Conferência Final: Relatório sobre Racismo Xenofobia e Discriminação Étnico-racial em Portugal

09 jul 2019
Conferência Final: Relatório sobre Racismo Xenofobia e Discriminação Étnico-racial em Portugal
Esta conferência terá lugar dia 9 de julho às 09h30 no Auditório António de Almeida Santos, na  Assembleia da República em Lisboa.
Consulte o programa e faça a sua inscrição até dia 8 de Julho no seguinte link: http://app.parlamento.pt/s?i=rrxdep 
Assembleia da República
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Intro Newsletter

A Newsletter do OBCIG pretende ser um meio de comunicação com a sociedade alargada, visando a divulgação e reflexão científicas e de desconstrução de estereótipos, a promoção do conhecimento de pessoas ciganas, estudantes ou a trabalhar nas mais variadas áreas de intervenção, de divulgação do trabalho desenvolvido e a desenvolver por associações ciganas, mediadores/as interculturais e outros atores e organizações da sociedade civil, bem como de informação sobre acontecimentos relevantes, nacionais e internacionais.
 
[English below]

The newsletter intends to become a means of communication with the broad society, aimed at the disclosure, scientific reflection, and the deconstruction of stereotypes. It intends to increase awareness of the Roma population, by students or people working in the several areas of intervention and dissemination of work that has been or is being developed by Roma associations and other actors and civil associations. It also aims at providing information about relevant events, both national and international.

 

[Français ci-dessous]

La Newsletter de l´ObCig souhaite être un moyen de communication avec la société élargie, visant à la fois la divulgation et la réflexion scientifiques et la déconstruction de stéréotypes, renforçant une meilleure connaissance des personnes tsiganes, des étudiants ou des personnes qui travaillent sur plusieurs domaines d´intervention, tels que le travail des associations tsiganes déjà réalisés ou en développement et d´autres acteurs et organisations de la société civile. Enfin nous cherchons à divulguer des informations sur des évènements importants, nationales et internationales. 

      

Newsletter 24 junho de 2019

 

Newsletter dezembro de 2018

 

Newsletter julho de 2018

 


Vozes Ciganas no Associativismo (Parte II), Entrevistas, Susana Silveira

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Vozes Ciganas no Associativismo (Parte II), Entrevistas
Susana Silveira
Entrevista realizada em junho de 2019, Almada
Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O seu interesse pessoal pela problemática?
Susana Silveira (SS): O interesse pelo associativismo foi mesmo para dar voz à comunidade cigana, porque hoje em dia, cada vez mais, nós temos que nos fazer ouvir, embora existam algumas outras associações que têm feito um bom trabalho até aqui e um bom caminho, porém ainda não são suficientes, então o interesse pelo associativismo é para que nos façamos ouvir da forma correta.
ObCig: A sua perspectiva sobre o mesmo?
SS: A minha perspetiva é que o associativismo cigano é muito importante, tem tido um papel fundamental na nossa cultura, porque cada vez mais vai-se mudando mentalidades tanto de pais, através do associativismo já vão valorizando mais a escola, já vão tendo noção que querem que os filhos possam e vão conseguir ser alguém, através das associações. Porque a associação cigana, muitas das vezes até faz um papel fundamental, que é um papel de mediador, porquê? Porque leva as famílias mais tradicionais, as mais fechadas a entender que existe mais do que a nossa cultura, que podemos manter a nossa cultura, sermos cidadãos e cidadãs bem formados, para podermos então integrar o mercado de trabalho e termos mais sucesso.  
ObCig: As possibilidades do seu desenvolvimento?
SS: Possibilidades vão desaparecendo bastantes, mas o que nos interessa a nós é mesmo realidades, porque possibilidades embora haja muitas, não passam de possibilidades, nós queremos realidades. Então, nós precisamos sim de apoios, mas apoios verídicos, precisamos de estar em locais onde sejamos aceites, mas não apenas para estar lá a representar, que façamos mesmo o nosso trabalho. E cada vez mais, vamos vendo e vamos podendo entender que vamos sendo levados a sério e o nosso papel é mesmo esse, ser levados a sério. E quando nos fazem convites, quer para política quer para aquilo que seja, que sejam convites levados a sério. Possibilidades são boas, mas realidades são melhores.
ObCig: Os caminhos que esse desenvolvimento pode e/ou deve tomar?
SS: Eu como faço parte do Concig, eu acho muito importante o que se tem estado a fazer até agora, os planos de estratégia local e, quero muito que esses planos sejam aplicados à séria e que sejam não só elaborados mas que sejam concretizados, porque esses planos são fundamentais quer para o associativismo, quer para a comunidade cigana geral, porque esses planos visam traçar vários lemas que existem, porque nós enquanto associação sem fins lucrativos, sem qualquer interesse egoísta, sem qualquer interesse próprio, o nosso objetivo é que seja feito o melhor para a comunidade cigana e eu acho mesmo que passa por isso, pelos planos de estratégia local. Sim porque a comunidade cigana não é apenas uma comunidade, mas existem várias comunidades ciganas, então se existem várias comunidades ciganas, logicamente existirão vários problemas e esses problemas têm então que ser resolvidos de forma individual. Não podemos juntar tudo e colocar tudo da mesma forma, querer resolver tudo, se um lado tem um problema, tem de se resolver, se noutro lado tem outro problema tem de se resolver, terá que se resolver de uma outra forma. E eu acho muito essencial as audições públicas à comunidade cigana, eu acho muito ideal os planos de estratégia local. Acho que faz muita falta o papel de mediador ser valorizado, porque até então não tem sido muito, e o interesse é mesmo nessa óptica.   
ObCig: O que pode ser feito para o melhorar
SS: Eu entendo que para melhorar, nós ainda somos muito recentes, daquilo que eu tenho visto é a nível local, quando nós dizemos que podemos contar com o apoio de uma determinada freguesia ou Câmara Municipal, que normalmente nos passam essas informações informalmente, mas que possamos realmente contar com elas. A nível das queixas que são feitas, nós temos muitas queixas a nível de racismo, que são formalizadas, mas que acabam por ficar em nada e isso é uma das coisas que nós temos mesmo que melhorar. Porque nós enquanto associação, chegam-nos muitas queixas e depois nós o que é que temos a dizer às pessoas, vamos tratar, vamos formalizar a queixa, porém as pessoas esperam resultado. Nós ensinamos sempre às pessoas que temos de agir dentro da lei, têm que esperar que se faça justiça. E depois na hora da verdade as pessoas perguntam resultados, e nós acabamos por dizer que acabou em nada. Então, acho mesmo, tenho mesmo a certeza, que um dos aspetos a melhorar seria mesmo esse, a nível das associações. Formar as associações para saber-se formalizar as queixas e que as queixas tenham realmente um segmento de justiça real.   
ObCig: Articulação entre: a) associativismo, b) humanização socio-cultural, c) políticas públicas; direitos humanos, construção de uma cidadania activa, crítica, emancipatória e humanista.
SS: Em primeiro lugar eu acho que o associativismo tem a ver com o humanismo, porque para formarmos uma associação, em primeiro lugar temos de ser humanos, a nossa associação é para integração da comunidade cigana, mas nós temos de ser humanos o suficiente para sabermos que todos somos iguais e todos somos diferentes, mas para que nos respeitemos mutuamente, para que haja respeito e penso que a base disso tudo é o respeito. Porque um associativismo onde não haja respeito e onde não haja respeito dos direitos humanos, então há algo que está mal, há algo que não funciona. Então, nessa circunstância, penso que isso sim, acho que está interligado.
Por exemplo, nós temos tido através da associação, temos feito vários eventos, inclusive agora vamos participar de um evento de uma feira intercultural. Ou seja, essa feira intercultural não é só para a comunidade cigana, é para o público em geral e eu tenho a certeza absoluta que vão aparecer lá pessoas que não gostam tanto dos ciganos, e para ter esse primeiro contacto e desmistificar-se muitas coisas menos boas […]. Tenho a certeza que ao se desmistificar essas coisas menos boas, esses contactos, que é ali uma atmosfera de festa. As pessoas, mesmo aquelas mais tímidas vão chegando a nós sem receio. É muito importante porque vai caindo o preconceito. Vai-se desconstruindo aquela ideia má que têm do cigano. Nós temos associações ciganas que juntam alimentos para quem mais precisa, isso é muito importante, porque nós principalmente quando se fala do cigano, fala-se sempre do mau e o bom nunca vem à tona. Nunca é tão divulgado quanto o mau. E o associativismo cigano tem sido isso mesmo, nós temos colaborado com muitas famílias, temos quebrado muitos tabus, estamos aptos para nos darmos a conhecer à sociedade maioritária, mas também desejamos que a sociedade maioritária nos aceite tal como somos. Termos que nos descaracterizar e deixar de ser quem somos para sermos aceites. Porque hoje em dia, em pleno século XXI não há ninguém que queira se descaracterizar daquilo que é para ser aceite. E nós também não queremos deixar de ser ciganos, porque ser cigano é ter orgulho na família, é cuidar dos mais novos, é respeitar os mais velhos, é termos uma linguagem própria, é fazermos festas espectaculares. Ser cigano é o bom. O que tem de mau, que possa existir, que às vezes a sociedade possa pensar que há de mau, podem às vezes ser alguns costumes maus, e esses nós vamos retirando. Ser cigano é uma coisa positiva, e não tem de ser encarado negativa de forma alguma.
ObCig: Quer acrescentar algo? Quer descrever a sua associação?
SS: A minha associação é para a integração das comunidades ciganas, visa promover o emprego, visa promover a educação, a igualdade de género, entre outras coisas, nós temos vários projetos em mente, temos feito ações de sensibilização em escolas, em Atl´s, e temos tido uma boa receção, e temos tido notas muito positivas, sinceramente algumas têm-me surpreendido pela positiva.

