Vozes Ciganas no Associativismo (Parte II), Entrevistas, Luís Romão

Imagem em Destaque

Vozes Ciganas no Associativismo (Parte II), Entrevistas

Luís Romão
Entrevista realizada em maio de 2019, Elvas

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O seu interesse pessoal pela problemática?

Luís Romão (LR): O meu interesse pessoal pelo associativismo cigano surge de há algum tempo para cá, surge quando eu comecei a trabalhar nesta área das comunidades ciganas, quando fui introduzido numa escola e comecei a trabalhar mais directamente com as comunidades. Mas é em 2014, 2013/2014 que surge a necessidade de nos formalizarmos mesmo enquanto associação, porquê? Porque no âmbito do ROMED 2 surgem os primeiros grupos ativos em Portugal e Elvas foi uma cidade escolhida. E nós formalizámos um grupo ativo e esse grupo ativo sentiu a necessidade de se formalizar enquanto associação porque precisávamos de credibilidade em relação às instituições públicas. Ou seja, nós eramos um grupo de pessoas que já trabalhávamos para as comunidades ciganas, elaborávamos propostas, mas faltava-nos algo. E esse algo era mesmo formalizarmo-nos enquanto associação. É em 2014 que se forma a associação Sílaba Dinâmica que passado 4 anos tem feito um trabalho notável em Elvas e que tem despertado o interesse de várias entidades a nível nacional. E dizer também que foi com a criação desta associação que se conheceram vários talentos em Elvas e vários ativistas em Elvas e vários membros da comunidade cigana que têm vindo a ajudar também na problemática que é das comunidades ciganas.

ObCig: A sua perspectiva sobre o mesmo?

LR: A minha perspetiva sobre o associativismo cigano é pessoal, mesmo muito pessoal, eu acho que ainda somos muito pequeninos em relação a outro tipo de associações. Também porque começámos há bem pouco tempo. O grande número de associações que se tem vindo a se formalizar têm muito pouco tempo de duração, têm muito pouco tempo de vida. Falta-nos muita experiência, falta-nos um pouco de apoio principalmente por parte da nossa comunidade, porque às vezes a comunidade cigana confunde um pouco o que é uma associação e o que é uma empresa. Uma associação, quase todas elas, são sem fins lucrativos. Uma associação tem órgãos de gestão. E a comunidade cigana às vezes confunde um pouco isso, nós às vezes somos crucificados pela parte da comunidade cigana e crucificados também pela parte da sociedade maioritária. É um pau de dois bicos. Nós estamos aqui no meio e às vezes levamos porrada de um lado e do outro. Agora em relação ao crescimento que nós podemos vir a ter, eu penso que tem pernas para andar. Cada vez mais jovens estão interessados no associativismo cigano e isso é importante, são pessoas com outra mentalidade, pessoas com ideias novas. São essas pessoas que podem, ao fim ao cabo, levar este associativismo da comunidade cigana para a frente.

ObCig: As possibilidades do seu desenvolvimento?

LR: As possibilidades para o desenvolvimento do associativismo em Portugal neste momento são muitas. Cada dia nós conhecemos pessoas que têm vontade de criar associações, principalmente associações ciganas. São jovens, a maior parte deles são jovens, nós incentivamo-los muito a que criem associações. O problema está, nós aí temos muito pouco conhecimento do que é o associativismo. Falta-nos muita base, porque ao fim ao cabo, a comunidade cigana, agora é que está a despertar agora também para o estudo. Agora é que temos muita comunidade cigana a formar-se no ensino superior e faz-nos falta pessoas técnicas, pessoas com conhecimento em relação ao que é uma associação, como é que se gere uma associação. Mas eu acredito que esta nova geração de jovens ciganos que vai dar muita força, muita força às comunidades ciganas em Portugal, ou seja, são eles que vão ser o nosso futuro.

ObCig: Os caminhos que esse desenvolvimento pode e/ou deve tomar?

