempo. O grande número de associações que se tem vindo a se formalizar têm muito pouco tempo de duração, têm muito pouco tempo de vida. Falta-nos muita experiência, falta-nos um pouco de apoio principalmente por parte da nossa comunidade, porque às vezes a comunidade cigana confunde um pouco o que é uma associação e o que é uma empresa. Uma associação, quase todas elas, são sem fins lucrativos. Uma associação tem órgãos de gestão. E a comunidade cigana às vezes confunde um pouco isso, nós às vezes somos crucificados pela parte da comunidade cigana e crucificados também pela parte da sociedade maioritária. É um pau de dois bicos. Nós estamos aqui no meio e às vezes levamos porrada de um lado e do outro. Agora em relação ao crescimento que nós podemos vir a ter, eu penso que tem pernas para andar. Cada vez mais jovens estão interessados no associativismo cigano e isso é importante, são pessoas com outra mentalidade, pessoas com ideias novas. São essas pessoas que podem, ao fim ao cabo, levar este associativismo da comunidade cigana para a frente.

ObCig: As possibilidades do seu desenvolvimento?

LR: As possibilidades para o desenvolvimento do associativismo em Portugal neste momento são muitas. Cada dia nós conhecemos pessoas que têm vontade de criar associações, principalmente associações ciganas. São jovens, a maior parte deles são jovens, nós incentivamo-los muito a que criem associações. O problema está, nós aí temos muito pouco conhecimento do que é o associativismo. Falta-nos muita base, porque ao fim ao cabo, a comunidade cigana, agora é que está a despertar agora também para o estudo. Agora é que temos muita comunidade cigana a formar-se no ensino superior e faz-nos falta pessoas técnicas, pessoas com conhecimento em relação ao que é uma associação, como é que se gere uma associação. Mas eu acredito que esta nova geração de jovens ciganos que vai dar muita força, muita força às comunidades ciganas em Portugal, ou seja, são eles que vão ser o nosso futuro.

ObCig: Os caminhos que esse desenvolvimento pode e/ou deve tomar?

LR: O caminho das comunidades ciganas em relação às associações, eu tenho feito ultimamente na associação Sílaba Dinâmica e acho que para mim é um dos temas mais importantes que nós temos é Educação. A associação Sílaba Dinâmica em 2017 voltou-se muito para a área da educação, trabalhar com crianças, e porquê trabalhar com crianças? Porque ao fim ao cabo as crianças são o nosso futuro. Nunca esquecer a população sénior, porque são realmente pilares na nossa comunidade, mas focando-se cada vez mais na educação. Porque é a educação que nos pode dar uma grande transformação, não na cultura mas sim no aspeto do conhecimento em relação às associações ciganas. O crescimento faz-se nas crianças, o crescimento faz-se na educação e é aí que na minha opinião se deve virar mais e se deve focar mais as associações ciganas. 

ObCig: O que pode ser feito para o melhorar?