Vozes Ciganas no Associativismo (Parte I), Entrevistas, Bruno Gonçalves

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Vozes Ciganas no Associativismo (Parte I), Entrevistas
BRUNO GONÇALVES
Entrevista realizada em maio de 2019, Figueira da Foz
Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O seu interesse pessoal pela problemática?
Bruno Gonçalves (BG): O meu interesse pelo associativismo no geral e depois no cigano nasce em 97, portanto eu vivia num bairro social, numa zona deprimida da cidade de Coimbra e portanto começamos com a questão do desporto onde surgiu um primeiro projeto-piloto, que era o futebol clube cigano de Coimbra. Mas nós sentimos que queríamos muito mais porque vivíamos numa zona deprimida onde tínhamos grandes problemas de absentismo escolar e víamos sobretudo muitas crianças ciganas a vaguear pelo bairro e sentimos necessidade em os ajudar, porque já que vivíamos tão, entre aspas, marginalizados, era importante nós também darmos uma resposta e mostrarmos o quanto eramos capazes e a partir daí surge a Associação Cigana de Coimbra que nasceu em 99 e que hoje é uma IPSS e que tem vindo a fazer um trabalho sobretudo na prioridade que é a educação.
ObCig: A sua perspectiva sobre o mesmo?
BG: O associativismo cigano, tal como o associativismo geral que nasce das cinzas, sobretudo o geral, a partir de 75, e nós sabemos que é fraco. E o associativismo cigano, embora tenha dado nos últimos 5/6 anos alguns passos, contínua a ser, portanto, fraco. Isto depende um pouco da capacidade técnica de cada associação. Felizmente temos associações ciganas, duas ou três, com capacidade técnica, porque alguns dos seus membros se instruíram, se formaram e certamente serão eles que no fundo podem ser o grande trampolim para projetar. Porque isso é uma grande dificuldade das comunidades ciganas. Têm uma enorme dificuldade em projetar e se formos competir com outras associações a algumas candidaturas que sejam abertas, certamente que nós somos no fundo os outsiders devido à incapacidade técnica. São duas ou três com alguma capacidade técnica, infelizmente as outras associações estão numa fase de crescimento, mas necessitam cada vez mais de formação.
ObCig: As possibilidades do seu desenvolvimento?
BG: As possibilidades do desenvolvimento do associativismo cigano, penso que, acho que estamos no bom caminho, apesar de estarmos a dar os primeiros passos, mas acredito que necessitamos mais de formação, há que também no fundo trazer uma nova mentalidade do associativismo às antigas associações, também formar a própria comunidade cigana do que é o associativismo, porque muitas vezes têm ideias erradas do que é o associativismo. Muitas vezes já dei com pessoas ciganas a pensar que a direcção é o órgão mais poderoso de uma associação e nós sabemos que não é assim, é a Assembleia Geral. Mas também acima de tudo é importante criar espaços de interação, espaços de informação e mesmo de formação para os dirigentes associativos ciganos. Eu penso que ainda há muito por fazer, embora estejamos a dar os primeiros passos.
ObCig: Os caminhos que esse desenvolvimento pode e/ou deve tomar?
BG: Eu penso que o caminho que deve tomar é mais formação sobretudo aos dirigentes associativos. Eu acho que a comunidade cigana terá que no fundo partir para essa, porque é um novo desafio, mas eu penso que através das associações possamos conseguir organizar muito mais a comunidade de forma a conseguir portanto alcançar alguns objetivos que é a aproximação às comunidades, à sociedade maioritária. Eu acho que isso será essencial, mas a formação é essencial, a formação e a instrução escolar, eu acho que essas são as principais plataformas que devemos atingir para que possamos desenvolver melhor o associativismo, sobretudo com as comunidades ciganas.
ObCig: O que pode ser feito para o melhorar?
BG: Para melhor eu penso que é lançarmo-nos na questão da instrução escolar, criar e possibilitar que haja acções de formação na área do associativismo. No fundo também trocas de experiências com outras associações, podem ser nacionais, mas também internacionais e sobretudo ciganas, sobretudo de Espanha, estão tão perto e que têm também no fundo uma grande experiência a nível do associativismo. Sobretudo isso, mas também continuar com alguns tubos de ensaio como têm sido os PAC´S e os FAP´s do ACM, acho que têm sido excelentes tubos de ensaio para que nos possamos organizar e melhorar a capacidade na área do associativismo. 
ObCig: Articulação entre: a) associativismo, b) humanização socio-cultural, c) políticas públicas; direitos humanos, construção de uma cidadania activa, crítica, emancipatória e humanista.
BG: São várias palavras, cada uma delas muitas vezes estão unidas, há uma articulação entre uma delas, entre várias, as várias que aí estão como foste dizendo, mas acima de tudo trabalho, muito esforço para conseguirmos esses objetivos. Acho que sem isso nós não vamos conseguir. E muito sacrifício, capacidade de resiliência acima de tudo, sem isso não vamos conseguir atingir algumas metas que todas essas palavras, portanto trazem. Associativismo uma porta aberta para o impacto de políticas; Humanização socio-cultural, portanto eu também creio que é uma oportunidade de desmistificar imagens e preconceitos; políticas públicas deveriam ser mais e melhores para a comunidade cigana, penso que se tem vindo a fazer alguma coisa, mas acreditamos que mais e mais poderiam ajudar, poderiam ajudar nesta fase dos primeiros passos que estamos a dar; os direitos humanos são essenciais, sem eles certamente não conseguimos construir a harmonia na sociedade que cada vez mais é diversa; Portanto essa construção faz-se através de várias plataformas desde as políticas públicas, o associativismo, mas também se faz pela predisposição das pessoas para construírem um mundo melhor; portanto a construção de uma cidadania activa, humanista, emancipatória depende muito, no fundo, também das políticas que se fazem, mas acima de tudo, também da predisposição das pessoas para construir um mundo melhor, uma sociedade melhor.

Vozes Ciganas no Associativismo (Parte I), Entrevistas, Sónia Matos

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Vozes Ciganas no Associativismo (Parte I), Entrevistas

Sónia Matos
Entrevista realizada em junho de 2019, Seixal

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O seu interesse pessoal pela problemática?

Sónia Matos (SM): O interesse entrou na minha vida por um acaso, porque eu não tinha qualquer tipo de conhecimento para o que é que servia uma associação ou o que é que se podia fazer numa associação. Nós tomámos conhecimento, quando digo nós, são as cinco fundadoras da associação AMUCIP que se conheceram num curso de mediadoras socioculturais e foi um formador que viu essa potencialidade em nós. Tínhamos capacidade para nos juntarmos e formarmos uma associação. E ele disse-nos é que uma não consegue ter voz e as cinco se se juntarem numa associação de mulheres conseguem ter mais força e lutar pelos vossos direitos, quando ainda nós nem sabíamos o que era direitos, o que era o mundo do trabalho. Estávamos a dar os primeiros passos na sociedade e portanto o nosso percurso tinha sido igual ao de tantas outras meninas ciganas em que estudámos e depois fomos retiradas da escola no quarto ano. Só mais tarde devido ao RSI é que comecei o meu percurso, voltei à escola, e depois a minha assistente social encaminhou-me para este curso que estava a dar início de mediadores socioculturais. E pronto, foi assim que o associativismo entrou na minha vida.    

ObCig: A sua perspectiva sobre o mesmo?

SM: O associativismo penso que foi a primeira medida, a seguir ao RSI, depois começou a integração da comunidade cigana em várias vertentes, a escolaridade, em acções de formação, em cursos de mediação, e a verdade é que esses mediadores que foram formados todos eles criaram ou desenvolveram um percurso de associativismo, porque foi por aí que nós conseguimos criar voz e começar a dar a conhecer à sociedade maioritária o que era a comunidade cigana, portanto os primeiros dez anos da associação foi principalmente formar a sociedade maioritária na cultura cigana, da comunidade cigana, dar a conhecer os nossos valores, quem somos, como vivemos, porque temos esta atitude, porque andamos desta forma, porque reagimos desta maneira. Porque no fundo os estudos é sempre assim que nos veem, como alguém que é completamente diferente e que é importante estudar, como é que eles comem, como é que se vestem, como é que eles andam, e portanto durante quinze anos o nosso governo andou a estudar a comunidade cigana. E os estudos e os livros estão todos aí, mas depois estes estudos e estes livros nunca foram buscar a verdadeira história da cultura cigana, porque nós fazemos parte deste país, desta história. Onde é que nós ficámos, porque é que nós não fazemos parte do currículo escolar na história portuguesa, porque nós estávamos presentes. Portanto a associação a mim e às mulheres ciganas deu-nos o poder e o conhecimento de podermos sonhar com uma vida melhor. Mas eu acho que as associações ainda têm um longo percurso pela frente, porque as associações, esta massa associativa que nasceu tem cerca de 15, 16 anos e poucas foram as associações que conseguiram vingar porque é muito complicado associações de comunidade cigana conseguirem manter-se. Agora tem o ACM que é a única entidade que ainda financia um bocadinho as associações ciganas, mas a verdade é que nós estamos ainda a dar pequenos passos porque já provámos que conseguimos fazer um excelente trabalho. E a sociedade maioritária já chegou à conclusão que para trabalhar com a comunidade cigana tem de trabalhar Com os ciganos, não é Para os ciganos. E portanto acho que as associações foram e são aquilo que está a fazer a mudança dentro da comunidade cigana.

ObCig: As possibilidades do seu desenvolvimento?

SM: Dentro da comunidade cigana neste tempo o que eu acho é que as associações tiveram a crescer e a empoderar-se elas próprias, porque elas próprias não sabiam muito bem como desenvolver o seu trabalho, eu falo pela minha associação, mas agora como já temos encontros de associações no ACM, deparo-me que todos temos as mesmas dificuldades e que ainda precisamos de muito apoio por parte do governo para continuarmos a crescer também, porque precisamos desse apoio enquanto associação que está a dar os primeiros passos, mas acho que nós para podermos alcançar a credibilidade que as outras associações e instituições já têm, ainda nos falta um longo caminho, porque a própria comunidade cigana o conceito associação ainda não está desenvolvido dentro de si. Neste momento, as mulheres com quem eu trabalho são cerca de 60, já é um número que nos dá para ter uma pequena visão, elas encaram a associação como um espaço em que estão lá mulheres ciganas e que podemos ter formação. Um espaço que é delas, que podem falar da forma que estão e onde não têm qualquer tipo de receio. Mas o conteúdo ou para que serve uma associação é muito de trabalho de colaboração de grupo. E eu acho que a comunidade cigana ainda lhe falta trabalhar essa parte. De colaboração em trabalho em prol da comunidade, porque não temos aquela… ainda não consigo chegar lá, mas acho que nos falta uma raiz que nós pudéssemos pegar todos e dirigirmo-nos todos naquele sentido. Porque agora o que eu sinto, é que as associações, cada uma está a trabalhar por si e a comunidade cigana começa a ver estes movimentos e começa a perceber estas acções. E portanto estamos numa fase de empoderamento, que as mulheres começam a perceber, nós se tivermos juntas, conseguimos ter mais voz e conseguimos continuar. Mas as minhas mulheres, já não conseguem conceber a ideia que os projetos terminam em tempo. E as minhas mulheres, as que tinha aqui há dez minutos, o projeto vai durar até 31 de Julho, e elas já me estavam a dizer como é que é, isto não pode acabar. Elas não pensam que isto tem de ter um financiamento para dar continuidade. Isto é necessário fundo para dar continuidade. Portanto há um trabalho muito muito grande a ser feito dentro da comunidade cigana para valorizar ou para que elas tomem consciência do que é realmente o associativismo e para que ele serve.  

ObCig: Os caminhos que esse desenvolvimento pode e/ou deve tomar?

SM: Em primeiro lugar acho que tinham de ser do governo, governamentais, medidas que pudessem dar mais apoio, financiamentos para que estas associações pudessem sustentabilizar o seu trabalho para que fosse uma coisa mais contínua, porque neste momento eu tenho 5 anos, vai para o 5º ano de projeto PAC, mas são projetos muito pequeninos, projetos de um ano que eu preferi manter o mesmo grupo para dar continuidade a um trabalho destas mulheres e no dia 6 elas vão fazer uma mostra ali nas oficinas Cargaleiro com os trabalhos que elas desenvolveram, patchwork, pintura, fotografia e é bom que nós também possamos mostrar esse outro lado, que as mulheres não sabem só costurar e cozinhar na comunidade cigana, temos que abrir os horizontes e abrir as portas porque todos os ciganos não podem ser ativistas e associativistas e mediadores. Temos que abrir portas de trabalho em outras instituições para que a comunidade cigana se comece realmente a integrar e conseguir-se sentir integrada também.

ObCig: O que pode ser feito para o melhorar

SM: Neste momento estamos… eu penso que é um caminho que me parece correto, estamos a desenvolver um trabalho de mais proximidade dentro do ACM com uma presença já muito notória das associações ciganas, mas gostaríamos muito, nós associações, de termos uma identidade externa ao governo, que fosse independente, para termos mais autonomia, porque por muito que nós possamos dizer ou opinar, o que prevalece é a vontade do ACM e do ObCig, nós podemos estar lá a batalhar, a partilhar ideias, mas ainda não temos independência real, precisávamos de uma entidade independente ao governo que defendesse realmente a comunidade cigana, os seus direitos e os seus deveres.

