Vozes Ciganas no Associativismo (Parte II), Entrevistas, Susana Silveira

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Vozes Ciganas no Associativismo (Parte II), Entrevistas
Susana Silveira
Entrevista realizada em junho de 2019, Almada
Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O seu interesse pessoal pela problemática?
Susana Silveira (SS): O interesse pelo associativismo foi mesmo para dar voz à comunidade cigana, porque hoje em dia, cada vez mais, nós temos que nos fazer ouvir, embora existam algumas outras associações que têm feito um bom trabalho até aqui e um bom caminho, porém ainda não são suficientes, então o interesse pelo associativismo é para que nos façamos ouvir da forma correta.
ObCig: A sua perspectiva sobre o mesmo?
SS: A minha perspetiva é que o associativismo cigano é muito importante, tem tido um papel fundamental na nossa cultura, porque cada vez mais vai-se mudando mentalidades tanto de pais, através do associativismo já vão valorizando mais a escola, já vão tendo noção que querem que os filhos possam e vão conseguir ser alguém, através das associações. Porque a associação cigana, muitas das vezes até faz um papel fundamental, que é um papel de mediador, porquê? Porque leva as famílias mais tradicionais, as mais fechadas a entender que existe mais do que a nossa cultura, que podemos manter a nossa cultura, sermos cidadãos e cidadãs bem formados, para podermos então integrar o mercado de trabalho e termos mais sucesso.  
ObCig: As possibilidades do seu desenvolvimento?
SS: Possibilidades vão desaparecendo bastantes, mas o que nos interessa a nós é mesmo realidades, porque possibilidades embora haja muitas, não passam de possibilidades, nós queremos realidades. Então, nós precisamos sim de apoios, mas apoios verídicos, precisamos de estar em locais onde sejamos aceites, mas não apenas para estar lá a representar, que façamos mesmo o nosso trabalho. E cada vez mais, vamos vendo e vamos podendo entender que vamos sendo levados a sério e o nosso papel é mesmo esse, ser levados a sério. E quando nos fazem convites, quer para política quer para aquilo que seja, que sejam convites levados a sério. Possibilidades são boas, mas realidades são melhores.
ObCig: Os caminhos que esse desenvolvimento pode e/ou deve tomar?
SS: Eu como faço parte do Concig, eu acho muito importante o que se tem estado a fazer até agora, os planos de estratégia local e, quero muito que esses planos sejam aplicados à séria e que sejam não só elaborados mas que sejam concretizados, porque esses planos são fundamentais quer para o associativismo, quer para a comunidade cigana geral, porque esses planos visam traçar vários lemas que existem, porque nós enquanto associação sem fins lucrativos, sem qualquer interesse egoísta, sem qualquer interesse próprio, o nosso objetivo é que seja feito o melhor para a comunidade cigana e eu acho mesmo que passa por isso, pelos planos de estratégia local. Sim porque a comunidade cigana não é apenas uma comunidade, mas existem várias comunidades ciganas, então se existem várias comunidades ciganas, logicamente existirão vários problemas e esses problemas têm então que ser resolvidos de forma individual. Não podemos juntar tudo e colocar tudo da mesma forma, querer resolver tudo, se um lado tem um problema, tem de se resolver, se noutro lado tem outro problema tem de se resolver, terá que se resolver de uma outra forma. E eu acho muito essencial as audições públicas à comunidade cigana, eu acho muito ideal os planos de estratégia local. Acho que faz muita falta o papel de mediador ser valorizado, porque até então não tem sido muito, e o interesse é mesmo nessa óptica.   