LR: O que nós podemos fazer para melhorar, eu há pouco disse e volto a repetir, é que as associações ciganas têm que capacitar mais os seus membros. As associações ciganas têm que dar mais conhecimento do seu trabalho à população, principalmente à população cigana, porque ao fim ao cabo, a população cigana não sabe o que a associação trabalha. As associações ciganas têm que também ter nos seus órgãos sociais técnicos, porquê técnicos? Porque nós muitas das vezes quando concorremos a concursos públicos nós perdemos, porque nos falta um pouco de conteúdos, são esses técnicos que às vezes nos dão aquela pontinha que nos falta, para poder concorrer ao mesmo nível que as associações de magnitudes superiores. E focarmo-nos principalmente nisso nos órgãos de gestão, serem um pouco interculturais também, para que possamos ver, para termos várias vertentes nas nossas associações. [São interculturais?]  A minha é, aliás nós podemos formar uma associação cigana, as associações têm de ser interculturais. A minha associação tem 9 membros, não 12, acho que é 9, e 4 ou 5 são não ciganos. 4 ou 5. Faz falta, porque é assim, muita das vezes nós queremos uma associação, a gente nem sabe onde nos estamos a meter, nós queremos uma associação com fundamento, mas depois surgem mil ideias e depois de surgirem essas ideias, falta-nos o conhecimento, transformar as ideias na teoria. Nós conseguimos meter a teoria na prática, agora, prática… as ideias surgem e nós transformamos essas ideias na teoria nós não conseguimos. Por exemplo, vou-lhe dar um exemplo, o plano de atividades, fazer um plano de atividades, que para um técnico superior se calhar é uma coisa não tão difícil de fazer, mas para a comunidade cigana torna-se um bocadinho difícil, porque nós não estamos habituados a criar um plano de atividades, porque se quiseres ter um orçamento anual por exemplo, principalmente vindo de um município, nós temos de ter um plano anual, nós temos de ter um plano de estratégia, nós temos de ter um plano de atividades e ás vezes este plano de atividades, nós não sabemos fazer, e eu foi assim que o aprendi, foi com um técnico que me ajudou a fazer, por isso, se o técnico tiver nos órgãos sociais da associação torna-se muito mais fácil. Porque também é do interesse dele que esse plano de atividade tenha um fundamento e um plano com pernas para andar. Só assim as associações, na minha opinião, principalmente as associações novatas que têm pouca experiência na actualidade, só assim vão conseguir projetos. Porque uma associação sem fundos não consegue praticamente fazer nada. Porque hoje em dia tudo o que se consegue fazer tem de ser pago. Nós não conseguimos contratar ninguém sem pagar porque as pessoas fazem um trabalho voluntário não fazem dois, e ao fim ao cabo, se uma associação quer continuar a trabalhar tem de ter trabalho anualmente e tem que conseguir verbas para poder pagar a técnicos, professores e a todas as pessoas que, ao fim ao cabo, trabalham com a associação.

ObCig: Articulação entre: a) associativismo, b) humanização socio-cultural, c) políticas públicas; direitos humanos, construção de uma cidadania activa, crítica, emancipatória e humanista.

LR: Desde 2014 que nós criámos a associação Silaba Dinâmica a comunidade cigana em Elvas tem sido muito mais ativa, ou seja, tem sido muito mais participativa. Já participámos em vários eventos, juntamente com outras associações. Por exemplo, há bem pouco tempo tivemos uma acção de limpeza de um espaço verde. A associação Sílaba Dinâmica com alguns membros da comunidade cigana participámos, coisa que antigamente não conseguíamos fazer. Nós criámos um festival intercultural em Elvas, já tivemos mesmo até dois, onde participaram várias culturas em Elvas, a cultura africana, a cultura cigana, a sociedade maioritária. Interagimos entre as pessoas e só assim com essa interacção é que nós conseguimos que a comunidade cigana seja tão participativa. Quando foram as últimas legislativas… as últimas autárquicas, a comunidade cigana votou em massa, isso é participação. E a comunidade cigana ultimamente depois da criação desta associação ou porque damos a conhecer o que é a participação também, incentivamos a comunidade cigana também à participação e depois isto tudo é um jogo, sem querer vamos entrando e vamos participando.

Em relação ao associativismo e às políticas públicas, eu penso que a nível nacional se tem feito um trabalho bom com as associações e porquê? Porque deram oportunidade às associações ciganas concorrer a fundos para que, ao fim ao cabo, tenham a possibilidade de por em prática alguns dos seus projetos, por isso estamos a falar em políticas públicas. Logicamente que algumas políticas que não encaixam muito bem no associativismo, mas da experiência que eu tenho eu penso que as políticas públicas têm-nos vindo a beneficiar em relação ao associativismo cigano.

O associativismo tem sido cada vez mais importante na decisão das políticas públicas também porque às vezes surgem ideias nas associações que são transformadas em políticas públicas. Por exemplo, na associação Letras Nómadas surgiu uma ideia que foi o OPRE Chavalé que foi colocar jovens da comunidade cigana no ensino superior e começou com um apoio do Conselho da Europa que hoje transformou-se numa política pública, ou seja, hoje o programa OPRE chavalé faz parte de uma política de governo e foi através de uma associação cigana que se criou essa ideia que hoje em dia é uma política pública, ou seja, de uma política do governo.