LR: O caminho das comunidades ciganas em relação às associações, eu tenho feito ultimamente na associação Sílaba Dinâmica e acho que para mim é um dos temas mais importantes que nós temos é Educação. A associação Sílaba Dinâmica em 2017 voltou-se muito para a área da educação, trabalhar com crianças, e porquê trabalhar com crianças? Porque ao fim ao cabo as crianças são o nosso futuro. Nunca esquecer a população sénior, porque são realmente pilares na nossa comunidade, mas focando-se cada vez mais na educação. Porque é a educação que nos pode dar uma grande transformação, não na cultura mas sim no aspeto do conhecimento em relação às associações ciganas. O crescimento faz-se nas crianças, o crescimento faz-se na educação e é aí que na minha opinião se deve virar mais e se deve focar mais as associações ciganas. 

ObCig: O que pode ser feito para o melhorar?

LR: O que nós podemos fazer para melhorar, eu há pouco disse e volto a repetir, é que as associações ciganas têm que capacitar mais os seus membros. As associações ciganas têm que dar mais conhecimento do seu trabalho à população, principalmente à população cigana, porque ao fim ao cabo, a população cigana não sabe o que a associação trabalha. As associações ciganas têm que também ter nos seus órgãos sociais técnicos, porquê técnicos? Porque nós muitas das vezes quando concorremos a concursos públicos nós perdemos, porque nos falta um pouco de conteúdos, são esses técnicos que às vezes nos dão aquela pontinha que nos falta, para poder concorrer ao mesmo nível que as associações de magnitudes superiores. E focarmo-nos principalmente nisso nos órgãos de gestão, serem um pouco interculturais também, para que possamos ver, para termos várias vertentes nas nossas associações. [São interculturais?]  A minha é, aliás nós podemos formar uma associação cigana, as associações têm de ser interculturais. A minha associação tem 9 membros, não 12, acho que é 9, e 4 ou 5 são não ciganos. 4 ou 5. Faz falta, porque é assim, muita das vezes nós queremos uma associação, a gente nem sabe onde nos estamos a meter, nós queremos uma associação com fundamento, mas depois surgem mil ideias e depois de surgirem essas ideias, falta-nos o conhecimento, transformar as ideias na teoria. Nós conseguimos meter a teoria na prática, agora, prática… as ideias surgem e nós transformamos essas ideias na teoria nós não conseguimos. Por exemplo, vou-lhe dar um exemplo, o plano de atividades, fazer um plano de atividades, que para um técnico superior se calhar é uma coisa não tão difícil de fazer, mas para a comunidade cigana torna-se um bocadinho difícil, porque nós não estamos habituados a criar um plano de atividades, porque se quiseres ter um orçamento anual por exemplo, principalmente vindo de um município, nós temos de ter um plano anual, nós temos de ter um plano de estratégia, nós temos de ter um plano de atividades e ás vezes este plano de atividades, nós não sabemos fazer, e eu foi assim que o aprendi, foi com um técnico que me ajudou a fazer, por isso, se o técnico tiver nos órgãos sociais da associação torna-se muito mais fácil. Porque também é do interesse dele que esse plano de atividade tenha um fundamento e um plano com pernas para andar. Só assim as associações, na minha opinião, principalmente as associações novatas que têm pouca experiência na actualidade, só assim vão conseguir projetos. Porque uma associação sem fundos não consegue praticamente fazer nada. Porque hoje em dia tudo o que se consegue fazer tem de ser pago. Nós não conseguimos contratar ninguém sem pagar porque as pessoas fazem um trabalho voluntário não fazem dois, e ao fim ao cabo, se uma associação quer continuar a trabalhar tem de ter trabalho anualmente e tem que conseguir verbas para poder pagar a técnicos, professores e a todas as pessoas que, ao fim ao cabo, trabalham com a associação.

ObCig: Articulação entre: a) associativismo, b) humanização socio-cultural, c) políticas públicas; direitos humanos, construção de uma cidadania activa, crítica, emancipatória e humanista.