ObCig: Articulação entre: a) associativismo, b) humanização socio-cultural, c) políticas públicas; direitos humanos, construção de uma cidadania activa, crítica, emancipatória e humanista.

SM: Sim, ser associativista é isso tudo e isso está tudo ligado e pelo aquilo que eu entendo todo o percurso e todo o trabalho que a associação faz é no sentido de empoderar estas mulheres, de se conhecerem a si próprias e de fazer o seu percurso, a AMUCIP ajuda a criar essa auto-estima, esse conhecimento e depois o objectivo principal é ajudá-las a elas caminharem e a chegar juntas às instituições. Portanto, o ano passado consegui criar um grupo de alfabetização na Escola Secundária da Amora, parceria desenvolvida pelo centro qualifica, estas mulheres terminaram este projeto que é de competências básicas, terminaram este ano e já se inscreveram este ano para fazer a EB1. Portanto, elas agora já estão sozinhas, já estão nas escolas e já fizeram o seu percurso, assim como as mulheres que estou a acompanhar, encaminhei para outra instituição que é as oficinas Cargaleiro, que é as Artes, e portanto está outra instituição a trabalhar com estas mulheres. Porque o objetivo é empoderá-las e depois elas seguirem às instituições e é dessa forma que o associativismo depois cria a cidadania e o saber estar e o saber viver. Acaba tudo por estar tudo ligado no trabalho que desenvolvemos no dia-a-dia e na vida destas mulheres. Porque há um trabalho muito grande a ser feito antes disto tudo ser concretizado, nós tivemos um ano com essas mulheres em que foram preparadas aqui na AMUCIP, o saber estar, o saber estar sentada umas horas, o habituar a família a que elas tivessem aquelas horas fora de casa, quando digo família digo maridos, filhos. E isso é todo um trabalho que se tem de fazer antes e agora ela já conseguem ir sozinhas para a escola e desenvolver o seu percurso. Mas primeiro tem que haver um processo realizado por uma associação, porque são outras mulheres que falam como elas e que passaram pelo mesmo que elas, e que se hoje estão aqui, eu também posso ambicionar uma coisa melhor para mim. Acho que é muito nesse sentido.

Nós por exemplo criámos um kit pedagógico que está a ser aplicado nas escolas e está preparado para ser aplicado do jardim-de-infância ao 4º ano e o Ministério da Educação validou esse kit pedagógico, portanto isso poderia e é uma influência, porque ao estar na página do Ministério da Educação e a ser validado e reconhecido que é uma boa prática e também ter sido aprovado agora no guião, foi elaborado pelo Ministério da Educação e estar lá como uma referência, isso é influenciar também o resto da sociedade e portanto é pegar em algo que uma associação criou e fez para ser aplicado como uma política pública para todas as crianças. Também temos o exemplo das Letras Nómadas que trouxe um projecto a nível europeu, com fundos europeus, que financiou as bolsas dos estudantes OPRÉ Chevalé e que depois o nosso governo aderiu e colheu essa medida como medida de política pública. Isso é uma demonstração que as associações da comunidade cigana estão a desenvolver um trabalho muito credível, um trabalho que tem cerca de quinze anos, não tem mais, e que nestes quinze anos conseguiu fazer muito mais que a sociedade maioritária fez em trinta anos de estudos.


Vozes Ciganas no Associativismo (Parte II), Entrevistas, Luís Romão

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Vozes Ciganas no Associativismo (Parte II), Entrevistas

Luís Romão
Entrevista realizada em maio de 2019, Elvas

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O seu interesse pessoal pela problemática?

Luís Romão (LR): O meu interesse pessoal pelo associativismo cigano surge de há algum tempo para cá, surge quando eu comecei a trabalhar nesta área das comunidades ciganas, quando fui introduzido numa escola e comecei a trabalhar mais directamente com as comunidades. Mas é em 2014, 2013/2014 que surge a necessidade de nos formalizarmos mesmo enquanto associação, porquê? Porque no âmbito do ROMED 2 surgem os primeiros grupos ativos em Portugal e Elvas foi uma cidade escolhida. E nós formalizámos um grupo ativo e esse grupo ativo sentiu a necessidade de se formalizar enquanto associação porque precisávamos de credibilidade em relação às instituições públicas. Ou seja, nós eramos um grupo de pessoas que já trabalhávamos para as comunidades ciganas, elaborávamos propostas, mas faltava-nos algo. E esse algo era mesmo formalizarmo-nos enquanto associação. É em 2014 que se forma a associação Sílaba Dinâmica que passado 4 anos tem feito um trabalho notável em Elvas e que tem despertado o interesse de várias entidades a nível nacional. E dizer também que foi com a criação desta associação que se conheceram vários talentos em Elvas e vários ativistas em Elvas e vários membros da comunidade cigana que têm vindo a ajudar também na problemática que é das comunidades ciganas.

ObCig: A sua perspectiva sobre o mesmo?

LR: A minha perspetiva sobre o associativismo cigano é pessoal, mesmo muito pessoal, eu acho que ainda somos muito pequeninos em relação a outro tipo de associações. Também porque começámos há bem pouco tempo. O grande número de associações que se tem vindo a se formalizar têm muito pouco tempo de duração, têm muito pouco tempo de vida. Falta-nos muita experiência, falta-nos um pouco de apoio principalmente por parte da nossa comunidade, porque às vezes a comunidade cigana confunde um pouco o que é uma associação e o que é uma empresa. Uma associação, quase todas elas, são sem fins lucrativos. Uma associação tem órgãos de gestão. E a comunidade cigana às vezes confunde um pouco isso, nós às vezes somos crucificados pela parte da comunidade cigana e crucificados também pela parte da sociedade maioritária. É um pau de dois bicos. Nós estamos aqui no meio e às vezes levamos porrada de um lado e do outro. Agora em relação ao crescimento que nós podemos vir a ter, eu penso que tem pernas para andar. Cada vez mais jovens estão interessados no associativismo cigano e isso é importante, são pessoas com outra mentalidade, pessoas com ideias novas. São essas pessoas que podem, ao fim ao cabo, levar este associativismo da comunidade cigana para a frente.

ObCig: As possibilidades do seu desenvolvimento?

LR: As possibilidades para o desenvolvimento do associativismo em Portugal neste momento são muitas. Cada dia nós conhecemos pessoas que têm vontade de criar associações, principalmente associações ciganas. São jovens, a maior parte deles são jovens, nós incentivamo-los muito a que criem associações. O problema está, nós aí temos muito pouco conhecimento do que é o associativismo. Falta-nos muita base, porque ao fim ao cabo, a comunidade cigana, agora é que está a despertar agora também para o estudo. Agora é que temos muita comunidade cigana a formar-se no ensino superior e faz-nos falta pessoas técnicas, pessoas com conhecimento em relação ao que é uma associação, como é que se gere uma associação. Mas eu acredito que esta nova geração de jovens ciganos que vai dar muita força, muita força às comunidades ciganas em Portugal, ou seja, são eles que vão ser o nosso futuro.

ObCig: Os caminhos que esse desenvolvimento pode e/ou deve tomar?

LR: O caminho das comunidades ciganas em relação às associações, eu tenho feito ultimamente na associação Sílaba Dinâmica e acho que para mim é um dos temas mais importantes que nós temos é Educação. A associação Sílaba Dinâmica em 2017 voltou-se muito para a área da educação, trabalhar com crianças, e porquê trabalhar com crianças? Porque ao fim ao cabo as crianças são o nosso futuro. Nunca esquecer a população sénior, porque são realmente pilares na nossa comunidade, mas focando-se cada vez mais na educação. Porque é a educação que nos pode dar uma grande transformação, não na cultura mas sim no aspeto do conhecimento em relação às associações ciganas. O crescimento faz-se nas crianças, o crescimento faz-se na educação e é aí que na minha opinião se deve virar mais e se deve focar mais as associações ciganas. 

ObCig: O que pode ser feito para o melhorar?

LR: O que nós podemos fazer para melhorar, eu há pouco disse e volto a repetir, é que as associações ciganas têm que capacitar mais os seus membros. As associações ciganas têm que dar mais conhecimento do seu trabalho à população, principalmente à população cigana, porque ao fim ao cabo, a população cigana não sabe o que a associação trabalha. As associações ciganas têm que também ter nos seus órgãos sociais técnicos, porquê técnicos? Porque nós muitas das vezes quando concorremos a concursos públicos nós perdemos, porque nos falta um pouco de conteúdos, são esses técnicos que às vezes nos dão aquela pontinha que nos falta, para poder concorrer ao mesmo nível que as associações de magnitudes superiores. E focarmo-nos principalmente nisso nos órgãos de gestão, serem um pouco interculturais também, para que possamos ver, para termos várias vertentes nas nossas associações. [São interculturais?]  A minha é, aliás nós podemos formar uma associação cigana, as associações têm de ser interculturais. A minha associação tem 9 membros, não 12, acho que é 9, e 4 ou 5 são não ciganos. 4 ou 5. Faz falta, porque é assim, muita das vezes nós queremos uma associação, a gente nem sabe onde nos estamos a meter, nós queremos uma associação com fundamento, mas depois surgem mil ideias e depois de surgirem essas ideias, falta-nos o conhecimento, transformar as ideias na teoria. Nós conseguimos meter a teoria na prática, agora, prática… as ideias surgem e nós transformamos essas ideias na teoria nós não conseguimos. Por exemplo, vou-lhe dar um exemplo, o plano de atividades, fazer um plano de atividades, que para um técnico superior se calhar é uma coisa não tão difícil de fazer, mas para a comunidade cigana torna-se um bocadinho difícil, porque nós não estamos habituados a criar um plano de atividades, porque se quiseres ter um orçamento anual por exemplo, principalmente vindo de um município, nós temos de ter um plano anual, nós temos de ter um plano de estratégia, nós temos de ter um plano de atividades e ás vezes este plano de atividades, nós não sabemos fazer, e eu foi assim que o aprendi, foi com um técnico que me ajudou a fazer, por isso, se o técnico tiver nos órgãos sociais da associação torna-se muito mais fácil. Porque também é do interesse dele que esse plano de atividade tenha um fundamento e um plano com pernas para andar. Só assim as associações, na minha opinião, principalmente as associações novatas que têm pouca experiência na actualidade, só assim vão conseguir projetos. Porque uma associação sem fundos não consegue praticamente fazer nada. Porque hoje em dia tudo o que se consegue fazer tem de ser pago. Nós não conseguimos contratar ninguém sem pagar porque as pessoas fazem um trabalho voluntário não fazem dois, e ao fim ao cabo, se uma associação quer continuar a trabalhar tem de ter trabalho anualmente e tem que conseguir verbas para poder pagar a técnicos, professores e a todas as pessoas que, ao fim ao cabo, trabalham com a associação.

ObCig: Articulação entre: a) associativismo, b) humanização socio-cultural, c) políticas públicas; direitos humanos, construção de uma cidadania activa, crítica, emancipatória e humanista.

