Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte II), Entrevistas, Toya Prudêncio

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Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte II), Entrevistas

Toya Prudêncio
Entrevista realizada em outubro de 2019, Braga

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O que acha da integração da população cigana no mercado de trabalho que não seja o trabalho tradicional (por exemplo, a venda em feiras)?

Toya Prudêncio (TP): A minha opinião sobre a integração da comunidade cigana no mercado de trabalho é que essa integração é muito importante, tanto a nível pessoal, para nós adquirimos outras competências para que no futuro não sejamos apanhados desprevenidos no caso de as feiras acabarem, porque as feiras já não são aquilo que eram há uns anos atrás, mas também para podermos desconstruir muitos dos estereótipos que estão associados à comunidade cigana como de quem não quer trabalhar, quem não tem capacidade para tal ou quem não sabe cumprir regras. Por isso a integração da comunidade cigana no mercado de trabalho penso que seja um fator muito importante na nossa integração.

 

ObCig: Quando começou a trabalhar nesta empresa ou organização?

TP: Eu comecei a trabalhar na rede há cerca de um mês atrás. Esta proposta de emprego surgiu-me através das redes sociais e também através de amigos. Eu soube que havia esta oportunidade e então decidi arriscar e mandar o meu currículo. Soube a resposta um tempo depois e consegui agarrar uma oportunidade que eu acho que me realiza muito enquanto pessoa.

 

 ObCig: Como surgiu a oportunidade?

TP: Esta oportunidade de trabalhar com a Rede Europeia Anti-Pobreza surgiu um pouco através das redes sociais. Soube que havia uma oportunidade de trabalho para integrar alguém que fosse mediador ou que tivesse experiência na área ou então que percebesse, que tivesse trabalhado com as comunidades ciganas. E visto eu já ter um historial grande enquanto ativista e trabalhando também com algumas associações com a minha comunidade, e sendo eu também da comunidade cigana, pensei que isso fosse uma mais-valia e enviei o meu currículo para a Rede. O currículo foi analisado e aqui estou eu a aproveitar esta nova oportunidade na minha vida.

 

ObCig: O que fazia antes?

TP: Antes de tudo isto acontecer eu trabalhava nas feiras, como a maior parte da comunidade cigana faz. Trabalha-se nas feiras onde se começa por norma a nossa vida profissional. Depois, por vários motivos, tive que abandonar as feiras, porque não eram rentáveis e então tivemos que procurar alternativas e surgiu a faculdade na altura. Eu concorri à faculdade através dos maiores de 23, fiz o exame, na altura, de Sociologia, consegui passar. Não houve vaga, fiquei para trás, tive de concorrer novamente. Fiz depois um exame de português no mesmo ano, consegui então entrar na Universidade Aberta onde estou agora a frequentar, e depois isso também abriu portas para conseguir arranjar outros tipos de trabalho. Trabalho que se adequasse mais aquilo que eu gosto e à profissão que eu almejo ter no futuro como educadora social neste caso. E esta oportunidade surgiu também um pouco assim. É ter alguma experiência... E as outras também. Já trabalhei também para o ACM como dinamizadora comunitária no projeto Escolhas “Escolhe Amar +”, que me foi dando um pouco mais de experiência no terreno e adquirir algumas ferramentas, para poder utilizar no trabalho que tenho atualmente. 

 

ObCig: Relação com os/as colegas?

TP: Eu fui muito bem recebida, não podia ter sido mais bem recebida, nem eu estava à espera de outra coisa. Vir trabalhar com uma instituição com quem eu já tinha participado e colaborado antes, não estava à espera de outra reação. Mas realmente não somos todos iguais. E eu tive a sorte de calhar numa equipa maravilhosa, de um coordenador que é muito compreensivo e de uma colega que é fantástica e… opá… em termos de equipa não podia pedir melhor. 

 

ObCig: O que valoriza mais no trabalho assalariado?

TP: O que eu valorizo mais no trabalho assalariado é o facto de chegar ao fim do mês e nós podermos contar com aquela quantia que nos ajuda também a organizar as nossas contas para o resto do mês e estamos mais descansados também. Também o facto de fazermos os descontos e estarmos nas nossas finanças. Isso estar tudo direitinho também nos dá uma certa tranquilidade para o futuro, porque estamos a preparar aquilo que vai ser a nossa reforma. E então eu gosto muito disso, gosto dessa segurança que o trabalho assalariado nos proporciona.  

 

ObCig: O que acha que pode e deve ser feito para potenciar a integração da população cigana neste tipo de trabalho? - No que diz respeito à sociedade dita maioritária? No que diz respeito à população cigana?

TP: Acho que a integração dos ciganos no mercado de trabalho… Sensibilizar primeiro a sociedade maioritária para a questão das dificuldades que nós sentimos em arranjar emprego por sermos da comunidade cigana. Desmistificar junto das empresas e de quem está disposto a nos dar trabalho aquilo que é ser cigano, que não significa que nós vamos para lá ou roubar ou levar a família toda, porque isso não é de todo verdade. E da parte da comunidade cigana, acho que tem de se investir não só na formação mas também na sensibilização para o que é o trabalho remunerado fixo, com um contrato fixo de trabalho. Porque muitas vezes há um desconhecimento da nossa parte e se isso for um bocadinho trabalhado talvez também abra um pouco outra perspetiva da parte da nossa comunidade.

 

ObCig: No que diz respeito às políticas públicas?

TP: Em termos de políticas públicas em relação à população cigana, acho que se deve investir na educação, porque é através da educação que nós vamos obter conhecimento. Obter conhecimento da nossa cidadania, dos nossos direitos, dos nossos deveres. E eu acho que grande parte da integração da comunidade cigana passa através da educação e para isso acho que devem existir políticas públicas que promovam o gosto pela escola, a valorização da escola, a faculdade… E não só, quem não quer ir para a faculdade também tem direito a ter essa educação. E então acho que a valorização da escola deve ser um dos pontos que as políticas públicas que são dirigidas para a comunidade cigana devem-se focar.   

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