ObCig: Queres acrescentar algo à entrevista?  

LR: Quero acrescentar uma crítica aos ciganos… principalmente as dificuldades que nós temos de dirigir uma associação, é muito complicado, é muito complicado porque e há pouco eu frisei isso, que é nós às vezes somos acusados de coisas… ou seja, nós para a comunidade cigana somos vistos como alguém que ajuda a sociedade maioritária e para a sociedade maioritária somos vistos como alguém que só está do lado da comunidade cigana e, não é bem assim. A comunidade cigana tem alguma dificuldade em perceber o que é uma associação e há pouco disse e volto a repetir, a comunidade cigana pensa que a associação é uma empresa, que gera lucros e que os lucros são para fins próprios dos membros da associação. E coisa que isso é impossível de se fazer. Torna-se muito difícil e desmotivante nós continuarmos a fazer um trabalho quando levas pedradas de todo o lado, é o mais complicado que eu vi desde que eu trabalho com a associação. É muito complicado nós estarmos a desenvolver um trabalho, ser boicotado às vezes pela própria comunidade, porque pensam que a associação, ao fim ao cabo, está a lucrar com tudo isto e a lucrar financeiramente. Quando, ao fim ao cabo, na associação o único lucro é o bem-estar das crianças principalmente com quem nós trabalhamos ultimamente e o bem-estar da comunidade cigana. Mas é continuar a lutar e esperar que melhores dias venham. 


Boas-vindas / Welcome / Bienvenue

O Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig) pretende contribuir para a concretização de algumas das medidas previstas na Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, designadamente para o reconhecimento social das pessoas, famílias e/ou comunidades ciganas e, consequentemente, para a desconstrução de estereótipos que perpetuam discursos e práticas discriminatórios.

O ObCig colabora com centros de investigação, disponibiliza estudos, financia e publica investigação científica e promove debates, encontros e outras iniciativas de interesse para a sociedade em geral, visando a melhoria das perceções e da qualidade de vida da população cigana.

Neste sentido, a coordenação do Observatório das Comunidades Ciganas pretende o desenvolvimento de um trabalho conjunto que possibilite a construção de um caminho cujos limites sejam a plena humanização das sociedades, lutando contra todas as formas de desigualdade e de discriminação sociais que minam a democracia e tornam frágeis as relações humanas; pugnar por uma sociedade sem ódio ou hierarquias sociais e culturais; por uma sociedade convergente na divergência de opiniões, gostos, normas e diferenças; por uma sociedade onde todos nasçam “livres e iguais em dignidade e em direitos” e no exercício desses direitos; por uma sociedade onde a utopia, enquanto lugar em construção, corporize a luta e a resistência político-cívica de todos/as e cada um/a pelo direito a ter voz como a capacidade de ser escutado em todas as esferas do social; pelo exercício quotidiano de resistência à frustração quando a realidade contraria a vontade de mudança social no sentido da igualdade de estatutos; pelo direito ao exercício de uma cidadania ativa, crítica, emancipatória e humanista; pelo direito a SER HUMANO NO EXERCÍCIO DESSA HUMANIDADE.

É fundamental a convergência de vontades de todas/os, num trabalho conjunto que pretende servir o bem-estar da humanidade em cada sociedade.

 

[English below]

The aim of the Observatory of Roma Comunities (ObCig) is to contribute to the fulfillment of some of the objectives of the National Strategy for the Integration of Roma Comunities, such as social awareness of the Roma people, families and/or comunities and, consequently, to the deconstruction of stereotypes that perpetuate discriminatory discourses and practices.

The ObCig works with research centres, publicises studies and finances and publishes scientific research. It also promotes debates, meetings and other initiatives for the general public, seeking to improve the perceptions and the quality of life of the Roma population.

