Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte II), Entrevistas, Fernando Carmo

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Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte II), Entrevistas

Fernando Carmo
Entrevista realizada em outubro de 2019, Lisboa

 

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O que acha da integração da população cigana no mercado de trabalho que não seja o trabalho tradicional (por exemplo, a venda em feiras)?

Fernando Carmo (FC): É uma pergunta que generaliza um pouco o povo, não é? Eu não posso generalizar porque eu estou no mercado do trabalho como prestador de serviços por alguém que me cedeu uma posição viável para eu poder ter algum tipo de conforto. No salário que podemos fazer... Mas acho que sim, o mercado de trabalho alargou um pouquinho mais os braços, abriu mais as portas e deu mais novas oportunidades. Mas ainda assim com muitas reticências quando existe a possibilidade de saber que somos um povo português cigano. Existe sempre, sempre vai existir, mas cada vez menos.

 

ObCig: Quando começou a trabalhar nesta empresa ou organização?

FC: A empresa em si, não foi a primeira empresa que me cedeu uma posição de trabalho. Eu comecei a trabalhar sensivelmente entre 22 e 24 de novembro de 2017 quando cheguei do estrangeiro. Foi uma oportunidade que me fez sonhar ficar no país e não ter que procurar mais nada fora do conforto do lar. Mas desde que comecei, este foi o segundo patrão, nas aplicações TVDE, UBER, BOLT e companhia limitada, são chamados de parceiros e não patrões. Sim, foi este o segundo patrão que eu tive até agora, uma excelente pessoa, sabendo que eu pertenço a uma comunidade que estava até há um tempo esquecida. Abraçou a ideia de ter um povo português cigano a trabalhar para ele, às vezes até brinca com a situação, e diz sentir-se seguro porque desta forma não sou acossado por outros condutores de outras plataformas.

 

ObCig: Como surgiu a oportunidade?

FC: Foi uma oportunidade que surgiu assim de uma forma caricata. Eu como emigrante, sem contrato definitivo no estrangeiro, procurava tudo o que houvesse para fazer, tudo o que estivesse ao meu alcance e que eu pudesse realizar. A minha esposa disse que era tempo de mais. Ela começou a fazer alguns contactos aqui em Portugal e surgiu então a hipótese de eu vir para Portugal e poder estar apenas quinze ou vinte dias à espera até que a posição de trabalho me fosse cedida, o que me agradou bastante, porque era um sonho, conseguir um trabalho. Que anteriormente este trabalho… O nosso mercado de trabalho não abria portas, mas depois de começarmos a trabalhar e ter contactos com outras pessoas, aí sim. Sentir-se mais à vontade de no futuro eu também poder executar outros trabalhos quaisquer. Mas sim, foi uma maravilha eu ter voltado e ter ficado por cá. 

 

ObCig: O que fazia antes?

FC: Emigrei porque durante cinco anos fui inscrito no centro de emprego da zona de morada e fui a todas as reuniões, fui a várias entrevistas. Enquanto eu falava no telefone ou escrevia emails, enviava os meus CV´s, toda a gente me dava oportunidade, mas quando eu ia pessoalmente falar, a primeira reação era que “lamentamos mas para si não dá”. Eu desisti, fui obrigado a procurar em França, Inglaterra, Irlanda, corri vários países na Europa, até que me fixei durante um tempo na Inglaterra e depois um largo tempo na Holanda também a trabalhar.

Antes realmente de eu emigrar, antes de eu abrir na minha própria ideologia à vontade de eu estar no trabalho português... Aliás no mercado português de trabalho, eu era feirante. Eu amava aquilo que eu fazia, adorava pôr a banca, adorava nos dias que eu punha a banca, estava às vezes um pouquinho de chuva, acalentar os clientes, trazê-los para perto de mim e apresentar-lhe o produto que eu também servia. Mas derivado a várias situações que o governo foi impondo, às dificuldades que havia e depois à concorrência desleal que surgiu com grandes empreendedores de outros países estrangeiros, não vou citar ninguém em especial, as nossas roupas, os nossos bens pessoais, os nossos objetos e derivados de tudo aquilo que você possa imaginar, calçado, roupa, efeitos para casa, mobília, tudo isso perdeu valor. O nosso produto português que tem reconhecimento internacional deixou de ter aceitação nos mercados. Onde nós conseguíamos de vez em quando ganhar alguma coisa era aí. Era no produto de qualidade. Não era tanto no preço. Mas o povo que compra e que vai aos mercados deixou de comprar porque o poder de compra baixou. Como o poder de compra baixou, eu não consegui enfrentar a quebra enorme que teve. A partir daí desisti dos mercados e tentei então aí sim, um trabalho no nosso mercado de trabalho nacional ,o que se tornou impossível.

