Vozes Ciganas na Mediação Intercultural (Parte I), Olga Mariano

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Vozes Ciganas na Mediação Intercultural (Parte I), Entrevistas
OLGA MARIANO
Entrevista realizada em novembro de 2018, Lisboa
Observatório das Comunidades Ciganas (ObCig): Como surgiu a oportunidade de ser mediador/a intercultural?
Olga Mariano (OM): A oportunidade de ser mediadora intercultural surgiu há alguns anos atrás, tenho de recuar até ao ano de 1999, altura em que estive numa ação de formação com mais 5 colegas ciganas e 11 colegas africanas numa ação de formação intercultural, ou seja, mediadores culturais, na altura. E foi um ano realmente muito interessante de aprendizagem. Aprendizagem não só formativa, mas também aprendizagem de vida. Porque foi pela primeira vez que as mulheres ciganas se encontraram durante um ano com as mulheres africanas, cohabitaram e conviveram durante todo o ano e foi sem sombra de dúvida muito importante para mim essa aprendizagem humana, foi excelente. Inclusive também a própria ação de formação tinha vários temas muito importantes, muito interessantes para o nosso dia-a-dia de mediadoras ou mediadores, inclusive para nós que estávamos a ser formadas para trabalhar nas escolas, nos atl´s, também nos jardins-de-infância e sem dúvida todo o contexto formativo nos deu oportunidade de termos mais conhecimento, mais empoderamento do que era ser mediadora. Sem dúvida que foi um ano excelente de aprendizagem, de empoderamento e até de maturidade. 
ObCig: O que significa para si ser mediador/a intercultural?
OM: Ser mediadora não é só uma palavra, portanto é muito mais do que isso, ser mediadora é fazer a ponte entre a família e a escola. É ser uma extensão da própria família de forma a podermos interagir com uns e com outros. É termos a sensibilidade de tratamento com a escola e com as crianças e com a família. Isto é quase um elo de ligação e que não é fácil, porque nós temos o conhecimento de uma parte e de outra, mas também temos que ter muita responsabilidade para podermos opinar, para podermos apoiar, para podermos dar, portanto, a explicação… Ser mediadora intercultural é muito mais do que uma palavra, é muito mais do que uma forma, uma forma de abordagem de um tema que vai muito mais além do que ser mediadora sociocultural ou intercultural, portanto, é uma forma de estar, é uma forma de interagir, é uma forma de fazer de ponte, é um elo de ligação entre a família, a escola e a criança. Temos uma responsabilidade muito acrescida, e temos também de ter o conhecimento entre uma cultura e outra, a cultura maioritária e a cultura cigana para podermos trabalhar com consciência e com conhecimento e podermos levar a água ao nosso moinho, que é sem sombra de dúvida que é que as crianças ciganas tenham continuidade na sua vida e no seu percurso escolar. 
ObCig: Na sua perspectiva, qual é o papel do/a mediador/a na sociedade?
OM: Não é um papel muito fácil porque, como disse anteriormente, o papel do mediador na sociedade tem toda essa responsabilidade acrescida que eu falei anteriormente, mas também tem que ter mais vertentes. E a vertente da sensibilidade, a vertente de termos capacidade de conquista da criança, do próprio corpo diretivo das escolas, das auxiliares da acção educativa. Muitas das vezes pensam realmente “a cigana vem para aqui roubar o meu espaço ou vem tirar o meu trabalho ou vem fazer com que eu pareça insignificante”. E muitas das vezes as próprias professoras têm alguma dificuldade, portanto, em entender o que é o papel da mediação e para isso é muito importante, mas muito importante, que nas escolas tenham mediadores socioculturais ou interculturais, como queiramos chamar, que tenham formação sobre o papel do mediador nas escolas. Porque esse papel é muito importante para os dois lados, mas também é um papel, embora não estejamos fechados num quadrado, nós estamos, nós somos praticamente pessoas com vários conhecimentos e que podemos pô-los em prática, quer seja no recreio, quer seja numa sala de aulas, quer seja numa reunião. Mas também é importante que tenham conhecimento exactamente de qual é esse papel porque muitas das vezes eu sei que há mediadores escolares nas escolas e que estão a ter um papel completamente diferente do que é o seu papel. Estão a fazer mais tarefas de auxiliares de ação educativa, estão a fazer mais tarefas de pintura, de limpeza, porque os professores não sabem distinguir e não estão informados para esse papel que é um papel tão importante. 
ObCig: Como acha que as pessoas olham para o/a mediador/a?
