Vozes Ciganas no Associativismo (Parte 1), Entrevistas, Sónia Matos

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Vozes Ciganas no Associativismo (Parte 1), Entrevistas

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Sónia Matos
Entrevista realizada em junho de 2019, Seixal

Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): O seu interesse pessoal pela problemática?

Sónia Matos (SM): O interesse entrou na minha vida por um acaso, porque eu não tinha qualquer tipo de conhecimento para o que é que servia uma associação ou o que é que se podia fazer numa associação. Nós tomámos conhecimento, quando digo nós, são as cinco fundadoras da associação AMUCIP que se conheceram num curso de mediadoras socioculturais e foi um formador que viu essa potencialidade em nós. Tínhamos capacidade para nos juntarmos e formarmos uma associação. E ele disse-nos é que uma não consegue ter voz e as cinco se se juntarem numa associação de mulheres conseguem ter mais força e lutar pelos vossos direitos, quando ainda nós nem sabíamos o que era direitos, o que era o mundo do trabalho. Estávamos a dar os primeiros passos na sociedade e portanto o nosso percurso tinha sido igual ao de tantas outras meninas ciganas em que estudámos e depois fomos retiradas da escola no quarto ano. Só mais tarde devido ao RSI é que comecei o meu percurso, voltei à escola, e depois a minha assistente social encaminhou-me para este curso que estava a dar início de mediadores socioculturais. E pronto, foi assim que o associativismo entrou na minha vida.    

ObCig: A sua perspectiva sobre o mesmo?

SM: O associativismo penso que foi a primeira medida, a seguir ao RSI, depois começou a integração da comunidade cigana em várias vertentes, a escolaridade, em acções de formação, em cursos de mediação, e a verdade é que esses mediadores que foram formados todos eles criaram ou desenvolveram um percurso de associativismo, porque foi por aí que nós conseguimos criar voz e começar a dar a conhecer à sociedade maioritária o que era a comunidade cigana, portanto os primeiros dez anos da associação foi principalmente formar a sociedade maioritária na cultura cigana, da comunidade cigana, dar a conhecer os nossos valores, quem somos, como vivemos, porque temos esta atitude, porque andamos desta forma, porque reagimos desta maneira. Porque no fundo os estudos é sempre assim que nos veem, como alguém que é completamente diferente e que é importante estudar, como é que eles comem, como é que se vestem, como é que eles andam, e portanto durante quinze anos o nosso governo andou a estudar a comunidade cigana. E os estudos e os livros estão todos aí, mas depois estes estudos e estes livros nunca foram buscar a verdadeira história da cultura cigana, porque nós fazemos parte deste país, desta história. Onde é que nós ficámos, porque é que nós não fazemos parte do currículo escolar na história portuguesa, porque nós estávamos presentes. Portanto a associação a mim e às mulheres ciganas deu-nos o poder e o conhecimento de podermos sonhar com uma vida melhor. Mas eu acho que as associações ainda têm um longo percurso pela frente, porque as associações, esta massa associativa que nasceu tem cerca de 15, 16 anos e poucas foram as associações que conseguiram vingar porque é muito complicado associações de comunidade cigana conseguirem manter-se. Agora tem o ACM que é a única entidade que ainda financia um bocadinho as associações ciganas, mas a verdade é que nós estamos ainda a dar pequenos passos porque já provámos que conseguimos fazer um excelente trabalho. E a sociedade maioritária já chegou à conclusão que para trabalhar com a comunidade cigana tem de trabalhar Com os ciganos, não é Para os ciganos. E portanto acho que as associações foram e são aquilo que está a fazer a mudança dentro da comunidade cigana.

ObCig: As possibilidades do seu desenvolvimento?

SM: Dentro da comunidade cigana neste tempo o que eu acho é que as associações tiveram a crescer e a empoderar-se elas próprias, porque elas próprias não sabiam muito bem como desenvolver o seu trabalho, eu falo pela minha associação, mas agora como já temos encontros de associações no ACM, deparo-me que todos temos as mesmas dificuldades e que ainda precisamos de muito apoio por parte do governo para continuarmos a crescer também, porque precisamos desse apoio enquanto associação que está a dar os primeiros passos, mas acho que nós para podermos alcançar a credibilidade que as outras associações e instituições já têm, ainda nos falta um longo caminho, porque a própria comunidade cigana o conceito associação ainda não está desenvolvido dentro de si. Neste momento, as mulheres com quem eu trabalho são cerca de 60, já é um número que nos dá para ter uma pequena visão, elas encaram a associação como um espaço em que estão lá mulheres ciganas e que podemos ter formação. Um espaço que é delas, que podem falar da forma que estão e onde não têm qualquer tipo de receio. Mas o conteúdo ou para que serve uma associação é muito de trabalho de colaboração de grupo. E eu acho que a comunidade cigana ainda lhe falta trabalhar essa parte. De colaboração em trabalho em prol da comunidade, porque não temos aquela… ainda não consigo chegar lá, mas acho que nos falta uma raiz que nós pudéssemos pegar todos e dirigirmo-nos todos naquele sentido. Porque agora o que eu sinto, é que as associações, cada uma está a trabalhar por si e a comunidade cigana começa a ver estes movimentos e começa a perceber estas acções. E portanto estamos numa fase de empoderamento, que as mulheres começam a perceber, nós se tivermos juntas, conseguimos ter mais voz e conseguimos continuar. Mas as minhas mulheres, já não conseguem conceber a ideia que os projetos terminam em tempo. E as minhas mulheres, as que tinha aqui há dez minutos, o projeto vai durar até 31 de Julho, e elas já me estavam a dizer como é que é, isto não pode acabar. Elas não pensam que isto tem de ter um financiamento para dar continuidade. Isto é necessário fundo para dar continuidade. Portanto há um trabalho muito muito grande a ser feito dentro da comunidade cigana para valorizar ou para que elas tomem consciência do que é realmente o associativismo e para que ele serve.  