A mudança aconteceu sensivelmente no ano 2000/2001, porque eu comecei a trabalhar entre 92/93 sozinho com a minha esposa, após o meu casamento, e comecei a tentar uma vida melhor, no trabalho árduo mas leal. Não foi nada por ali além de grande mundo, mas sempre consegui ter algum, um pouquinho de parte, para o meu dia-a-dia com a minha esposa, para não fazer falta algum tipo de dinheiro para comprar um sapato, ou uma vez em quando por mês poder passear um pouco, e fazer da nossa vida uma vida limpa, satisfatória e condigna. Mas a partir do ano 2000/2001 quando esse mercado de oferta ficou abaixo do preço que era normalmente feito por nós para os nossos clientes, foi aí que eu vi que não ia dar futuro, desisti, porque os impostos eram altos, a roupa era cara e o nosso lucro, quando íamos ver o nosso lucro era tão baixo que não valia o esforço. Era de mais. Foi entre 2005 e 2006 que eu comecei a responder a tudo o que eram emails que me mandavam do estrangeiro e eu tentei mesmo com os trabalhos temporários de dois/três meses suportar as despesas que a minha esposa e os meus filhos tinham em Portugal. Foi difícil, foi uma era muito má, para outros que como eu não têm uma experiência académica superior, tinha apenas o sexto ano concluído, mas a minha experiência no estrangeiro conseguiu dar uma equivalência um pouco melhor, o que faz com que eu hoje tenha o trabalho que eu tenha e as ofertas de trabalho surjam quase todas as semanas ou quinzenalmente recebo emails a convidar para outros tipos de trabalho. Mas sinto-me bem onde estou e não vou largar.   

 

ObCig: Relação com os/as colegas?

FC: No que diz respeito ao trabalho ser um pouco mais individualista, sim, somos mais confrontados com um tempo só, é verdade. Mas enquanto estamos a trabalhar. Porque existem as chamadas horas mortas, em que todos nós, sejam os condutores do norte e do sul do país procuramos sempre um ponto onde sabemos que vai estar mais alguém como nós parados. E nessas horas juntamo-nos, somos muito ligados uns aos outros para tentar ganhar um pouco mais de experiência, ouvindo as opiniões de cada um. Tentar descobrir onde poderá existir melhor tempo e fartura de clientes para nós transportarmos e dessa forma sim, somos um grupo unido, não tanto como devíamos ser, mas somos um grupo unido, sim.

Ao início senti o peso da discriminação porque nas várias vezes que eu fiz entrevistas para vários outros parceiros que me convocavam eu nunca disse que eu era um português cigano, eu dizia que tinha descendência indiana. A forma como eu me apresentava e conversava com eles, arrastando um bocadinho do português para o inglês, convencia-os sempre que eu era um português indiano e não um português cigano. Depois de estar a trabalhar, que trabalhei dois ou três como experiência, aí sim eu dizia que era um português cigano, eles admiravam-se, não acreditavam ao início. Mas senti, senti bastante, tristemente digo, foi difícil, foi até um bocado chato com alguns parceiros, com alguns patrões quando descobriam que eu era cigano, simplesmente diziam que eu se calhar não dava para aquilo. 

 

ObCig: O que valoriza mais no trabalho assalariado?

FC: O que eu valorizo mais é saber que eu estou a prestar um serviço que me vai trazer o benefício do salário, ainda que mínimo mesmo, de um trabalho pago a um valor hora muito baixo, dependente daquilo que podemos fazer, das horas que despendemos para isso. Acho que é uma mais-valia para nós, nós povo português cigano, no que diz respeito a saber que dia tal, entre segunda-feira e quarta, vai receber o pagamento do trabalho que prestou. Isso traz segurança e uma sensação de realização para o ambiente familiar, não só para o condutor, mas também para a esposa, no meu caso como tenho esposa e filhos, e para outros que são os novatos também, mostrando aos pais que em vez de estar a perder tempo com coisas que não são dignas, demonstram aos próprios pais que sim, agarrar a oportunidade de trabalho e vão ter um futuro sempre habituado a trabalhar e receber o seu próprio salário. 

 

ObCig: O que acha que pode e deve ser feito para potenciar a integração da população cigana neste tipo de trabalho? No que diz respeito à sociedade dita maioritária?

FC: É uma pergunta simples mas muito difícil às vezes de responder. Eu tenho o meu próprio julgamento acerca disso, tenho as minhas próprias ideias acerca dessa questão que me colocou, mas também tenho uma resposta simples. Deixem-nos mostrar aquilo que somos capazes, permitam-nos ter também acesso às oportunidades de trabalho no mercado de trabalho. Tentem saber o que nós gostamos de fazer e o que somos capazes de fazer. Porque eu gostaria de ter outros trabalhos também, mas aquele trabalho que eu consigo fazer hoje em dia derivado à minha situação e derivado a ser quem sou é prestador de serviço como condutor de aplicações, que, neste momento, está a encher o mercado. Mas a sociedade maioritária, a população em si, deveria primeiro tentar perceber como são as pessoas e não julgar tanto o que são, porque aprendendo um pouquinho mais a conhecer aquilo que as pessoas são, começa a saber que afinal não é um bicho-de-sete-cabeças, não é um lobo mau. É uma forma de nos ajudarem tentar saber o que somos, o que sabemos e o que podemos fazer. E aí ia ser muito mais fácil compreender aquilo que nós queremos.