ObCig: O que pode ser feito para o melhorar
SS: Eu entendo que para melhorar, nós ainda somos muito recentes, daquilo que eu tenho visto é a nível local, quando nós dizemos que podemos contar com o apoio de uma determinada freguesia ou Câmara Municipal, que normalmente nos passam essas informações informalmente, mas que possamos realmente contar com elas. A nível das queixas que são feitas, nós temos muitas queixas a nível de racismo, que são formalizadas, mas que acabam por ficar em nada e isso é uma das coisas que nós temos mesmo que melhorar. Porque nós enquanto associação, chegam-nos muitas queixas e depois nós o que é que temos a dizer às pessoas, vamos tratar, vamos formalizar a queixa, porém as pessoas esperam resultado. Nós ensinamos sempre às pessoas que temos de agir dentro da lei, têm que esperar que se faça justiça. E depois na hora da verdade as pessoas perguntam resultados, e nós acabamos por dizer que acabou em nada. Então, acho mesmo, tenho mesmo a certeza, que um dos aspetos a melhorar seria mesmo esse, a nível das associações. Formar as associações para saber-se formalizar as queixas e que as queixas tenham realmente um segmento de justiça real.   
ObCig: Articulação entre: a) associativismo, b) humanização socio-cultural, c) políticas públicas; direitos humanos, construção de uma cidadania activa, crítica, emancipatória e humanista.
SS: Em primeiro lugar eu acho que o associativismo tem a ver com o humanismo, porque para formarmos uma associação, em primeiro lugar temos de ser humanos, a nossa associação é para integração da comunidade cigana, mas nós temos de ser humanos o suficiente para sabermos que todos somos iguais e todos somos diferentes, mas para que nos respeitemos mutuamente, para que haja respeito e penso que a base disso tudo é o respeito. Porque um associativismo onde não haja respeito e onde não haja respeito dos direitos humanos, então há algo que está mal, há algo que não funciona. Então, nessa circunstância, penso que isso sim, acho que está interligado.
Por exemplo, nós temos tido através da associação, temos feito vários eventos, inclusive agora vamos participar de um evento de uma feira intercultural. Ou seja, essa feira intercultural não é só para a comunidade cigana, é para o público em geral e eu tenho a certeza absoluta que vão aparecer lá pessoas que não gostam tanto dos ciganos, e para ter esse primeiro contacto e desmistificar-se muitas coisas menos boas […]. Tenho a certeza que ao se desmistificar essas coisas menos boas, esses contactos, que é ali uma atmosfera de festa. As pessoas, mesmo aquelas mais tímidas vão chegando a nós sem receio. É muito importante porque vai caindo o preconceito. Vai-se desconstruindo aquela ideia má que têm do cigano. Nós temos associações ciganas que juntam alimentos para quem mais precisa, isso é muito importante, porque nós principalmente quando se fala do cigano, fala-se sempre do mau e o bom nunca vem à tona. Nunca é tão divulgado quanto o mau. E o associativismo cigano tem sido isso mesmo, nós temos colaborado com muitas famílias, temos quebrado muitos tabus, estamos aptos para nos darmos a conhecer à sociedade maioritária, mas também desejamos que a sociedade maioritária nos aceite tal como somos. Termos que nos descaracterizar e deixar de ser quem somos para sermos aceites. Porque hoje em dia, em pleno século XXI não há ninguém que queira se descaracterizar daquilo que é para ser aceite. E nós também não queremos deixar de ser ciganos, porque ser cigano é ter orgulho na família, é cuidar dos mais novos, é respeitar os mais velhos, é termos uma linguagem própria, é fazermos festas espectaculares. Ser cigano é o bom. O que tem de mau, que possa existir, que às vezes a sociedade possa pensar que há de mau, podem às vezes ser alguns costumes maus, e esses nós vamos retirando. Ser cigano é uma coisa positiva, e não tem de ser encarado negativa de forma alguma.
ObCig: Quer acrescentar algo? Quer descrever a sua associação?
SS: A minha associação é para a integração das comunidades ciganas, visa promover o emprego, visa promover a educação, a igualdade de género, entre outras coisas, nós temos vários projetos em mente, temos feito ações de sensibilização em escolas, em Atl´s, e temos tido uma boa receção, e temos tido notas muito positivas, sinceramente algumas têm-me surpreendido pela positiva.

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