LR: Desde 2014 que nós criámos a associação Silaba Dinâmica a comunidade cigana em Elvas tem sido muito mais ativa, ou seja, tem sido muito mais participativa. Já participámos em vários eventos, juntamente com outras associações. Por exemplo, há bem pouco tempo tivemos uma acção de limpeza de um espaço verde. A associação Sílaba Dinâmica com alguns membros da comunidade cigana participámos, coisa que antigamente não conseguíamos fazer. Nós criámos um festival intercultural em Elvas, já tivemos mesmo até dois, onde participaram várias culturas em Elvas, a cultura africana, a cultura cigana, a sociedade maioritária. Interagimos entre as pessoas e só assim com essa interacção é que nós conseguimos que a comunidade cigana seja tão participativa. Quando foram as últimas legislativas… as últimas autárquicas, a comunidade cigana votou em massa, isso é participação. E a comunidade cigana ultimamente depois da criação desta associação ou porque damos a conhecer o que é a participação também, incentivamos a comunidade cigana também à participação e depois isto tudo é um jogo, sem querer vamos entrando e vamos participando.

Em relação ao associativismo e às políticas públicas, eu penso que a nível nacional se tem feito um trabalho bom com as associações e porquê? Porque deram oportunidade às associações ciganas concorrer a fundos para que, ao fim ao cabo, tenham a possibilidade de por em prática alguns dos seus projetos, por isso estamos a falar em políticas públicas. Logicamente que algumas políticas que não encaixam muito bem no associativismo, mas da experiência que eu tenho eu penso que as políticas públicas têm-nos vindo a beneficiar em relação ao associativismo cigano.

O associativismo tem sido cada vez mais importante na decisão das políticas públicas também porque às vezes surgem ideias nas associações que são transformadas em políticas públicas. Por exemplo, na associação Letras Nómadas surgiu uma ideia que foi o OPRE Chavalé que foi colocar jovens da comunidade cigana no ensino superior e começou com um apoio do Conselho da Europa que hoje transformou-se numa política pública, ou seja, hoje o programa OPRE chavalé faz parte de uma política de governo e foi através de uma associação cigana que se criou essa ideia que hoje em dia é uma política pública, ou seja, de uma política do governo.

ObCig: Queres acrescentar algo à entrevista?  

LR: Quero acrescentar uma crítica aos ciganos… principalmente as dificuldades que nós temos de dirigir uma associação, é muito complicado, é muito complicado porque e há pouco eu frisei isso, que é nós às vezes somos acusados de coisas… ou seja, nós para a comunidade cigana somos vistos como alguém que ajuda a sociedade maioritária e para a sociedade maioritária somos vistos como alguém que só está do lado da comunidade cigana e, não é bem assim. A comunidade cigana tem alguma dificuldade em perceber o que é uma associação e há pouco disse e volto a repetir, a comunidade cigana pensa que a associação é uma empresa, que gera lucros e que os lucros são para fins próprios dos membros da associação. E coisa que isso é impossível de se fazer. Torna-se muito difícil e desmotivante nós continuarmos a fazer um trabalho quando levas pedradas de todo o lado, é o mais complicado que eu vi desde que eu trabalho com a associação. É muito complicado nós estarmos a desenvolver um trabalho, ser boicotado às vezes pela própria comunidade, porque pensam que a associação, ao fim ao cabo, está a lucrar com tudo isto e a lucrar financeiramente. Quando, ao fim ao cabo, na associação o único lucro é o bem-estar das crianças principalmente com quem nós trabalhamos ultimamente e o bem-estar da comunidade cigana. Mas é continuar a lutar e esperar que melhores dias venham. 


Boas-vindas / Welcome / Bienvenue

O Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig) pretende contribuir para a concretização de algumas das medidas previstas na Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, designadamente para o reconhecimento social das pessoas, famílias e/ou comunidades ciganas e, consequentemente, para a desconstrução de estereótipos que perpetuam discursos e práticas discriminatórios.

O ObCig colabora com centros de investigação, disponibiliza estudos, financia e publica investigação científica e promove debates, encontros e outras iniciativas de interesse para a sociedade em geral, visando a melhoria das perceções e da qualidade de vida da população cigana.

Neste sentido, a coordenação do Observatório das Comunidades Ciganas pretende o desenvolvimento de um trabalho conjunto que possibilite a construção de um caminho cujos limites sejam a plena humanização das sociedades, lutando contra todas as formas de desigualdade e de discriminação sociais que minam a democracia e tornam frágeis as relações humanas; pugnar por uma sociedade sem ódio ou hierarquias sociais e culturais; por uma sociedade convergente na divergência de opiniões, gostos, normas e diferenças; por uma sociedade onde todos nasçam “livres e iguais em dignidade e em direitos” e no exercício desses direitos; por uma sociedade onde a utopia, enquanto lugar em construção, corporize a luta e a resistência político-cívica de todos/as e cada um/a pelo direito a ter voz como a capacidade de ser escutado em todas as esferas do social; pelo exercício quotidiano de resistência à frustração quando a realidade contraria a vontade de mudança social no sentido da igualdade de estatutos; pelo direito ao exercício de uma cidadania ativa, crítica, emancipatória e humanista; pelo direito a SER HUMANO NO EXERCÍCIO DESSA HUMANIDADE.

É fundamental a convergência de vontades de todas/os, num trabalho conjunto que pretende servir o bem-estar da humanidade em cada sociedade.

 

[English below]

The aim of the Observatory of Roma Comunities (ObCig) is to contribute to the fulfillment of some of the objectives of the National Strategy for the Integration of Roma Comunities, such as social awareness of the Roma people, families and/or comunities and, consequently, to the deconstruction of stereotypes that perpetuate discriminatory discourses and practices.

The ObCig works with research centres, publicises studies and finances and publishes scientific research. It also promotes debates, meetings and other initiatives for the general public, seeking to improve the perceptions and the quality of life of the Roma population.

With this in mind, the coordenation of the Observatory of Roma Communities seeks to join efforts in the creation of a path whose boundaries are the humanization of societies, fighting against all forms of inequality and social discrimination that undermine democracy and weaken human relationships. The fight for a hateless society, free of social and cultural hierarchies; for a society united in the diference of opinions, interests, norms and diferences; for a society where all are born “free and equal in dignity and rights” and the exercise of those rights; for a society where the utopia, as a place in construction, embodies the struggle and the civil-political resistance of each and all for the right to have a voice and be heard. For the day-to-day resistance to the frustation that comes when reality contradicts social change of status; for the right to exercise an active, critical, emancipatory and humanistic citizenship; for the right to be HUMAN IN THE EXERCISE OF THAT HUMANITY.

The convergence of the wishes of all in order to serve humanities’ welfare in each society is paramount.

 

[Français ci-dessous]

L´Observatoire des Communautés Tsiganes (ObCig) souhaite contribuer à la concrétisation de certaines mesures prévues par la Stratégie Nationale pour l´Intégration des Communautés Tsiganes (ENICC), notamment pour la reconnaissance sociale des personnes et/ou communautés tsiganes et, conséquemment, pour la déconstruction de stéréotypes qui perpétuent des discours et des pratiques discriminatoires.      

L´ObCig collabore avec des centres de recherche, il rend accessible des études, subventionne et publie des recherches scientifiques, organise aussi bien des débats que des rencontres et d´autres évènements d´intérêt pour la société en général, cherchant par-là à améliorer les perceptions et la qualité de vie de la population tsigane.

Dans ce sens, la coordination de l´Observatoire des Communautés Tsiganes souhaite le développement d´un travail d´équipe qui puisse rendre possible la construction d´un chemin dans lequel les limites sont la pleine humanisation des sociétés, luttant contre toutes les formes d´inégalité et de discriminations sociales qui minent la démocratie et rendent fragiles les relations humaines. Elle souhaite lutter pour une société sans haine ou hiérarchies sociales et culturelles ; pour une société où il existe des convergences au sein des divergences d´opinion, des goûts, des normes et des différences ; pour une société où toutes les personnes puissent naître aussi bien «libres et égales en dignité et en droits» comme lors de l´exercice de ces même droits ; pour une société où l´utopie, en tant que lieu de construction, rend palpable la lutte et la résistance politico-civique de tous et toutes ainsi que chacun et chacune pour le droit à avoir une voix qui puisse être écoutée dans toutes les sphères du social ; pour l´exercice quotidien de la résistance à la frustration quand la réalité est contraire à la volonté de changement social dans le sens de l´égalité de statuts ; pour le droit à l´exercice d´une citoyenneté active, critique, émancipatoire et humaniste ; pour le droit à ÊTRE HUMAIN DANS L´EXERCICE DE CETTE HUMANITÉ.  

Il est fondamental la convergence des volontés des tous et toutes, dans un travail d´ensemble qui puisse servir le bien-être de l´humanité en chaque société.


Sobre o ObCig / About ObCig / A propos de l´ObCig

O Governo de Portugal, consciente da necessidade de promover a integração das comunidades ciganas, aprovou, em 2013, a Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC), Resolução do Conselho de Ministros n.º 25/2013 de 27 de Março.

A Estratégia surge, neste contexto, como uma plataforma para o desenvolvimento de uma intervenção alargada e articulada, onde os vários ministérios, municípios, organizações da sociedade civil, academia e comunidades ciganas, entre outros, contribuem ativamente para a concretização dos objetivos traçados.

Face à escassez de estudos e informação relativas às comunidades ciganas, por forma a definir um diagnóstico robusto, a avaliar as dinâmicas e os resultados decorrentes da Estratégia, mas também a produzir um conhecimento aprofundado da temática, a ENICC prevê, no seu Eixo Transversal, Prioridade 2, a criação do “Observatório das Comunidades Ciganas” para promover a realização e edição de estudos sobre as comunidades ciganas.

Assim, o Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig), contribui não só para a concretização de algumas das medidas previstas na Estratégia, mas também para a conceção, implementação e avaliação das políticas públicas neste domínio, apresentando-se como um motor de criação de redes de cooperação académicas, científicas e institucionais, bem como do diálogo entre a academia e os decisores políticos.

 
 

a) Auxiliar na conceção de políticas públicas para a população portuguesa cigana ou residente em Portugal.

 

b) Promover e realizar investigação em áreas estratégicas visando o conhecimento e a integração da população cigana numa perspetiva de igualdade.

 

c) Contribuir para a desconstrução de estereótipos, principalmente através da participação em conferências, seminários, workshops e ações de formação.

 

d) Promover um diálogo construtivo entre a academia e os decisores políticos com vista a potenciar a igualdade de oportunidades e os Direitos Humanos tendo como cerne a população cigana.

 

e) Dar continuidade à Coleção Olhares, publicando, em edição impressa, investigação científica já realizada (resultados de projetos de investigação, dissertações de mestrado ou teses de doutoramento), com particular interesse para o conhecimento das comunidades ciganas e a decisão política sustentada.

 

f) Sem prejuízo da criação de outras coleções, criar a Coleção Estudos OBCIG, em edição impressa, com o objetivo de promover a produção de investigação científica temática nas áreas da Estratégia ou afins.

 

g) Disponibilizar, nomeadamente no sítio do OBCIG, investigação realizada e não publicada, como dissertações de mestrado e teses de doutoramento.

 

h) Promover a edição de brochuras que contribuam para a desconstrução, cientificamente sustentada, de estereótipos.

 

i) Promover conferências nacionais e internacionais, nomeadamente nos vários eixos da Estratégia Nacional para a integração das comunidades ciganas (ENICC).

 

j) Estabelecer uma rede de parcerias com Centros de Investigação nacionais e internacionais.

 

k) Participar em projetos de investigação internacionais que visem aprofundar conhecimento existente ou produzir novo conhecimento sobre a população cigana numa perspetiva comparada.