ObCig: Os caminhos que esse desenvolvimento pode e/ou deve tomar?

SM: Em primeiro lugar acho que tinham de ser do governo, governamentais, medidas que pudessem dar mais apoio, financiamentos para que estas associações pudessem sustentabilizar o seu trabalho para que fosse uma coisa mais contínua, porque neste momento eu tenho 5 anos, vai para o 5º ano de projeto PAC, mas são projetos muito pequeninos, projetos de um ano que eu preferi manter o mesmo grupo para dar continuidade a um trabalho destas mulheres e no dia 6 elas vão fazer uma mostra ali nas oficinas Cargaleiro com os trabalhos que elas desenvolveram, patchwork, pintura, fotografia e é bom que nós também possamos mostrar esse outro lado, que as mulheres não sabem só costurar e cozinhar na comunidade cigana, temos que abrir os horizontes e abrir as portas porque todos os ciganos não podem ser ativistas e associativistas e mediadores. Temos que abrir portas de trabalho em outras instituições para que a comunidade cigana se comece realmente a integrar e conseguir-se sentir integrada também.

ObCig: O que pode ser feito para o melhorar

SM: Neste momento estamos… eu penso que é um caminho que me parece correto, estamos a desenvolver um trabalho de mais proximidade dentro do ACM com uma presença já muito notória das associações ciganas, mas gostaríamos muito, nós associações, de termos uma identidade externa ao governo, que fosse independente, para termos mais autonomia, porque por muito que nós possamos dizer ou opinar, o que prevalece é a vontade do ACM e do ObCig, nós podemos estar lá a batalhar, a partilhar ideias, mas ainda não temos independência real, precisávamos de uma entidade independente ao governo que defendesse realmente a comunidade cigana, os seus direitos e os seus deveres.

ObCig: Articulação entre: a) associativismo, b) humanização socio-cultural, c) políticas públicas; direitos humanos, construção de uma cidadania activa, crítica, emancipatória e humanista.

SM: Sim, ser associativista é isso tudo e isso está tudo ligado e pelo aquilo que eu entendo todo o percurso e todo o trabalho que a associação faz é no sentido de empoderar estas mulheres, de se conhecerem a si próprias e de fazer o seu percurso, a AMUCIP ajuda a criar essa auto-estima, esse conhecimento e depois o objectivo principal é ajudá-las a elas caminharem e a chegar juntas às instituições. Portanto, o ano passado consegui criar um grupo de alfabetização na Escola Secundária da Amora, parceria desenvolvida pelo centro qualifica, estas mulheres terminaram este projeto que é de competências básicas, terminaram este ano e já se inscreveram este ano para fazer a EB1. Portanto, elas agora já estão sozinhas, já estão nas escolas e já fizeram o seu percurso, assim como as mulheres que estou a acompanhar, encaminhei para outra instituição que é as oficinas Cargaleiro, que é as Artes, e portanto está outra instituição a trabalhar com estas mulheres. Porque o objetivo é empoderá-las e depois elas seguirem às instituições e é dessa forma que o associativismo depois cria a cidadania e o saber estar e o saber viver. Acaba tudo por estar tudo ligado no trabalho que desenvolvemos no dia-a-dia e na vida destas mulheres. Porque há um trabalho muito grande a ser feito antes disto tudo ser concretizado, nós tivemos um ano com essas mulheres em que foram preparadas aqui na AMUCIP, o saber estar, o saber estar sentada umas horas, o habituar a família a que elas tivessem aquelas horas fora de casa, quando digo família digo maridos, filhos. E isso é todo um trabalho que se tem de fazer antes e agora ela já conseguem ir sozinhas para a escola e desenvolver o seu percurso. Mas primeiro tem que haver um processo realizado por uma associação, porque são outras mulheres que falam como elas e que passaram pelo mesmo que elas, e que se hoje estão aqui, eu também posso ambicionar uma coisa melhor para mim. Acho que é muito nesse sentido.

Nós por exemplo criámos um kit pedagógico que está a ser aplicado nas escolas e está preparado para ser aplicado do jardim-de-infância ao 4º ano e o Ministério da Educação validou esse kit pedagógico, portanto isso poderia e é uma influência, porque ao estar na página do Ministério da Educação e a ser validado e reconhecido que é uma boa prática e também ter sido aprovado agora no guião, foi elaborado pelo Ministério da Educação e estar lá como uma referência, isso é influenciar também o resto da sociedade e portanto é pegar em algo que uma associação criou e fez para ser aplicado como uma política pública para todas as crianças. Também temos o exemplo das Letras Nómadas que trouxe um projecto a nível europeu, com fundos europeus, que financiou as bolsas dos estudantes OPRÉ Chevalé e que depois o nosso governo aderiu e colheu essa medida como medida de política pública. Isso é uma demonstração que as associações da comunidade cigana estão a desenvolver um trabalho muito credível, um trabalho que tem cerca de quinze anos, não tem mais, e que nestes quinze anos conseguiu fazer muito mais que a sociedade maioritária fez em trinta anos de estudos.


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