 

ObCig: No que diz respeito à população cigana?

FC: A própria população cigana, a nova geração, a geração que eu costumo dizer a geração do ano 2000 é uma geração preparada em casa, nos lares, por exemplo. No meu lar os meus filhos com a minha esposa ouvem todos os dias a mesma forma de falar que é: procurem uma forma de trabalho. O mundo como nós conhecíamos na geração anterior de feirante qualquer dia acaba. E o pensamento em toda população geral é chega de andar a fazer aquilo que se fazia no passado que era comprar aqui e vender ali, sem ter um local de trabalho, sem ter um posto certo e andar tipo, vamos lá, não é ilegalidade que se diz, mas quando não se tem uma banca, quando não se tem uma loja, quando não se tem um mercado, a lei portuguesa diz que não podemos estar a vender qualquer produto que seja, sem ter uma licença. Mas o incrível é que essa licença a nós não nos é passada. A burocracia enorme para tentar ter uma licença para outros imigrantes em Portugal, nós somos portugueses, mas existem imigrantes nas mais variadas artérias da cidade que conseguem por os seus preciosos bens, as suas pinturas, os seus artefactos e ninguém os chateia. Se nós tivéssemos essa oportunidade de demonstrar que também o podemos fazer iam ver que nós em casa ensinamos aos filhos que hoje em dia o que existe mais sagrado para nós é um local de trabalho, conseguir um emprego, ser assalariado, porque é uma coisa certa. O incerto... Nós não podemos fazer contas com aquilo que é incerto. Mas tendo um local de trabalho certo, pago mensalmente com um trabalho digno, isso seria o melhor para vós. É assim que nós conversamos com os nossos filhotes, com o futuro do nosso povo. É preparar o povo para o futuro e não para o passado.    

 

ObCig: No que diz respeito às políticas públicas?

FC: O que é que as políticas públicas poderiam fazer para melhorar, abrir oportunidades e não olhar a que tipo de povo ou que tradições pertence determinada pessoa que está à procura de trabalho por vezes por longo tempo.No meu caso, na altura, foram cinco anos. E há outros que estão há mais tempo, há outros há menos tempo, mas porque as políticas públicas ao saberem que alguém de etnia cigana, um português cigano como eu costumo dizer, fecha as portas. Eu acho isso errado. Concedam uma oportunidade, como existe na Inglaterra, existe o training job, que é dado quinze dias de training job à pessoa que quer ficar a trabalhar nas várias linhas que existem de trabalho e ali existe um encarregado, chamado manager, que acompanha o desenvolvimento desse trabalhador. Eu vi pessoas na Inglaterra com sessenta anos de idade, portugueses, senhoras com alguns problemas de saúde, que executavam o trabalho melhor que eu. Eu depois comecei a acompanhá-los também, mas se as nossas políticas que tentam regular aqui o posto de trabalho para toda a gente, para todo o povo, não só o nosso povo português cigano, mas há aí tanta gente que não tem trabalho por causa disso, porquê? Porque não têm habilitações literárias. Mas há aí miúdos com 18 anos que vão para postos de trabalho porque têm os diplomas mas não o sabem fazer. Vivem do papel e não da execução. E há pessoas que já passaram dos 50 anos, tanto o nosso povo português cigano como o povo maioritário, que tem mais experiência de trabalho do que tem os currículos, mas conseguem uma execução muito melhor e um trabalho final melhor do que aqueles jovens que apenas querem um trabalho temporário para auferir algum tipo de ajuda mensal para poderem ter mais alguma coisa para poder gastar no fim-de-semana. Aí é que a política podia intervir, ver bem como é que está o mercado de trabalho, e ver bem quem são as pessoas que querem trabalhar, não os papéis, cara a cara, olhos nos olhos […] e tentar ver e conhecer se a pessoa executou o trabalho que foi pedido corretamente ou se precisa de melhorar um pouco para fazê-lo corretamente. É só isso.

 

ObCig: Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

FC: Eu não sei se é acrescentar, é recalcar talvez, era dizer que é uma pena, uma pena que depois de tanto tempo no mercado de trabalho, depois de tanto tempo fora do país, dos meus filhos, da minha esposa, tanto tempo sozinho a tentar conseguir alguma coisa, chegar a Portugal com as folhas de experiências dos vários locais onde trabalhei, ir ao centro de emprego da zona e dizerem-me que vais ter de começar do zero, porque embora tenhas experiência no estrangeiro para nós não vale nada, não conta para nada. Eu acho que até esse ponto deveria ser verificado. E é isso mesmo que penso. Espero que seja satisfatório.


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