 

l) Participar em redes académicas de promoção e divulgação científicas e de políticas sociais.

 

m) Criar uma rede internacional de parcerias com organizações não governamentais que trabalhem com população cigana e, globalmente, com problemáticas relativas a Direitos Humanos.

 

n) Criar uma Newsletter de caráter científico e informativo.

 

o) Participar em congressos, conferências e seminários nacionais e internacionais, divulgando a atividade científica do OBCIG e as políticas públicas para a integração da população cigana.

 

p) Participar em reuniões internacionais de relevância face aos objetivos do OBCIG e, globalmente, do ACM.

 

[English below]

About the ObCig

The Government of Portugal, aware of the need to promote the integration of Roma Communities, aproved in 2013 the National Strategy for the Integration of Roma Communities (ENICC in Portuguese), Cabinet Resolution nº25/2013, March 27.

The Strategy is, in this context, a platform for the development of a broad and articulate intervention, where the several ministries, municipal districts, civil society organisations, academy and Roma Communities, among others, actively contribute to the achievement of the set goals.

Due to the scarcity of research and information about the Roma Communities, in order to create a robust diagnosis, evaluate the dynamics and the results of the Strategy and achieve a deep knowledge of the matter, the ENICC predicts, in its Crosscutting Pillar, Priority 2, the creation of the “Observatory of the Roma Communities” to promote the realization and publication of studies on the Roma Communities.

Through this, the Observatory of Roma Communities contributes not only to the fulfillment of some of the measures intended within the Strategy, but also to the design, implementation and evaluation of the public policies in this domain. Thus it aims to become an engine for the creation of academic, scientific and institutional cooperation laws and regulations, as well as for the dialogue between the academy and the political decision makers.

 

The Observatory of Roma Communities (ObCig) has the following functions:

 

a) Help with the creation of public policies for the Roma population from or residing in Portugal.

b) Promote and do research in strategic areas with the knowledge and integration of the Roma population in mind, within an equality perspective.

c) Contribute to the deconstruction of stereotypes, mainly through participating in conferences, seminars, workshops and professional development courses.

d) Promote constructive dialogue between the academy and the political decision makers in order to increase equal opportunities and human rights with the Roma population at its core.

e) Continue with the “Olhares” (Looks) Collection, publishing completed scientific research (results of research projects, master or doctoral theses) in print edition, with a particular interest in the awareness of Roma communities and sustained political decision.

f) Create the ObCig Studies Collection in print edition, with no detriment to the creation of other collections, for the purpose of promoting the development of thematic scientific research in the Strategy’s areas (or similar).

g) Make completed and unpublished research available, such as master dissertations and doctoral theses, on the ObCig website.

h) Promote the layout of brochures that contribute to scientifically supported deconstruction of stereotypes. 

i) Promote national and international conferences, namely in the several areas of the National Strategy for the Integration of Roma Communities (ENICC).

j) Establish a network of partnerships with national and international Research Centres.

k) Participate in international research projects that seek to further existing awareness or produce new knowledge about the Roma community in a compared perspective.

l) Participate in academic scientific and social promotion and dissemination networks.

m) Create an international network of partnerships with non-governmental agencies that work with the Roma population and, on a global scale, with problems related to Human Rights.

n) Create a scientific and informative Newsletter.

o) Participate in national and international congresses, conferences and seminars, disseminating the scientific activity of the ObCig and public policies for the integration of the Roma population.

p) Participate in relevant international meetings regarding the objectives of the ObCig and the High Commissioner for Migrations.

 

[French ci-dessous]

A propos de l´ObCig

Le Gouvernement de Portugal, étant conscient de l´importance de promouvoir l´intégration des communautés tsiganes, a approuvé, en 2013, la Stratégie Nationale pour l´Intégration des Communautés Tsiganes (ENICC) lors de la Résolution du Conseil de Ministres nº25/2013 de 27 mars. 

Cette Stratégie surgit, dans ce contexte, comme une plateforme pour le développement d´une intervention élargie et articulée, où les différents ministères, les mairies, les organisations de la société civile, et aussi l´Académie et les communautés tsiganes, entre autres, peuvent contribuer activement à la concrétisation des objectives définis apriori.

Face à la pénurie des études et des informations concernant les communautés tsiganes, de façon à établir un diagnostic solide, à évaluer les dynamiques et les résultats que la Stratégie produit, mais également à produire une connaissance approfondie sur la thématique, l´ENNIC prévoit dans son Axe Transversale, priorité 2, la création de « l´Observatoire des Communautés Tsiganes » en vue de promouvoir la réalisation et l´édition des études sur les communautés tsiganes.

Ceci dit, l´Observatoire des Communautés Tsiganes (ObCig), contribue non pas seulement à la concrétisation de certaines mesures prévues dans l´ENICC, mais davantage à la conception, implémentation et évaluation des politiques publiques dans ce domaine, se présentant comme un moteur de création de réseaux de coopération académiques, scientifiques et institutionnelles, ainsi que de dialogue entre l´Académie et les décideurs politiques.

 

L´Observatoire des Communautés Tsiganes (ObCig) a comme mission :

 

a) Aider à la conception de politiques publiques destinées à la population portugaise tsigane ou qui habitent au Portugal.

b) Promouvoir et réaliser de la recherche en plusieurs domaines stratégiques, visant la connaissance et l´intégration de la population tsigane dans une perspective d´égalité.

c) Contribuer à la déconstruction de stéréotypes, principalement à travers de la participation dans des conférences, des séminaires, des workshops et des actions de formation.

 d) Promouvoir un dialogue constructive entre l´académie et les décideurs politiques afin de renforcer l´égalité d´opportunités et les Droits Humains ayant comme cible principalement la population tsigane.

 e) Donner continuité à la « Coleção Olhares », publiant, en édition papier, de la recherche scientifique déjà réalisée (dont des résultats de projets de recherche, des dissertations de master ou des thèses de doctorat), ayant un particulier intérêt pour la connaissance des communautés tsiganes et la décision politique durable.   

f) Sans que ce soit au détriment d´autres collections, créer la collection d´études ObCig, en édition papier, ayant pour l´objectif de promouvoir la production de recherche scientifique thématique dans les domaines de la Stratégie (ENICC) ou des sujets liés à cette dernière.   

g) Rendre accessible, notamment dans le site de l´ObCig, la recherche déjà réalisée et non publiée, tels que des dissertations de master et des thèses de doctorat.

h) Promouvoir l´édition de brochures qui puisse contribuer à la déconstruction, scientifiquement durable, de stéréotypes.  

i) Promouvoir des conférences nationales et internationales, notamment suivant les plusieurs axes de la Stratégie Nationale pour l´Intégration des Communautés Tsiganes (ENICC).

j) Etablir un réseau de partenariat avec des centres de recherche nationales et internationales.

k) Participer à des projets de recherche internationales qui visent approfondir la connaissance existante ou alors produire des nouvelles connaissances sur la population tsigane dans une perspective comparée.

I) Participer à des réseaux académiques de promotion et de divulgation scientifique et de politiques sociales.

m) Créer un réseau international de partenariat avec des organisations non gouvernementales qui travaillent avec la population tsigane et, globalement, avec des problématiques liés aux Droits Humains.

n) Créer une Newsletter de caractère scientifique et informatif.  

o) Participer aux congrès, aux conférences et aux séminaires nationales et internationales, divulguant l´activité scientifique de l´ObCig et les politiques publiques pour l´intégration de la population tsigane.

p) Participer dans des réunions internationales de relevance face aux objectifs de l´ObCig et, généralement, de l´ACM.


Página de entrada (Boas-vindas)

Bem-vindo/a,
 
O Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig) é uma unidade informal integrada no Alto Comissariado para as Migrações (ACM, I.P.).
Pretendemos contribuir para a concretização de algumas das medidas previstas na Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, para o reconhecimento social das pessoas, famílias e/ou comunidades ciganas e, consequentemente, para a desconstrução de mitos, representações e estereótipos desqualificantes.
Colaboramos com centros de investigação, disponibilizamos estudos e promovemos debates, encontros e outras iniciativas.
 
Contamos consigo e com a sua colaboração.
 
[English below]

The Observatory of Roma Communities (ObCig) is an informal unit integrated in the High Commissioner for Migration (ACM, I.P.).
 
We intend to contribute to the implementation of some of the measures of the National Strategy for the Integration of Roma Communities, for the social recognition of Roma people, families and /or communities, and consequently for the deconstruction of disqualifying myths, representations and stereotypes.


We collaborate with research centers, provide studies and promote debates, conferences, meetings and other initiatives.

 

[Français ci-dessous]

L´Observatoire des Communautés Tsiganes (ObCig) est une unité informelle qui est intégrée au sein de l´Haute Commissariat pour les Migrations (ACM, I.P.).

Nous souhaitons contribuer à la concrétisation de certaines mesures prévues dans la Stratégie Nationale pour l´Intégration des Communautés Tsiganes (ENICC), pour la reconnaissance sociale des personnes, des familles et/ou des communautés tsiganes, et conséquemment, pour la déconstruction de mythes, des représentations et des stéréotypes disqualifiants sur cette même population.      

Nous collaborons avec des centres de recherche, nous rendons accessibles des études et promouvons des débats, des rencontres et organisons d´autres évènements.

Nous comptons sur votre collaboration. 


Estudos e Publicações

Os estudos desenvolvidos em Portugal que problematizam as questões ciganas têm vindo a aumentar significativamente, sobretudo a partir dos anos 90 do Século XX, sobressaindo diversas teses de doutoramento que foram concluídas na década de 2000, na área das ciências sociais.

Pretende-se, no site do Obcig, divulgar os trabalhos académicos produzidos por investigadores/as e estudantes que se dedicam a esta temática, a nível nacional e internacional.

Paralelamente, em todo o território nacional, têm sido empreendidas iniciativas de investigação e ações de intervenção que envolvem as comunidades ciganas, por entidades públicas e privadas (escolas, associações, centros de formação profissional, organizações não-governamentais, entre outras). Dar a conhecer o resultado dessas investigações e de intervenções sustentadas (locais, regionais ou nacionais) assume uma enorme relevância, através, por exemplo, de publicações diversificadas ou materiais audiovisuais produzidos.

Promover o conhecimento das realidades vividas pelas pessoas e famílias ciganas no contexto nacional é fundamental para se desvelar especificidades culturais e para se criar instrumentos para uma intervenção mais contextualizada e sustentada, capaz de reverter a situação de desvantagem social em que a população portuguesa cigana se encontra. Neste âmbito, as histórias de vida de jovens e adultos ciganos que possam ser considerados uma referência nos espaços territoriais onde atuam merecerão igualmente lugar no Obcig.

Convidamo-lo/a a partilhar os seus trabalhos, através do e-mail obcig@acm.gov.pt, para divulgação neste espaço, de modo a que os avanços teóricos e científicos, as experiências de intervenção e as respetivas conclusões alcançadas e recomendações propostas, possam contribuir para o desenvolvimento pessoal, profissional e/ou académico de todas as pessoas interessadas, bem como servir de estímulo para o desenvolvimento de novos estudos, a melhoria das práticas profissionais e a aproximação entre todas as cidadãs e cidadãos portugueses, independentemente da “ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”  (Artigo 13.º, alínea 2, da Constituição da República Portuguesa).

 

[English below]

The studies that have been developed in Portugal that concern Roma issues have increased substantially, particularly from the 90s onward. Several doctoral theses in the field of social sciences that were completed in the early 2000s are highlighted.