With this in mind, the coordenation of the Observatory of Roma Communities seeks to join efforts in the creation of a path whose boundaries are the humanization of societies, fighting against all forms of inequality and social discrimination that undermine democracy and weaken human relationships. The fight for a hateless society, free of social and cultural hierarchies; for a society united in the diference of opinions, interests, norms and diferences; for a society where all are born “free and equal in dignity and rights” and the exercise of those rights; for a society where the utopia, as a place in construction, embodies the struggle and the civil-political resistance of each and all for the right to have a voice and be heard. For the day-to-day resistance to the frustation that comes when reality contradicts social change of status; for the right to exercise an active, critical, emancipatory and humanistic citizenship; for the right to be HUMAN IN THE EXERCISE OF THAT HUMANITY.

The convergence of the wishes of all in order to serve humanities’ welfare in each society is paramount.

 

[Français ci-dessous]

L´Observatoire des Communautés Tsiganes (ObCig) souhaite contribuer à la concrétisation de certaines mesures prévues par la Stratégie Nationale pour l´Intégration des Communautés Tsiganes (ENICC), notamment pour la reconnaissance sociale des personnes et/ou communautés tsiganes et, conséquemment, pour la déconstruction de stéréotypes qui perpétuent des discours et des pratiques discriminatoires.      

L´ObCig collabore avec des centres de recherche, il rend accessible des études, subventionne et publie des recherches scientifiques, organise aussi bien des débats que des rencontres et d´autres évènements d´intérêt pour la société en général, cherchant par-là à améliorer les perceptions et la qualité de vie de la population tsigane.

Dans ce sens, la coordination de l´Observatoire des Communautés Tsiganes souhaite le développement d´un travail d´équipe qui puisse rendre possible la construction d´un chemin dans lequel les limites sont la pleine humanisation des sociétés, luttant contre toutes les formes d´inégalité et de discriminations sociales qui minent la démocratie et rendent fragiles les relations humaines. Elle souhaite lutter pour une société sans haine ou hiérarchies sociales et culturelles ; pour une société où il existe des convergences au sein des divergences d´opinion, des goûts, des normes et des différences ; pour une société où toutes les personnes puissent naître aussi bien «libres et égales en dignité et en droits» comme lors de l´exercice de ces même droits ; pour une société où l´utopie, en tant que lieu de construction, rend palpable la lutte et la résistance politico-civique de tous et toutes ainsi que chacun et chacune pour le droit à avoir une voix qui puisse être écoutée dans toutes les sphères du social ; pour l´exercice quotidien de la résistance à la frustration quand la réalité est contraire à la volonté de changement social dans le sens de l´égalité de statuts ; pour le droit à l´exercice d´une citoyenneté active, critique, émancipatoire et humaniste ; pour le droit à ÊTRE HUMAIN DANS L´EXERCICE DE CETTE HUMANITÉ.  

Il est fondamental la convergence des volontés des tous et toutes, dans un travail d´ensemble qui puisse servir le bien-être de l´humanité en chaque société.


Sobre o ObCig / About ObCig / A propos de l´ObCig

O Governo de Portugal, consciente da necessidade de promover a integração das comunidades ciganas, aprovou, em 2013, a Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC), Resolução do Conselho de Ministros n.º 25/2013 de 27 de Março.

A Estratégia surge, neste contexto, como uma plataforma para o desenvolvimento de uma intervenção alargada e articulada, onde os vários ministérios, municípios, organizações da sociedade civil, academia e comunidades ciganas, entre outros, contribuem ativamente para a concretização dos objetivos traçados.

Face à escassez de estudos e informação relativas às comunidades ciganas, por forma a definir um diagnóstico robusto, a avaliar as dinâmicas e os resultados decorrentes da Estratégia, mas também a produzir um conhecimento aprofundado da temática, a ENICC prevê, no seu Eixo Transversal, Prioridade 2, a criação do “Observatório das Comunidades Ciganas” para promover a realização e edição de estudos sobre as comunidades ciganas.

Assim, o Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig), contribui não só para a concretização de algumas das medidas previstas na Estratégia, mas também para a conceção, implementação e avaliação das políticas públicas neste domínio, apresentando-se como um motor de criação de redes de cooperação académicas, científicas e institucionais, bem como do diálogo entre a academia e os decisores políticos.

