Vozes Ciganas no Mercado de Trabalho (Parte I), Entrevistas, Eva Romão

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EVA ROMÃO
Entrevista realizada em setembro de 2019, Portalegre

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O que acha da integração da população cigana no mercado de trabalho que não seja o trabalho tradicional (por exemplo, a venda em feiras)?

Eva Romão (ER): Acho que no contexto económico atual e uma vez que as feiras deixaram de ser lucrativas ou tão lucrativas como eram anteriormente é importante procurar outras alternativas como meio de subsistência, que continuem a permitir ter uma vida confortável e também para demonstrar que os ciganos são tão competentes noutro tipo de trabalhos como qualquer outra pessoa.

 

ObCig: Quando começou a trabalhar nesta empresa ou organização e como surgiu a oportunidade?

ER: Comecei a trabalhar em 2009, através de uma oportunidade de recrutamento externo de estágios profissionalizantes que abriram na altura. Efetuei a candidatura, passei pelo processo de recrutamento como qualquer outra pessoa e acabei sempre por continuar.

 

ObCig: O que fazia antes?

ER: Antes de começar a trabalhar estudava, tirei a licenciatura em Gestão aqui mesmo em Portalegre no Instituto Politécnico.

 

ObCig: Relação com os/as colegas?

ER: Tenho uma boa relação com os colegas e sempre tive logo desde o início.

 

ObCig: O que valoriza mais no trabalho assalariado?

ER: O facto de se saber com o que se pode contar. O trabalho assalariado tem a vantagem de ao final do mês, seja muito seja pouco, saber que se vai ter, que se vai obter aquele rendimento e daí acaba por advir uma maior estabilidade para a nossa vida.

 

ObCig: O que acha que pode e deve ser feito para potenciar a integração da população cigana neste tipo de trabalho? - No que diz respeito à sociedade dita maioritária?

ER: A sociedade maioritária tem que olhar para os ciganos sem o estigma que está instituído e encarar, sobretudo quando há alguma falha da parte de algum cigano ou quando há algum problema, que aquele problema ou aquilo que se passou… não encarar como uma falha da comunidade cigana que é muitas vezes aquilo que é entendido, mas como uma falha humana que qualquer outra pessoa pode ter.

 

ObCig: No que diz respeito à população cigana?

ER: A comunidade cigana deve encarar as oportunidades que existem no mercado de trabalho como uma forma de melhorar a sua situação económica.

 

ObCig: No que diz respeito às políticas públicas?

ER: As políticas públicas são muito importantes para as comunidades mais carenciadas. Haver políticas relativamente à educação porque uma habitação condigna acaba por melhorar a vida das pessoas a todos os níveis, nomeadamente dar-lhes mais condições de saúde, acaba por ter influência na educação, porque uma criança que viva numa casa que tenha condições tem muito mais condições para levar a escola avante, para concluir a sua educação, do que uma criança que viva numa casa sem condições. Depois também é muito importante encarar publicamente que há racismo e que deve ser combatido. Acho que política e publicamente tem de haver uma admissão clara de que o racismo existe e não deve ser admitido em qualquer tipo de forma.

 

ObCig: Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

ER: Acho que é importante haver uma educação para a diferença para se aprender a respeitar as diferenças que toda a gente tem e que existem de comunidades para comunidades. E também é importante haver uma política, digamos assim, para tentar compreender o motivo que levou as comunidades ciganas, neste momento, a se encontrarem nesta situação. Não por serem tudo aquilo que nós normalmente costumamos ouvir diariamente, mas o que é que levou, desde sempre, a tudo o que está relacionado com discriminação ou com racismo… Basicamente aquilo que eu quero dizer é que tem de haver uma compreensão daquilo que houve no passado e o caminho das comunidades ciganas para agora chegarmos aqui a este ponto…  [E de um ponto de vista do seu próprio percurso?] Estudei o ensino obrigatório, ensino secundário, com algumas interrupções. Tive um intervalo de dois anos sem estudar. Depois quando foi a entrada para o 7º ano, para o 9º, para o 10º e mesmo para a universidade, eu e a minha irmã acabávamos sempre atrasadas… Teve sempre de haver da nossa parte um esforço para conseguirmos acompanhar e fazer todas as disciplinas. Depois de ter o curso feito, acho que aí é a parte mais fácil, porque acabamos por estar em pé de igualdade com qualquer outra pessoa que se vai candidatar. Se eu tinha a minha licenciatura e se cumpria os requisitos para um recrutamento como foi o caso porque é que não haveria de ser chamada. E, pronto, foi assim que as coisas se passaram, aproveitei a oportunidade.


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