On the ObCig website we intend to publicise academic papers done by researchers and students that are dedicated to this area, both national and internationally.

At the same time, research initiatives and intervention actions across the country that involve the Roma communities have been undertaken by public and private entities (schools, associations, vocational training centers, non-governmental agencies, etc). Publicising the result of this research and sustained intervention (local, regional ou national) becomes incredibly relevant through, for example, diversified publications or audiovisual materials.

Promoting understanding of the realities experienced by the Roma people and families in the national context is fundamental to unveiling cultural specificities and the creation of tools for a more contextualized and sustained intervention, capable of undoing the social disadvantage suffered by the portuguese Roma population. In this context, the life histories of Roma adults and youth that can be construed as reference in their territories will also have a space in the ObCig.

We invite you to share your work, to be published in this space, through our email (obcig@acm.gov.pt), so that the scientific and theoretical advances, the intervention experiences and their respective conclusions, as well as the proposed recommendations, can contribute to the personal, professional and/or academic development of all interested parties. This work can also serve as a stimulus for the development of new studies, the improvement of professional practices, and the approximation of all Portuguese citizens, regardless of “ancestry, gender, ethnicity, language, place of birth, religion, political beliefs, ideology, income, social status or sexual orientation” (Article 13, number 2 of the Portuguese Constitution).

 

[Français ci-dessous]

Les études développées au Portugal qui problématisent les questions concernant la population tsigane a augmenté les derniers temps de façon significative, surtout à partir des années 90 lors du XXème siècle, dont plusieurs thèses de doctorat qui ont été conclues lors de la décennie de 2000, dans le domaine des sciences sociales.   

Nous souhaitons, dans le site de l´ObCig, divulguer les travaux académiques produits par les chercheurs et chercheuses qui se dédient à cette thématique, aussi bien au niveau national qu´international.

Simultanément, partout dans le territoire national, plusieurs initiatives de recherche et d´actions d´intervention dans lesquelles les communautés tsiganes y ont participés ont été organisées, aussi bien par des entités publiques que privées (des écoles, des associations, des centres de formation professionnelle, des organisations non-gouvernementales, entre autres). L´ObCig cherche à connaitre le résultat de ces recherches et de ces interventions de terrain durables (locales, régionales ou nationales). Ceci assume un poids significatif, à travers, par exemple, de publications diversifiées ou alors à travers des matériaux audiovisuels qui sont produits.

L´ObCig part de la conviction que le renforcement de la connaissance des réalités vécues par les personnes et familles tsiganes dans le contexte national est fondamental pour rendre visibles certaines spécificités culturelles et pour se créer des instruments pour une intervention plus remise en contexte et plus durable, capable de renverser la situation de désavantage sociale dans laquelle la population portugaise tsigane se retrouve. Dans cette perspective, les histoires de vie des jeunes et des adultes tsiganes qui sont considérés une référence dans les espaces territoriales où ils habitent et interviennent méritent également une place importante dans l´ObCig.  

Nous vous invitons à partager vos travaux, à travers de l´adresse e-mail obcig@acm.gov.pt, afin de faire sa divulgation dans cet espace, de façon à que les avancées théoriques et scientifiques, ainsi que les expériences d´intervention et les respectives conclusions, et encore certaines recommandations, puissent contribuer pour le développement personnel, professionnel et/ou académique de toutes les personnes intéressées. Ce travail pourra également servir de moteur aussi bien au développement de nouvelles études, qu´à l´amélioration des pratiques professionnelles et encore à la proximité entre toutes et tous citoyens portugais, indépendamment de « l´ascendance, le sexe, la race, la langue, le territoire d´origine, la religion, les convictions politiques ou idéologiques, l´instruction, la situation économique, les conditions sociales ou l´orientation sexuelle » (Article 13.º, numéro 2, de la Constitution de la République Portugaise).

 


Prémio ObCig Empresas Integradoras – 2019

08 abr 2019
Prémio ObCig Empresas Integradoras – 2019
 
No passado dia 8 de abril de 2019, no âmbito das comemorações do Dia Internacional das Pessoas Ciganas, o Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig), atribuiu o “Prémio OBCIG Empresas integradoras” à dst group, representada pelo director dos recursos humanos, Dr. Alfredo Cardoso, por esta empresa desempenhar um importante papel na integração laboral de pessoas ciganas. Através da institucionalização deste prémio, o ObCig pretende inspirar outras entidades empregadoras no desenvolvimento e implementação de políticas e práticas empresariais integradoras das pessoas ciganas, sendo a empresa agora premiada um exemplo de integração, empregando presentemente 7 pessoas ciganas.
Fundação Caloust Gulbenkian
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Presente para o Futuro: Combate ao insucesso escolar das crianças ciganas

02 mai 2019

Presente para o Futuro: Combate ao insucesso escolar das crianças ciganas

Realizar-se-á no próximo dia 2 de maio de 2019 a sessão de lançamento do projeto CooLabora CRL “Presente para o Futuro: Combate ao insucesso escolar das crianças ciganas”. A sessão terá início às 17h15 na Escola EB2/3 de Tortosendo na Covilhã e contará com a intervenção de Maria José Casa-Nova, Coordenadora do Observatório das Comunidades Ciganas, sobre o tema “Conhecimento académico, (des)igualdades e diferenças na escola pública: reflexões de uma realidade (des)conhecida”.

 

Escola EB2/3 de Tortosendo na Covilhã
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Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC)

Imagem em Destaque
Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC)

Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC) 

Em 2013, pela primeira vez, foi aprovada uma estratégia especificamente direcionada para as pessoas ciganas em Portugal: a Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas (ENICC), criada através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 25/2013, de 27 de março.
Em 29 de novembro 2018, a RCM 154/2018 veio rever a referida ENICC e alargar a sua vigência até 2022, com o objetivo de ajustar os seus objetivos e metas e, consequentemente, potenciar o impacto na melhoria das condições de vida das pessoas e comunidades ciganas.
A ENICC surge, neste contexto, como uma plataforma para o desenvolvimento de uma intervenção alargada e articulada, onde os vários ministérios, municípios, organizações da sociedade civil, academia e comunidades ciganas, entre outras organizações, contribuem ativamente para a concretização dos objetivos traçados.
 
Aceda à ENICC em PT e em EN

Seminário "Nós e os Outros: Alteridades,Políticas Públicas e Direito"

05 abr 2019

Seminário Nós e os Outros - Alteridade, Políticas Públicas e Direito

 

A Faculdade de Direito da Universidade do Porto (FDUP) e o seu Centro de Investigação Jurídico Económica (CIJE) organizam o Seminário "Nós e os Outros - Alteridade, Políticas Públicas e Direito".

O evento científico irá decorrer no dia 5 de abril de 2019 nas instalações da FDUP e contará com a presença de ilustres oradores convidados que irão abordar temáticas atuais, alicerçadas nas seguintes problemáticas:

- Alteridade: quem são os outros?

- Políticas Públicas: como incluir os outros?

- Direitos: Como Proteger os outros?.

Participação da Coordenadora Maria José Casa-Nova na sessão das 16h: “Direito(s): como proteger os Outros?”  

Este Seminário insere-se no Projeto CIJE/ FDUP Vulnerabilidade e Diversidade: Direitos Fundamentais no Contexto - Eixo: Minorias, Migrantes e Refugiados.

Entrada Livre

Inscrição obrigatória aqui

Ver Programa completo aqui.

Anf 1.28 FDUP, Porto
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Preparação para cursos de pós-graduação

- 08 abr 2019
Programa de preparação de jovens ciganos/as para cursos de pós-graduação
Estão abertas as inscrições para curso de preparação para inscrição em Mestrado da Central European University (Universidade Central Europeia), em Budapeste, Hungria. Este curso destina-se a jovens ciganos/as que pretendam realizar mestrado no estrangeiro, constituindo-se numa oportunidade única de aprendizagem num ambiente internacional. O OBCIG apela vivamente aos/às jovens portugueses/as ciganos/as para que concorram ao mesmo.
 

Prazo de inscrição: dia 30 de abril de 2019

Para mais informações sobre os requisitos de admissão ver o website da Central European University - Romani Studieshttps://romanistudies.ceu.edu/

 

Budapeste, Hungria
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Nova Edição do Programa ROMED

31 jan 2019

Programa ROMED

A nova Edição do Programa ROMED – Governação democrática e participação comunitária através da mediação vai ser lançada no dia 31 de janeiro, pelas 10 horas, no Palácio Foz, Sala de Jantar, em Lisboa. A iniciativa irá incluir a assinatura da carta de compromisso pela Secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade e a Letras Nómadas – Associação de Investigação e Dinamização das Comunidades Ciganas. Inscreva-se, até ao dia 28 de janeiro, através do formulário acessível aqui.

Encontre o programa completo abaixo.

 