 
 

a) Auxiliar na conceção de políticas públicas para a população portuguesa cigana ou residente em Portugal.

 

b) Promover e realizar investigação em áreas estratégicas visando o conhecimento e a integração da população cigana numa perspetiva de igualdade.

 

c) Contribuir para a desconstrução de estereótipos, principalmente através da participação em conferências, seminários, workshops e ações de formação.

 

d) Promover um diálogo construtivo entre a academia e os decisores políticos com vista a potenciar a igualdade de oportunidades e os Direitos Humanos tendo como cerne a população cigana.

 

e) Dar continuidade à Coleção Olhares, publicando, em edição impressa, investigação científica já realizada (resultados de projetos de investigação, dissertações de mestrado ou teses de doutoramento), com particular interesse para o conhecimento das comunidades ciganas e a decisão política sustentada.

 

f) Sem prejuízo da criação de outras coleções, criar a Coleção Estudos OBCIG, em edição impressa, com o objetivo de promover a produção de investigação científica temática nas áreas da Estratégia ou afins.

 

g) Disponibilizar, nomeadamente no sítio do OBCIG, investigação realizada e não publicada, como dissertações de mestrado e teses de doutoramento.

 

h) Promover a edição de brochuras que contribuam para a desconstrução, cientificamente sustentada, de estereótipos.

 

i) Promover conferências nacionais e internacionais, nomeadamente nos vários eixos da Estratégia Nacional para a integração das comunidades ciganas (ENICC).

 

j) Estabelecer uma rede de parcerias com Centros de Investigação nacionais e internacionais.

 

k) Participar em projetos de investigação internacionais que visem aprofundar conhecimento existente ou produzir novo conhecimento sobre a população cigana numa perspetiva comparada.

 

l) Participar em redes académicas de promoção e divulgação científicas e de políticas sociais.

 

m) Criar uma rede internacional de parcerias com organizações não governamentais que trabalhem com população cigana e, globalmente, com problemáticas relativas a Direitos Humanos.

 

n) Criar uma Newsletter de caráter científico e informativo.

 

o) Participar em congressos, conferências e seminários nacionais e internacionais, divulgando a atividade científica do OBCIG e as políticas públicas para a integração da população cigana.

 

p) Participar em reuniões internacionais de relevância face aos objetivos do OBCIG e, globalmente, do ACM.

 

[English below]

About the ObCig

The Government of Portugal, aware of the need to promote the integration of Roma Communities, aproved in 2013 the National Strategy for the Integration of Roma Communities (ENICC in Portuguese), Cabinet Resolution nº25/2013, March 27.

The Strategy is, in this context, a platform for the development of a broad and articulate intervention, where the several ministries, municipal districts, civil society organisations, academy and Roma Communities, among others, actively contribute to the achievement of the set goals.

Due to the scarcity of research and information about the Roma Communities, in order to create a robust diagnosis, evaluate the dynamics and the results of the Strategy and achieve a deep knowledge of the matter, the ENICC predicts, in its Crosscutting Pillar, Priority 2, the creation of the “Observatory of the Roma Communities” to promote the realization and publication of studies on the Roma Communities.

Through this, the Observatory of Roma Communities contributes not only to the fulfillment of some of the measures intended within the Strategy, but also to the design, implementation and evaluation of the public policies in this domain. Thus it aims to become an engine for the creation of academic, scientific and institutional cooperation laws and regulations, as well as for the dialogue between the academy and the political decision makers.

 

The Observatory of Roma Communities (ObCig) has the following functions:

 

a) Help with the creation of public policies for the Roma population from or residing in Portugal.

b) Promote and do research in strategic areas with the knowledge and integration of the Roma population in mind, within an equality perspective.

c) Contribute to the deconstruction of stereotypes, mainly through participating in conferences, seminars, workshops and professional development courses.

d) Promote constructive dialogue between the academy and the political decision makers in order to increase equal opportunities and human rights with the Roma population at its core.

e) Continue with the “Olhares” (Looks) Collection, publishing completed scientific research (results of research projects, master or doctoral theses) in print edition, with a particular interest in the awareness of Roma communities and sustained political decision.