LR: Desde 2014 que nós criámos a associação Silaba Dinâmica a comunidade cigana em Elvas tem sido muito mais ativa, ou seja, tem sido muito mais participativa. Já participámos em vários eventos, juntamente com outras associações. Por exemplo, há bem pouco tempo tivemos uma acção de limpeza de um espaço verde. A associação Sílaba Dinâmica com alguns membros da comunidade cigana participámos, coisa que antigamente não conseguíamos fazer. Nós criámos um festival intercultural em Elvas, já tivemos mesmo até dois, onde participaram várias culturas em Elvas, a cultura africana, a cultura cigana, a sociedade maioritária. Interagimos entre as pessoas e só assim com essa interacção é que nós conseguimos que a comunidade cigana seja tão participativa. Quando foram as últimas legislativas… as últimas autárquicas, a comunidade cigana votou em massa, isso é participação. E a comunidade cigana ultimamente depois da criação desta associação ou porque damos a conhecer o que é a participação também, incentivamos a comunidade cigana também à participação e depois isto tudo é um jogo, sem querer vamos entrando e vamos participando.

Em relação ao associativismo e às políticas públicas, eu penso que a nível nacional se tem feito um trabalho bom com as associações e porquê? Porque deram oportunidade às associações ciganas concorrer a fundos para que, ao fim ao cabo, tenham a possibilidade de por em prática alguns dos seus projetos, por isso estamos a falar em políticas públicas. Logicamente que algumas políticas que não encaixam muito bem no associativismo, mas da experiência que eu tenho eu penso que as políticas públicas têm-nos vindo a beneficiar em relação ao associativismo cigano.

O associativismo tem sido cada vez mais importante na decisão das políticas públicas também porque às vezes surgem ideias nas associações que são transformadas em políticas públicas. Por exemplo, na associação Letras Nómadas surgiu uma ideia que foi o OPRE Chavalé que foi colocar jovens da comunidade cigana no ensino superior e começou com um apoio do Conselho da Europa que hoje transformou-se numa política pública, ou seja, hoje o programa OPRE chavalé faz parte de uma política de governo e foi através de uma associação cigana que se criou essa ideia que hoje em dia é uma política pública, ou seja, de uma política do governo.

ObCig: Queres acrescentar algo à entrevista?  

LR: Quero acrescentar uma crítica aos ciganos… principalmente as dificuldades que nós temos de dirigir uma associação, é muito complicado, é muito complicado porque e há pouco eu frisei isso, que é nós às vezes somos acusados de coisas… ou seja, nós para a comunidade cigana somos vistos como alguém que ajuda a sociedade maioritária e para a sociedade maioritária somos vistos como alguém que só está do lado da comunidade cigana e, não é bem assim. A comunidade cigana tem alguma dificuldade em perceber o que é uma associação e há pouco disse e volto a repetir, a comunidade cigana pensa que a associação é uma empresa, que gera lucros e que os lucros são para fins próprios dos membros da associação. E coisa que isso é impossível de se fazer. Torna-se muito difícil e desmotivante nós continuarmos a fazer um trabalho quando levas pedradas de todo o lado, é o mais complicado que eu vi desde que eu trabalho com a associação. É muito complicado nós estarmos a desenvolver um trabalho, ser boicotado às vezes pela própria comunidade, porque pensam que a associação, ao fim ao cabo, está a lucrar com tudo isto e a lucrar financeiramente. Quando, ao fim ao cabo, na associação o único lucro é o bem-estar das crianças principalmente com quem nós trabalhamos ultimamente e o bem-estar da comunidade cigana. Mas é continuar a lutar e esperar que melhores dias venham. 


Contactos Contactos

Alto Comissariado para as Migrações, I.P.

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig)

Rua Álvaro Coutinho, 14, 1150-025 Lisboa

T. (+351) 218106100 | F. (+351) 218106117

Facebook ObCig

Ativado por Liferay