Palácio Foz, Sala de Jantar, Lisboa

ObCig lança Newsletter a assinalar o Dia Internacional dos Direitos Humanos


Vozes Ciganas na Mediação Intercultural (Parte I), Olga Mariano

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Vozes Ciganas na Mediação Intercultural (Parte I), Entrevistas
OLGA MARIANO
Entrevista realizada em novembro de 2018, Lisboa
Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): Como surgiu a oportunidade de ser mediador/a intercultural?
Olga Mariano (OM): A oportunidade de ser mediadora intercultural surgiu há alguns anos atrás, tenho de recuar até ao ano de 1999, altura em que estive numa ação de formação com mais 5 colegas ciganas e 11 colegas africanas numa ação de formação intercultural, ou seja, mediadores culturais, na altura. E foi um ano realmente muito interessante de aprendizagem. Aprendizagem não só formativa, mas também aprendizagem de vida. Porque foi pela primeira vez que as mulheres ciganas se encontraram durante um ano com as mulheres africanas, cohabitaram e conviveram durante todo o ano e foi sem sombra de dúvida muito importante para mim essa aprendizagem humana, foi excelente. Inclusive também a própria ação de formação tinha vários temas muito importantes, muito interessantes para o nosso dia-a-dia de mediadoras ou mediadores, inclusive para nós que estávamos a ser formadas para trabalhar nas escolas, nos atl´s, também nos jardins-de-infância e sem dúvida todo o contexto formativo nos deu oportunidade de termos mais conhecimento, mais empoderamento do que era ser mediadora. Sem dúvida que foi um ano excelente de aprendizagem, de empoderamento e até de maturidade. 
ObCig: O que significa para si ser mediador/a intercultural?
OM: Ser mediadora não é só uma palavra, portanto é muito mais do que isso, ser mediadora é fazer a ponte entre a família e a escola. É ser uma extensão da própria família de forma a podermos interagir com uns e com outros. É termos a sensibilidade de tratamento com a escola e com as crianças e com a família. Isto é quase um elo de ligação e que não é fácil, porque nós temos o conhecimento de uma parte e de outra, mas também temos que ter muita responsabilidade para podermos opinar, para podermos apoiar, para podermos dar, portanto, a explicação… Ser mediadora intercultural é muito mais do que uma palavra, é muito mais do que uma forma, uma forma de abordagem de um tema que vai muito mais além do que ser mediadora sociocultural ou intercultural, portanto, é uma forma de estar, é uma forma de interagir, é uma forma de fazer de ponte, é um elo de ligação entre a família, a escola e a criança. Temos uma responsabilidade muito acrescida, e temos também de ter o conhecimento entre uma cultura e outra, a cultura maioritária e a cultura cigana para podermos trabalhar com consciência e com conhecimento e podermos levar a água ao nosso moinho, que é sem sombra de dúvida que é que as crianças ciganas tenham continuidade na sua vida e no seu percurso escolar. 
ObCig: Na sua perspectiva, qual é o papel do/a mediador/a na sociedade?
OM: Não é um papel muito fácil porque, como disse anteriormente, o papel do mediador na sociedade tem toda essa responsabilidade acrescida que eu falei anteriormente, mas também tem que ter mais vertentes. E a vertente da sensibilidade, a vertente de termos capacidade de conquista da criança, do próprio corpo diretivo das escolas, das auxiliares da acção educativa. Muitas das vezes pensam realmente “a cigana vem para aqui roubar o meu espaço ou vem tirar o meu trabalho ou vem fazer com que eu pareça insignificante”. E muitas das vezes as próprias professoras têm alguma dificuldade, portanto, em entender o que é o papel da mediação e para isso é muito importante, mas muito importante, que nas escolas tenham mediadores socioculturais ou interculturais, como queiramos chamar, que tenham formação sobre o papel do mediador nas escolas. Porque esse papel é muito importante para os dois lados, mas também é um papel, embora não estejamos fechados num quadrado, nós estamos, nós somos praticamente pessoas com vários conhecimentos e que podemos pô-los em prática, quer seja no recreio, quer seja numa sala de aulas, quer seja numa reunião. Mas também é importante que tenham conhecimento exactamente de qual é esse papel porque muitas das vezes eu sei que há mediadores escolares nas escolas e que estão a ter um papel completamente diferente do que é o seu papel. Estão a fazer mais tarefas de auxiliares de ação educativa, estão a fazer mais tarefas de pintura, de limpeza, porque os professores não sabem distinguir e não estão informados para esse papel que é um papel tão importante. 
ObCig: Como acha que as pessoas olham para o/a mediador/a?
OM: Esse olhar que as pessoas têm de o mediador muitas vezes é um olhar de desconfiança por várias situações, como também disse na resposta anterior, porque o “cigano pensa que vem nos ensinar alguma coisa”, “não nos vem ensinar algo”, porque a obrigação e nós sabemos que sim, como portugueses, é que os meninos e meninas andem nas escolas, mas também têm que ver que é um papel de motivador, porque têm que ver que é uma cultura diferente, nós somos iguais, nós somos portugueses, mas temos uma cultura diferente. E era muito importante que em vez de trabalharmos separadamente, trabalhássemos em conjunto e se nós conseguíssemos unir, portanto, todas estas forças, de certeza absoluta, que iríamos ter meninos e meninas portugueses ciganos muito mais bem formados e com muito mais vontade de seguir os seus estudos para além da primária ou do segundo ciclo, porque aquilo que nós gostaríamos era que ultrapassassem o 2º, chegassem ao 3º  e depois fossem inclusive para a universidade, para o ensino superior. Isso é que é a grande luta dos mediadores. Portanto, há que entender que o mediador está ali como uma ferramenta. Utilizem-na com toda a sua capacidade e com todo o conhecimento para que em conjunto e sempre em conjunto chegarmos mais além. 
ObCig: Lembra-se de alguma situação em particular que o/a tenha levado a reflectir mais sobre o papel de mediador/a? 
OM: Poderia falar de várias situações que me levam a reflectir sobre o papel da mediação e sobre às vezes o desconhecimento que existe desse papel, mas há uma situação muito caricata, isto até foi numa altura que eu estive em estágio numa escola, uma escola bem formada, num bairro social muito difícil, mas realmente com uma direção bastante interessada no papel da mediação, mas com alguns professores com um desconhecimento total do papel da mediação e com uma forma de tratar as crianças, porque são todas crianças independentemente de serem de uma ou de outra cultura e de tratar as crianças da forma como elas merecem e o respeito que elas merecem. E eu tinha um menino cigano nessa turma, é importante que eu diga que eu fui muito bem recebida nessa escola, mas há esta situação e eu acho importante partilhá-la convosco. E então acontece que um dos meninos ciganos numa turma tinha assim o cabelo mais comprido, também porque era filho de gente muito pobre e não se pode andar a cortar o cabelo sempre, não há dinheiro para… e então a professora zangou-se com ele e disse-lhe “tens que ir cortar o cabelo, pareces mesmo um cigano”, o menino foi para casa e disse “a professora está sempre… e os outros meninos também se riem, porque a professora está sempre a dizer que eu pareço um cigano com este cabelo grande”, a mãe fez um enorme sacrifício e mandou cortar o cabelo ao menino, mas para não andar a cortar sempre, cortou-lhe bastante curtinho, quando ele chegou no outro dia à escola, pensando que ía levar um elogio, a professora olhou para ele e disse “epá era preciso cortares o cabelo dessa maneira, vê-se mesmo que estavas cheio de piolhos”, portanto isto são situações que não podem de maneira nenhuma acontecer na escola, não podem de maneira nenhuma. Eu tenho situações durante todo este tempo, desde 99, que eu fiz trabalho de mediadora, e só numa escola tive 5 anos, na escola Padre Cruz na Pontinha, aí estive a trabalhar 5 anos nessa escola, tenho bastantes recordações muito interessantes nessa escola, mesmo muito importantes, mas sem sombra de dúvida que há um desconhecimento muito grande e uma falta de sensibilidade de muitos professores e quando digo muitos não estou a generalizar, porque nunca se deve generalizar, mas que há muitos professores que têm muita falha na sensibilidade para trabalhar com as crianças. Sem sombra de dúvida que essas situações com a mediação têm muito mais facilidade, portanto, de serem trabalhadas, porque se houvesse a mediação se calhar a professora e se ela própria tivesse um pouco mais de sensibilidade poderia eventualmente dizer à mediadora “veja se conseguem cortar o cabelo ao menino, se há essa possibilidade, se não nós encontramos outra forma de o fazer”. Portanto há várias formas de trabalhar com as crianças. Mas nem tudo é mau, há muita coisa boa. E há muitos professores cheios de sensibilidade e conhecimento. E crianças também maravilhosas. Nesses 5 anos que estive no Bairro Padre Cruz também contar uma passagem muito interessante, eu estava numa sala com crianças, e quando digo crianças eram mesmo crianças, não era com uma ou com outra comunidade, que não conseguiam estar durante o tempo letivo numa sala de aula e então íam para a minha sala fazer vários trabalhos, inclusive fazíamos ponto cruz, e então uma das crianças ciganas olhou para mim e disse “olhe lá, você é mesmo cigana”, “sou, então não vês que sou cigana”, “não pode ser”, “não pode ser porquê?”, “como é que pode ser cigana e ser professora?”, “sou, podes ter a certeza que sou”. E diz-me outra menina africana “ai não não, você não é cigana”, “mas não sou cigana porquê?”, “não não é, você é mas é freira”. Portanto, é interessante ver que aquelas crianças nem para uma nem para outra eu não podia ser cigana, porque é muito raro ver-se ciganas professoras. Na ótica deles eu estava ali não como cigana, mas sim como professora. Há imensas histórias lindas que poderia e estava aqui um dia inteiro a falar nelas.
ObCig: Se pudesse, o que mudaria no papel do/a mediador/a?
OM: Primeiro que tudo, primeiro que tudo teria que haver estatuto do mediador, isso é o mais importante. Enquanto nós não tivermos esse estatuto, nós somos vistos e pagos como auxiliares da ação educativa e não é esse o nosso papel, é completamente distinto. Depois teria que haver também uma bolsa de mediadores através do Ministério da Educação para quando houvesse necessidade de recorrer a esses mediadores as escolas que tivessem essa necessidade o pedissem nessa bolsa a mediação que lhe era necessária, entre outras coisas, claro.
ObCig: O que acha que é importante mudar na sociedade para que esta se transforme numa sociedade intercultural? 
OM: Isso é muito difícil essa pergunta, se nos olhassem como pessoas e não como etnia de certeza que tínhamos uma sociedade muito melhor, se nos olhassem como um ser individual que podemos pensar por nós com um nome próprio, com um BI, e não como uma cultura ou como uma etnia era uma facilitação de estarmos muito mais bem, haver um cruzamento entre várias culturas existentes em Portugal. E aqui o grande prejuízo para as minorias é que a sociedade maioritária, não nos veem como seres individuais, veem-nos como pertença de uma cultura ou de uma etnia e depois metem-nos todos no mesmo saco. Isso para mim é das piores coisas que existem. Depois também há outras situações que realmente fazem toda a diferença, era morarmos na malha urbana em conjunto com os não ciganos, terminar-se com estes bairros sociais que só formam pessoas com grandes dificuldades de inserção na sociedade maioritária, que são guetos que depois para além das várias culturas lá existentes ainda existe a cultura de bairro que depois é muito difícil de transpor. Que nos olhem como pessoas, como seres humanos e que nos respeitem a nível de ser humano, mas também a nível cultural, porque nós temos uma cultura muito própria, da qual nos orgulhamos e como a alentejana, como a algarvia, é uma cultura que deve ser respeitada. E eu posso terminar por dizer que eu posso ser tudo o que eu quero ser sem nunca deixar ser quem sou.
ObCig: Tendo em atenção a sua história de vida e experiência de mediação, que mensagem gostaria de transmitir à sociedade?
OM: Partilhem, é muito importante partilhar, porque todos nós temos histórias boas e menos boas, mas se partilharmos com o outro as boas ficam ainda melhores e as menos boas até podem ficar boas, porque duas cabeças pensam melhor do que uma. 
ObCig: Quer acrescentar mais alguma coisa a esta entrevista?
OM: Eu acho que já falei de mais, mas de qualquer das maneiras eu acho que é importante darmos as mãos, não nos voltarmos as costas. É importante que este papel da mediação seja validado enquanto realmente um papel importante na sociedade e que é uma profissão muito digna. E é uma profissão sem sombra de dúvida que tem muito a ser explorada e que nos pode dar grandes vitórias. E essas vitórias são muito importante para nós, ciganos, porque aqui, enquanto e falando aqui não só enquanto mulher cigana, que todos nós sabemos a cultura seja de que povo for, recai sempre sobre os ombros das mulheres, então era importante que todos nós conseguíssemos que através da mediação dessemos oportunidade às nossas meninas ciganas terem continuidade nos seus estudos. E só validando este papel, só fazendo o estatuto do mediador, porque o mediador faz falta. O mediador é muito importante na escola, nas prisões, nos hospitais, nos centros de formação, nos centros de saúde, o papel é tão importante como os outros papéis existentes das várias funções de todos estes serviços, sem sombra de dúvida iria melhorar muito a relação entre uns e outros.