f) Create the ObCig Studies Collection in print edition, with no detriment to the creation of other collections, for the purpose of promoting the development of thematic scientific research in the Strategy’s areas (or similar).

g) Make completed and unpublished research available, such as master dissertations and doctoral theses, on the ObCig website.

h) Promote the layout of brochures that contribute to scientifically supported deconstruction of stereotypes. 

i) Promote national and international conferences, namely in the several areas of the National Strategy for the Integration of Roma Communities (ENICC).

j) Establish a network of partnerships with national and international Research Centres.

k) Participate in international research projects that seek to further existing awareness or produce new knowledge about the Roma community in a compared perspective.

l) Participate in academic scientific and social promotion and dissemination networks.

m) Create an international network of partnerships with non-governmental agencies that work with the Roma population and, on a global scale, with problems related to Human Rights.

n) Create a scientific and informative Newsletter.

o) Participate in national and international congresses, conferences and seminars, disseminating the scientific activity of the ObCig and public policies for the integration of the Roma population.

p) Participate in relevant international meetings regarding the objectives of the ObCig and the High Commissioner for Migrations.

 

[French ci-dessous]

A propos de l´ObCig

Le Gouvernement de Portugal, étant conscient de l´importance de promouvoir l´intégration des communautés tsiganes, a approuvé, en 2013, la Stratégie Nationale pour l´Intégration des Communautés Tsiganes (ENICC) lors de la Résolution du Conseil de Ministres nº25/2013 de 27 mars. 

Cette Stratégie surgit, dans ce contexte, comme une plateforme pour le développement d´une intervention élargie et articulée, où les différents ministères, les mairies, les organisations de la société civile, et aussi l´Académie et les communautés tsiganes, entre autres, peuvent contribuer activement à la concrétisation des objectives définis apriori.

Face à la pénurie des études et des informations concernant les communautés tsiganes, de façon à établir un diagnostic solide, à évaluer les dynamiques et les résultats que la Stratégie produit, mais également à produire une connaissance approfondie sur la thématique, l´ENNIC prévoit dans son Axe Transversale, priorité 2, la création de « l´Observatoire des Communautés Tsiganes » en vue de promouvoir la réalisation et l´édition des études sur les communautés tsiganes.

Ceci dit, l´Observatoire des Communautés Tsiganes (ObCig), contribue non pas seulement à la concrétisation de certaines mesures prévues dans l´ENICC, mais davantage à la conception, implémentation et évaluation des politiques publiques dans ce domaine, se présentant comme un moteur de création de réseaux de coopération académiques, scientifiques et institutionnelles, ainsi que de dialogue entre l´Académie et les décideurs politiques.

 

L´Observatoire des Communautés Tsiganes (ObCig) a comme mission :

 

a) Aider à la conception de politiques publiques destinées à la population portugaise tsigane ou qui habitent au Portugal.

b) Promouvoir et réaliser de la recherche en plusieurs domaines stratégiques, visant la connaissance et l´intégration de la population tsigane dans une perspective d´égalité.

c) Contribuer à la déconstruction de stéréotypes, principalement à travers de la participation dans des conférences, des séminaires, des workshops et des actions de formation.

 d) Promouvoir un dialogue constructive entre l´académie et les décideurs politiques afin de renforcer l´égalité d´opportunités et les Droits Humains ayant comme cible principalement la population tsigane.

 e) Donner continuité à la « Coleção Olhares », publiant, en édition papier, de la recherche scientifique déjà réalisée (dont des résultats de projets de recherche, des dissertations de master ou des thèses de doctorat), ayant un particulier intérêt pour la connaissance des communautés tsiganes et la décision politique durable.   

f) Sans que ce soit au détriment d´autres collections, créer la collection d´études ObCig, en édition papier, ayant pour l´objectif de promouvoir la production de recherche scientifique thématique dans les domaines de la Stratégie (ENICC) ou des sujets liés à cette dernière.   

g) Rendre accessible, notamment dans le site de l´ObCig, la recherche déjà réalisée et non publiée, tels que des dissertations de master et des thèses de doctorat.

h) Promouvoir l´édition de brochures qui puisse contribuer à la déconstruction, scientifiquement durable, de stéréotypes.  

i) Promouvoir des conférences nationales et internationales, notamment suivant les plusieurs axes de la Stratégie Nationale pour l´Intégration des Communautés Tsiganes (ENICC).

j) Etablir un réseau de partenariat avec des centres de recherche nationales et internationales.

k) Participer à des projets de recherche internationales qui visent approfondir la connaissance existante ou alors produire des nouvelles connaissances sur la population tsigane dans une perspective comparée.