OM: Esse olhar que as pessoas têm de o mediador muitas vezes é um olhar de desconfiança por várias situações, como também disse na resposta anterior, porque o “cigano pensa que vem nos ensinar alguma coisa”, “não nos vem ensinar algo”, porque a obrigação e nós sabemos que sim, como portugueses, é que os meninos e meninas andem nas escolas, mas também têm que ver que é um papel de motivador, porque têm que ver que é uma cultura diferente, nós somos iguais, nós somos portugueses, mas temos uma cultura diferente. E era muito importante que em vez de trabalharmos separadamente, trabalhássemos em conjunto e se nós conseguíssemos unir, portanto, todas estas forças, de certeza absoluta, que iríamos ter meninos e meninas portugueses ciganos muito mais bem formados e com muito mais vontade de seguir os seus estudos para além da primária ou do segundo ciclo, porque aquilo que nós gostaríamos era que ultrapassassem o 2º, chegassem ao 3º  e depois fossem inclusive para a universidade, para o ensino superior. Isso é que é a grande luta dos mediadores. Portanto, há que entender que o mediador está ali como uma ferramenta. Utilizem-na com toda a sua capacidade e com todo o conhecimento para que em conjunto e sempre em conjunto chegarmos mais além. 
ObCig: Lembra-se de alguma situação em particular que o/a tenha levado a reflectir mais sobre o papel de mediador/a? 
OM: Poderia falar de várias situações que me levam a reflectir sobre o papel da mediação e sobre às vezes o desconhecimento que existe desse papel, mas há uma situação muito caricata, isto até foi numa altura que eu estive em estágio numa escola, uma escola bem formada, num bairro social muito difícil, mas realmente com uma direção bastante interessada no papel da mediação, mas com alguns professores com um desconhecimento total do papel da mediação e com uma forma de tratar as crianças, porque são todas crianças independentemente de serem de uma ou de outra cultura e de tratar as crianças da forma como elas merecem e o respeito que elas merecem. E eu tinha um menino cigano nessa turma, é importante que eu diga que eu fui muito bem recebida nessa escola, mas há esta situação e eu acho importante partilhá-la convosco. E então acontece que um dos meninos ciganos numa turma tinha assim o cabelo mais comprido, também porque era filho de gente muito pobre e não se pode andar a cortar o cabelo sempre, não há dinheiro para… e então a professora zangou-se com ele e disse-lhe “tens que ir cortar o cabelo, pareces mesmo um cigano”, o menino foi para casa e disse “a professora está sempre… e os outros meninos também se riem, porque a professora está sempre a dizer que eu pareço um cigano com este cabelo grande”, a mãe fez um enorme sacrifício e mandou cortar o cabelo ao menino, mas para não andar a cortar sempre, cortou-lhe bastante curtinho, quando ele chegou no outro dia à escola, pensando que ía levar um elogio, a professora olhou para ele e disse “epá era preciso cortares o cabelo dessa maneira, vê-se mesmo que estavas cheio de piolhos”, portanto isto são situações que não podem de maneira nenhuma acontecer na escola, não podem de maneira nenhuma. Eu tenho situações durante todo este tempo, desde 99, que eu fiz trabalho de mediadora, e só numa escola tive 5 anos, na escola Padre Cruz na Pontinha, aí estive a trabalhar 5 anos nessa escola, tenho bastantes recordações muito interessantes nessa escola, mesmo muito importantes, mas sem sombra de dúvida que há um desconhecimento muito grande e uma falta de sensibilidade de muitos professores e quando digo muitos não estou a generalizar, porque nunca se deve generalizar, mas que há muitos professores que têm muita falha na sensibilidade para trabalhar com as crianças. Sem sombra de dúvida que essas situações com a mediação têm muito mais facilidade, portanto, de serem trabalhadas, porque se houvesse a mediação se calhar a professora e se ela própria tivesse um pouco mais de sensibilidade poderia eventualmente dizer à mediadora “veja se conseguem cortar o cabelo ao menino, se há essa possibilidade, se não nós encontramos outra forma de o fazer”. Portanto há várias formas de trabalhar com as crianças. Mas nem tudo é mau, há muita coisa boa. E há muitos professores cheios de sensibilidade e conhecimento. E crianças também maravilhosas. Nesses 5 anos que estive no Bairro Padre Cruz também contar uma passagem muito interessante, eu estava numa sala com crianças, e quando digo crianças eram mesmo crianças, não era com uma ou com outra comunidade, que não conseguiam estar durante o tempo letivo numa sala de aula e então íam para a minha sala fazer vários trabalhos, inclusive fazíamos ponto cruz, e então uma das crianças ciganas olhou para mim e disse “olhe lá, você é mesmo cigana”, “sou, então não vês que sou cigana”, “não pode ser”, “não pode ser porquê?”, “como é que pode ser cigana e ser professora?”, “sou, podes ter a certeza que sou”. E diz-me outra menina africana “ai não não, você não é cigana”, “mas não sou cigana porquê?”, “não não é, você é mas é freira”. Portanto, é interessante ver que aquelas crianças nem para uma nem para outra eu não podia ser cigana, porque é muito raro ver-se ciganas professoras. Na ótica deles eu estava ali não como cigana, mas sim como professora. Há imensas histórias lindas que poderia e estava aqui um dia inteiro a falar nelas.