Vozes Ciganas na Mediação Intercultural (Parte I), Bruno Oliveira

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Vozes Ciganas na Mediação Intercultural (Parte I), Entrevistas
BRUNO OLIVEIRA
Entrevista realizada em novembro de 2018, Lisboa
Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): Como surgiu a oportunidade de ser mediador/a intercultural?
Bruno Oliveira (BO): A oportunidade de ser mediador intercultural surgiu-me através de um curso que fiz na Pastoral dos Ciganos em Lisboa, teve a duração de dois anos. 
ObCig: O que significa para si ser mediador/a intercultural?
BO: Ser mediador intercultural para mim significa ser uma mais-valia tanto para a sociedade maioritária como para a comunidade cigana, nomeadamente para a comunidade cigana de Lisboa. 
ObCig: Na sua perspectiva, qual é o papel do/a mediador/a na sociedade? 
BO: O papel do mediador na sociedade é um elo de ligação, promotor da interculturalidade e promotor de igualdade e justiça social. 
ObCig: Como acha que as pessoas olham para o/a mediador/a?
BO: Eu acho que as pessoas olham para o mediador, quando o conhecem, quando conhecem realmente o papel do mediador, olham como uma mais-valia, como uma pessoa de confiança. Quem não conhece, eu acho que estamos um bocadinho subvalorizados.
ObCig: Lembra-se de alguma situação em particular que o/a tenha levado a reflectir mais sobre o papel de mediador/a?
BO: Houve várias situações que me levaram a pensar mais sobre o papel de mediador intercultural, especificamente quando faleceu uma criança e o pai agarrou-se a mim a chorar e eu senti que era necessário ter mais formação sobre a interculturalidade e a mediação para dar mais alguma coisa à comunidade cigana. 
ObCig: Se pudesse, o que mudaria no papel do/a mediador/a?
BO: Se eu pudesse mudar alguma coisa no papel do mediador era a carreira, porque nós não temos uma carreira de mediador, acho que faz muita falta haver uma carreira de mediador e também uma maior valorização por parte das instituições. 
ObCig: O que acha que é importante mudar na sociedade para que esta se transforme numa sociedade intercultural? 
BO: O que se tem de mudar nesta sociedade para que esta sociedade se transforme numa sociedade intercultural, primeiro tem que haver uma aposta nos mediadores interculturais para haver uma sensibilização para o diálogo intercultural, só assim é que conseguimos construir um caminho para uma sociedade intercultural. 
ObCig: Tendo em atenção a sua história de vida e experiência de mediação, que mensagem gostaria de transmitir à sociedade?
BO: Enquanto mediador, enquanto pessoa a mensagem que eu quero transmitir é uma frase que o Martin Luther King uma vez disse que foi: o que o assustava não era o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.
ObCig: Quer acrescentar mais alguma coisa a esta entrevista?
BO: Quero deixar um abraço fraternal a todos os ciganos e ciganas de Portugal.

Vozes Ciganas na Mediação Intercultural (Parte II), Sónia Matos

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Vozes Ciganas na Mediação Intercultural (Parte II), Entrevistas
SÓNIA MATOS
Entrevista realizada em novembro de 2018, Seixal
Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): Como surgiu a oportunidade de ser mediador/a intercultural?
Sónia Matos (SM): Através do RSI, tentei conseguir arranjar oportunidade para tentar ser alguém, portanto, naquela altura eu tinha 22 anos e eu sabia que queria ser mais do que doméstica, dona de casa. Só isso não chegava, eu queria ter uma profissão, queria ser alguém e portanto, vi nisto uma oportunidade. E a minha assistente social informou-me do início de um curso e fui a uma entrevista, da qual fiquei seleccionada. No decorrer desse curso, nós desenvolvemos o curso em parceria com 12 mulheres africanas e depois a meio do curso fomos divididas, porque elas seguiram o curso de geriatria e cuidados e nós seguimos o curso para mediadoras. Isto foi tudo uma experiência. Eles tiveram até meio do curso a analisar se nós tínhamos capacidades para ser mediadoras e conseguimos as cinco provar que sim e claro que nessa altura tivemos a sorte de ter na coordenação do projeto a Dra Fernanda Pedro, que era uma pessoa muito ativa, muito católica também, e que nos levou logo a seminários, a encontros, fomos para Roma com ela, portanto, foi quem nos deu empoderamento, digamos, e conhecimento do mundo e da sociedade em que vivemos. E depois um formador do curso identificou logo no curso que nós tínhamos todas as capacidades para formar uma associação. Uma associação de mulheres ciganas, nós não sabíamos muito bem o que isso era, nem para que servia e fomos assim um pouco atiradas assim ali para o meio da tourada, porque foi assim que nos sentimos no início, porque era tudo muito novo, não havia mulheres ciganas a trabalhar e depois uma mulher viúva e cinco solteiras… é complicado. Portanto foi um percurso engraçado, mas conseguimos, chegámos aqui.  
 
ObCig: O que significa para si ser mediador/a intercultural?
SM: Uma mediadora é um caminho, é um percurso. E é uma aprendizagem todos os dias, e ao longo deste meu percurso fui desenvolvendo várias áreas em meu redor. Ser mediadora cultural é uma pessoa que tem de ser imparcial, que tem de conseguir ouvir um lado e ouvir o outro e tentar fazer a conciliação entre dois pensamentos e que depois esses pensamentos entrem num conjunto e possam partilhar as ideias e chegar a um consenso. Não é um percurso fácil, é muito difícil porque quem fica no meio, tem o trabalho mais complicado, mas é um trabalho que se consegue quando se acredita nele.
 
ObCig: Na sua perspectiva, qual é o papel do/a mediador/a na sociedade? 
SM: A mediadora é alguém que pode trabalhar em várias vertentes, pode trabalhar na área da educação que é essencial e aí já está provado, está mais que provado que um mediador nas escolas é essencial para o sucesso da escolaridade nos meninos de etnia cigana. Além das escolas vejo uma mediadora nos centros comunitários, nos serviços sociais, nos hospitais. Portanto, a mediação seria algo muito importante que os serviços deveriam ver como atendimento para a comunidade cigana. Porque o que eu sinto é que há uma dificuldade muito grande de comunicação entre as duas culturas. 
 
ObCig: Como acha que as pessoas olham para o/a mediador/a?
SM: Um mediador, quando eu digo que sou mediadora, as pessoas perguntam-me o que é isso. “É mediador imobiliário?” Tanto é que é uma profissão um bocadinho… que ninguém identifica. Está muito mais identificada como animadora cultural. E está muito ligado a essa vertente. Um animador tem muito aquele lado da vertência de um mediador, mas depois o mediador da comunidade cigana tem uma especificidade que é a cultura cigana. E aí acho que é essencial para trabalhar com a comunidade cigana.
 
ObCig: Lembra-se de alguma situação em particular que o/a tenha levado a reflectir mais sobre o papel de mediador/a?
SM: Ao longo de 18 anos já dá para fazer uma reflexão no meu local de trabalho onde sou efetiva, neste momento pedi dois anos de licença sem vencimento porque decidi agarrar a minha associação e trabalhar nos projetos em que eu acredito. Mas como disse, há 18 anos que trabalho e estou contratada como auxiliar da ação educativa. Além de fazer esse trabalho, sou professora de dança flamenca que foi outra vertente que desenvolvi ao longo dos anos, a dar aulas de dança sem ser para a comunidade cigana, tudo mulheres adultas, e mais tarde também, formadora. Nestas quatro vertentes e nestes quatro papéis que são muitos distintos uns dos outros a mediação é aquela que mais me toca, aquela que mais me chama, embora seja aquela que seja a mais difícil. Mas é aquela que me dá mais prazer fazer. Mas consigo perceber aquilo que me quer dizer, se houve momentos em que me deu vontade de desistir, sim, deu-me vontade de fazer outras coisas sem ser a mediação, porque a mediação é para alguém que tem muita coragem e que gosta muito e que acredita muito naquilo que faz. Eu posso contar uma situação que se passou comigo, estava a trabalhar há cerca de um ano e no meu primeiro trabalho realizava animação nas escolas, uma parceria com o ICE – Instituto das Comunidades Educativas -, isto em 2000, que era parceiro aqui do “Centro Comunitário várias culturas uma só vida” onde eu trabalho e nós desenvolvíamos animação nas escolas. Nos primeiros tempos eu ía animar os recreios e numa das vezes em que eu tive de ir beber água lá dentro, eu ouvi as auxiliares a comentarem que com esta animadora a vir lá para os recreios os miúdos da comunidade cigana deixaram de faltar e elas tinham que levar com elas todas. Houve alturas em que foi complicado para mim aceitar e ver o quanto a comunidade cigana é discriminada e continua a ser discriminada. Mas é um trabalho que me dá prazer fazer. E hoje consigo ver a diferença, consigo apreciar o quanto houve de mudança de mentalidade das pessoas, da sociedade maioritária, da comunidade cigana a nível da educação, a nível escolar, a nível de comportamentos, e isso são comportamentos. Uma sociedade leva muitos anos para mudar, esses comportamentos já estão enraizados dentro de nós. E portanto é muito difícil. Hoje posso falar por experiência que vivemos na mesma sociedade, temos os mesmos costumes, mas a comunidade cigana está 20 anos, relativamente aos costumes, em atraso ao resto da sociedade maioritária. Porque os nossos costumes são os portugueses, a gente não tem outra cultura, é este o país onde nascemos, portanto, temos é as raízes mais aprofundadas, dentro de nós ainda temos e conseguimos preservar isso, devido ao facto, claro, de continuarmos casamentos comuns e assim se mantem uma cultura com mais de 500 anos. 
 
ObCig: Se pudesse, o que mudaria no papel do/a mediador/a?
SM: Reconhecimento da parte do governo, reconhecimento por parte das instituições, reconhecimento por parte do Ministério da Educação, principalmente é aí a grande vertente, e a grande batalha e se possível que o mediador tivesse mais apoio porque é uma profissão muito desgastante e que necessitávamos de mais apoio por parte… não sei… das instituições, do governo. Deveríamos ter apoio a nível de formação para podermos ganhar força. Encontros entre os mediadores, reflexão sobre o trabalho que se tem vindo a fazer com a mediação em Portugal. Acho que o reconhecimento, acho que era isso aquilo que eu mudaria no mediador.
 
ObCig: O que acha que é importante mudar na sociedade para que esta se transforme numa sociedade intercultural? 
SM: Em primeiro lugar que não olhássemos para o outro como se tivéssemos de integrá-lo em algo, mas sim incluí-lo e respeitá-lo na sua diferença e quando digo isto, digo para a comunidade cigana, digo para a mulher, digo para as minorias, digo para aqueles que são diferentes, portanto quando nós conseguirmos olhar para o outro enquanto pessoa, nós conseguimos incluí-lo na sociedade. Eu acho que é errado que aquilo que se tem vindo a fazer, trabalhar a integração da comunidade cigana, mas a comunidade cigana não quer ser integrada, quer ser respeitada, que é isso que faz falta, é respeitarmo-nos uns aos outros, e no dia que conseguirmos fazer isso, vamos ter uma sociedade mais justa, sem sombra de dúvidas para toda a gente.   
 
ObCig: Tendo em atenção a sua história de vida e experiência de mediação, que mensagem gostaria de transmitir à sociedade?
SM: Sim é possível, é possível vivermos todos na mesma sociedade, respeitarmo-nos uns aos outros e sim é possível convivermos todos juntos sem nos magoarmos uns aos outros. E respeitando-nos na nossa diferença. Posso falar por experiência própria, já sou casada com um não cigano e uma das coisas que ultimamente me deixou muito afetada e muito magoada, foi o fato de ver várias pessoas publicar no facebook, onde pedem na inscrição da criança para definir a sua etnia, e diz lá descendência cigana, descendência africana, e eu não sei como posso definir os meus filhos, o termo não está lá. Como é que eu defino os meus filhos? São metade metade, são meio termo? Vamos lá meter meio termo? Isso é uma das coisas que eu gostava que ficasse aqui vincada, que é que contínua a magoar-me ao longo de dezoito anos de trabalho, de reflexão, de trabalho de formação principalmente a técnicos e continuar sempre a ser convidada para seminários onde se fala da imigração, dos imigrantes. E eu não tenho outra bandeira, não reconheço outro hino e recuso que me retirem a minha identidade.