I) Participer à des réseaux académiques de promotion et de divulgation scientifique et de politiques sociales.

m) Créer un réseau international de partenariat avec des organisations non gouvernementales qui travaillent avec la population tsigane et, globalement, avec des problématiques liés aux Droits Humains.

n) Créer une Newsletter de caractère scientifique et informatif.  

o) Participer aux congrès, aux conférences et aux séminaires nationales et internationales, divulguant l´activité scientifique de l´ObCig et les politiques publiques pour l´intégration de la population tsigane.

p) Participer dans des réunions internationales de relevance face aux objectifs de l´ObCig et, généralement, de l´ACM.


Estudos e Publicações

Os estudos desenvolvidos em Portugal que problematizam as questões ciganas têm vindo a aumentar significativamente, sobretudo a partir dos anos 90 do Século XX, sobressaindo diversas teses de doutoramento que foram concluídas na década de 2000, na área das ciências sociais.

Pretende-se, no site do Obcig, divulgar os trabalhos académicos produzidos por investigadores/as e estudantes que se dedicam a esta temática, a nível nacional e internacional.

Paralelamente, em todo o território nacional, têm sido empreendidas iniciativas de investigação e ações de intervenção que envolvem as comunidades ciganas, por entidades públicas e privadas (escolas, associações, centros de formação profissional, organizações não-governamentais, entre outras). Dar a conhecer o resultado dessas investigações e de intervenções sustentadas (locais, regionais ou nacionais) assume uma enorme relevância, através, por exemplo, de publicações diversificadas ou materiais audiovisuais produzidos.

Promover o conhecimento das realidades vividas pelas pessoas e famílias ciganas no contexto nacional é fundamental para se desvelar especificidades culturais e para se criar instrumentos para uma intervenção mais contextualizada e sustentada, capaz de reverter a situação de desvantagem social em que a população portuguesa cigana se encontra. Neste âmbito, as histórias de vida de jovens e adultos ciganos que possam ser considerados uma referência nos espaços territoriais onde atuam merecerão igualmente lugar no Obcig.

Convidamo-lo/a a partilhar os seus trabalhos, através do e-mail obcig@acm.gov.pt, para divulgação neste espaço, de modo a que os avanços teóricos e científicos, as experiências de intervenção e as respetivas conclusões alcançadas e recomendações propostas, possam contribuir para o desenvolvimento pessoal, profissional e/ou académico de todas as pessoas interessadas, bem como servir de estímulo para o desenvolvimento de novos estudos, a melhoria das práticas profissionais e a aproximação entre todas as cidadãs e cidadãos portugueses, independentemente da “ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”  (Artigo 13.º, alínea 2, da Constituição da República Portuguesa).

 

[English below]

The studies that have been developed in Portugal that concern Roma issues have increased substantially, particularly from the 90s onward. Several doctoral theses in the field of social sciences that were completed in the early 2000s are highlighted.

On the ObCig website we intend to publicise academic papers done by researchers and students that are dedicated to this area, both national and internationally.

At the same time, research initiatives and intervention actions across the country that involve the Roma communities have been undertaken by public and private entities (schools, associations, vocational training centers, non-governmental agencies, etc). Publicising the result of this research and sustained intervention (local, regional ou national) becomes incredibly relevant through, for example, diversified publications or audiovisual materials.

Promoting understanding of the realities experienced by the Roma people and families in the national context is fundamental to unveiling cultural specificities and the creation of tools for a more contextualized and sustained intervention, capable of undoing the social disadvantage suffered by the portuguese Roma population. In this context, the life histories of Roma adults and youth that can be construed as reference in their territories will also have a space in the ObCig.