ObCig: Se pudesse, o que mudaria no papel do/a mediador/a?
OM: Primeiro que tudo, primeiro que tudo teria que haver estatuto do mediador, isso é o mais importante. Enquanto nós não tivermos esse estatuto, nós somos vistos e pagos como auxiliares da ação educativa e não é esse o nosso papel, é completamente distinto. Depois teria que haver também uma bolsa de mediadores através do Ministério da Educação para quando houvesse necessidade de recorrer a esses mediadores as escolas que tivessem essa necessidade o pedissem nessa bolsa a mediação que lhe era necessária, entre outras coisas, claro.
ObCig: O que acha que é importante mudar na sociedade para que esta se transforme numa sociedade intercultural? 
OM: Isso é muito difícil essa pergunta, se nos olhassem como pessoas e não como etnia de certeza que tínhamos uma sociedade muito melhor, se nos olhassem como um ser individual que podemos pensar por nós com um nome próprio, com um BI, e não como uma cultura ou como uma etnia era uma facilitação de estarmos muito mais bem, haver um cruzamento entre várias culturas existentes em Portugal. E aqui o grande prejuízo para as minorias é que a sociedade maioritária, não nos veem como seres individuais, veem-nos como pertença de uma cultura ou de uma etnia e depois metem-nos todos no mesmo saco. Isso para mim é das piores coisas que existem. Depois também há outras situações que realmente fazem toda a diferença, era morarmos na malha urbana em conjunto com os não ciganos, terminar-se com estes bairros sociais que só formam pessoas com grandes dificuldades de inserção na sociedade maioritária, que são guetos que depois para além das várias culturas lá existentes ainda existe a cultura de bairro que depois é muito difícil de transpor. Que nos olhem como pessoas, como seres humanos e que nos respeitem a nível de ser humano, mas também a nível cultural, porque nós temos uma cultura muito própria, da qual nos orgulhamos e como a alentejana, como a algarvia, é uma cultura que deve ser respeitada. E eu posso terminar por dizer que eu posso ser tudo o que eu quero ser sem nunca deixar ser quem sou.
ObCig: Tendo em atenção a sua história de vida e experiência de mediação, que mensagem gostaria de transmitir à sociedade?
OM: Partilhem, é muito importante partilhar, porque todos nós temos histórias boas e menos boas, mas se partilharmos com o outro as boas ficam ainda melhores e as menos boas até podem ficar boas, porque duas cabeças pensam melhor do que uma. 
ObCig: Quer acrescentar mais alguma coisa a esta entrevista?
OM: Eu acho que já falei de mais, mas de qualquer das maneiras eu acho que é importante darmos as mãos, não nos voltarmos as costas. É importante que este papel da mediação seja validado enquanto realmente um papel importante na sociedade e que é uma profissão muito digna. E é uma profissão sem sombra de dúvida que tem muito a ser explorada e que nos pode dar grandes vitórias. E essas vitórias são muito importante para nós, ciganos, porque aqui, enquanto e falando aqui não só enquanto mulher cigana, que todos nós sabemos a cultura seja de que povo for, recai sempre sobre os ombros das mulheres, então era importante que todos nós conseguíssemos que através da mediação dessemos oportunidade às nossas meninas ciganas terem continuidade nos seus estudos. E só validando este papel, só fazendo o estatuto do mediador, porque o mediador faz falta. O mediador é muito importante na escola, nas prisões, nos hospitais, nos centros de formação, nos centros de saúde, o papel é tão importante como os outros papéis existentes das várias funções de todos estes serviços, sem sombra de dúvida iria melhorar muito a relação entre uns e outros.

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