We invite you to share your work, to be published in this space, through our email (obcig@acm.gov.pt), so that the scientific and theoretical advances, the intervention experiences and their respective conclusions, as well as the proposed recommendations, can contribute to the personal, professional and/or academic development of all interested parties. This work can also serve as a stimulus for the development of new studies, the improvement of professional practices, and the approximation of all Portuguese citizens, regardless of “ancestry, gender, ethnicity, language, place of birth, religion, political beliefs, ideology, income, social status or sexual orientation” (Article 13, number 2 of the Portuguese Constitution).

 

[Français ci-dessous]

Les études développées au Portugal qui problématisent les questions concernant la population tsigane a augmenté les derniers temps de façon significative, surtout à partir des années 90 lors du XXème siècle, dont plusieurs thèses de doctorat qui ont été conclues lors de la décennie de 2000, dans le domaine des sciences sociales.   

Nous souhaitons, dans le site de l´ObCig, divulguer les travaux académiques produits par les chercheurs et chercheuses qui se dédient à cette thématique, aussi bien au niveau national qu´international.

Simultanément, partout dans le territoire national, plusieurs initiatives de recherche et d´actions d´intervention dans lesquelles les communautés tsiganes y ont participés ont été organisées, aussi bien par des entités publiques que privées (des écoles, des associations, des centres de formation professionnelle, des organisations non-gouvernementales, entre autres). L´ObCig cherche à connaitre le résultat de ces recherches et de ces interventions de terrain durables (locales, régionales ou nationales). Ceci assume un poids significatif, à travers, par exemple, de publications diversifiées ou alors à travers des matériaux audiovisuels qui sont produits.

L´ObCig part de la conviction que le renforcement de la connaissance des réalités vécues par les personnes et familles tsiganes dans le contexte national est fondamental pour rendre visibles certaines spécificités culturelles et pour se créer des instruments pour une intervention plus remise en contexte et plus durable, capable de renverser la situation de désavantage sociale dans laquelle la population portugaise tsigane se retrouve. Dans cette perspective, les histoires de vie des jeunes et des adultes tsiganes qui sont considérés une référence dans les espaces territoriales où ils habitent et interviennent méritent également une place importante dans l´ObCig.  

Nous vous invitons à partager vos travaux, à travers de l´adresse e-mail obcig@acm.gov.pt, afin de faire sa divulgation dans cet espace, de façon à que les avancées théoriques et scientifiques, ainsi que les expériences d´intervention et les respectives conclusions, et encore certaines recommandations, puissent contribuer pour le développement personnel, professionnel et/ou académique de toutes les personnes intéressées. Ce travail pourra également servir de moteur aussi bien au développement de nouvelles études, qu´à l´amélioration des pratiques professionnelles et encore à la proximité entre toutes et tous citoyens portugais, indépendamment de « l´ascendance, le sexe, la race, la langue, le territoire d´origine, la religion, les convictions politiques ou idéologiques, l´instruction, la situation économique, les conditions sociales ou l´orientation sexuelle » (Article 13.º, numéro 2, de la Constitution de la République Portugaise).

 


Prémio ObCig Empresas Integradoras – 2019

08 апр 2019
Prémio ObCig Empresas Integradoras – 2019
 
No passado dia 8 de abril de 2019, no âmbito das comemorações do Dia Internacional das Pessoas Ciganas, o Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig), atribuiu o “Prémio OBCIG Empresas integradoras” à dst group, representada pelo director dos recursos humanos, Dr. Alfredo Cardoso, por esta empresa desempenhar um importante papel na integração laboral de pessoas ciganas. Através da institucionalização deste prémio, o ObCig pretende inspirar outras entidades empregadoras no desenvolvimento e implementação de políticas e práticas empresariais integradoras das pessoas ciganas, sendo a empresa agora premiada um exemplo de integração, empregando presentemente 7 pessoas ciganas.
Fundação Caloust Gulbenkian
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